1985

Tempos de conflito estrutural entre o Terceiro Mundo e o Liberalismo Global.
Gorbatchev, Jacques Delors, Cavaco e a euforia neoliberal

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Entre Gorbatchev e Jacques Delors. No ano do começo do fim da guerra fria, vive-se um tempo de euforia ideológica neo-liberal, com a proclamação da necessidade de um Estado Mínimo, de menos Estado e melhor Estado ou de menos Estado, mais sociedade. Dá-se ascensão de Mikhail Gorbatchev à liderança soviética e, numa reunião do Politburo moscovita, em Dezembro, começa a falar-se na necessidade da perestroika e da glasnot, depois de Jacques Delors se tornar presidente da Comissão Europeia.

A pós-revolução efectiva – Já o ano português de 1985 marca a ruptura do sistema pós-revolucionário instituído sobre os compromissos do 26 de Novembro de 1975 e subsequente II Pacto MFA/Partidos e que tinham no eanismo e no soarismo as principias bissectrizes dos sucessivos paralelogramas de forças que as circunstâncias tinham desencadeado.

Euforia neo-liberal – No plano das ideias, no ano da morte de Carl Schmitt, Eric Voegelin e Manuel Antunes, continuam as teorizações sobre o individualismo (Laurent) e o neo-corporativismo (Cawson e Lucena), proclama-se o fim da modernidade (com o discípulo de Gadamer, professor em Turim, Gianni Vattimo, a analisar o niilismo e a hermenêutica na cultura pós-moderna), os liberais prosseguem na defesa de um Estado mínimo (Sorman) e outros analisam The Welfare State and Its Aftermath (Eisenstadt). Jean Leca e Roberto Papini interrogam-se mesmo sobre se Les Démocraties sont-elles Gouvernables? E, sobretudo, destaca-se a silenciada publicação em Paris, pelas Edições Togui, da obra de Roger Garaudy Biographie do XXème Siècle, subtitulada testamento filosófico, onde o mesmo autor reflecte sobre a sua passagem de marxista-cristão a crente islâmico, denunciando o positivismo que marca o ritmo ocidental, um pouco à imagem e semelhança do que antes acontecera com René Guénon (1886-1951), o autor de La Crise du Monde Moderne, de 1927, e de Le Règne de la Quantité et le Signe des Temps.

O pós-salazarismo e o neo-corporativismo – Já em Portugal, no ano em que o Instituto de Novas Profissões começa a editar a tradução da História da Filosofia do Direito e do Estado de António Truyol y Serra, fala-se num regime de pós-salazarismo (Joaquim Aguiar), n’uma solução para Portugal (Diogo Freitas do Amaral), na Europa como o risco do futuro (Viriato Soromenho Marques) e na passagem do pluralismo ao neocorporativismo (Maria Lúcia Amaral), enquanto o salazarista e ex-socialista Idalino da Costa Brochado (1904-1989) publica umas importantes Memórias.

  

Do fim do Bloco Central à adesão à CEE – Cavaco vence eleições

Entre Gorbatchev e Jacques Delors ä Encontro de Genebra entre Reagan e Gorbatchev

A pós-revolução efectiva

Euforia neo-liberal

O pós-salazarismo e o neo-corporativismo

1 e69 (5 Out. )

    Adesão de Portugal e da Espanha à CEE

    Cavaco Silva no poder

    Jacques Delors passa a presidir à Comissão Europeia

    Convenção de Schengen

    Morte de Tchernenko; Gorbatchev SG do PCUS; Gromiko Chefe de Estado

    Encontro de Genebra entre Reagan e Gorbatchev

    Morte de Enver Hoxha

    Morte de Tancredo Neves

Agostinho da Silva

Teremos uma República Federativa da Europa, Certamente ‑ mas Federativa de quê?

Federativa das nações renascentistas e pós‑ renascentistas ?

Não vou nada por essa solução. Continuarão os Escoceses sujeitos a Londres, os flamengos a Bruxelas, os de Valência a Madrid? Vamos perpetuar Luís XI ou Carlos V?

Tem de se dar volta completa e definir Pátria como a definiram Joana d'Arc em França, pela língua em que se brincou sendo criança, e Nun‘Álvares aqui, pela terra que se beija antes de um combate que pode ser o último

Kalevi Holsti reflecte sobre The Dividing Discipline. Hegemony and Diversity in International Theory,

Steve Smith publica International Relations. British and American Perspectives.

Stephen D. Krasner, Structural Conflict. The Third World against Global Liberalism;

Steve Smith, International Relations. British and American Perspectives.

Europa

Convenção de Schengen Também em1985, em 14 de Junho, e à margem destas reformas e proclamações, surgia, pela via da cooperação política, aquilo que viria a ser um dos elementos estruturates do terceiro pilar do tratado de Maastricht, a convenção de Schengen visando a supressão total do controlo de pessoas ns fronteiras internas e o princípio da estreita colaboração policial.

Subscrevem-na a França e a Alemanha, bem como os três do Benelux, mas a ela, irão aderir a Itália e, depois, Portugal e Espanha.

 

A liderança de Delors O projecto precisava de uma liderança simultaneamente forte e negociadora. Ei-la que emerge a partir de Janeiro de 1985 A nova Comissão Europeia presidida por Jacques Delors, iniciou funções em 7. Chama-se Jacques Delors, vai alcunhá-lo como Monsieur Europe e volta a vestir-se algo de Monnet.

Com ele regressa-se ao primado do método. Com efeito, Delors dá corpo a uma táctica criadora de novas estratégias, principalmente a partir da invenção do livro branco da comissão elaborado pelo britânico Lord Cockfield, que inventou o objectivo do mercado interno, espaço sem fronteiras a ser realizado até 31 de Dezembro de 1992.

O grande mercado único que, no fundo, não passa de uma transfiguração mediática do velho mercado comum foi o excelente pretexto para que despertasse a velha letargia comunitária, através do método da administração por objectivos, desdobrada num detalhado calendário de três centenas de medidas.

Inventava-se um motor e um catalizador, criando-se um processo de sinergia que permitiu um esforço praeter legem face aos tratados.

A luta contra as fronteiras

A luta simbólica contra as fronteiras ia tocar num dos elementos ontológicos do Estado moderno absolutista.

Com efeito, o Tratado de Roma se tinha abolido os direitos aduaneiros, não tinha feito desaparecer as fronteiras. A liquidação dos direitos aduaneiros eliminava de facto a razão pela qual a partir dos finais do século XVI se tinha iniciado o processo de estabelecimento das raias secas, o prelúdio de uma mais vasta territorialização do político que vai ser concretizada pelo Estado Absoluto, graças à aplicação do conceito de soberania externa

A Europa de 1992 vai sem dúvida constituir o leit motiv da segunda metade dos anos oitenta. É o tempo dos engenheiros financeiros e dos macroeconomistas e, muito principalmente, dos governadores de bancos e o voluntarismo político cede lugar ao esotérico dos relatórios bancários.

É a Europa bancoburocrática que regressa, talvez mais financeira do que economista e mais economico-financeira do que política.

Já não é a Europa dos diplomatas e dos estrategistas, como a que surgira com De Gaulle. Muito menos, a Europa dos políticos programáticos e dos homens de pensamento, como a do Congresso de Haia de 1948.

É um tempo de impotência do poder político, face a certas leis de ferro da economia. Um tempo onde, no quadro da teologia de mercado prègada pela onda da moda neoliberal, onde se reforçam os desafios da mundialização económica, conforme a opinião dominante da OCDE e com a inevitável viragem do GATT.

A Europa connosco

Foi em 12 de Junho de 1985, nos claustros dos simbólicos Jerónimos, que os gestores do aparelho de poder português subscreveram o tratado de adesão às comunidades europeias - a CECA, a CEE e a CEEA que já então se assumiam como Comunidade Europeia - , algumas horas antes de idêntica atitude ser assumida, em Madrid, pelo Estado espanhol.

Para alguns observadores de mais estreitas vistas, a atrelagem dos dois Estados ibéricos ao carro europeu não passava de mero prémio pela conquista da democracia por duas entidades que tinham tido das mais longas ditaduras do Ocidente no pós-guerra.

Para outros, algo de mais: a abertura da Europa àquele pedaço de si mesma que se desencontrara do ritmo das grandes questões europeias nos anos trinta deste século, não faltando até quem proclamasse, com alguma justeza, que não éramos nós a aderir à Europa, mas, pelo contrário, a Europa a aderir a si mesma.

Convenção de Schengen

Surge em 14 de Junho pela via da cooperação política, aquilo que será um dos elementos estruturantes do terceiro pilar do tratado de Maastricht, visando a supressão total do controlo de pessoas ns fronteiras internas e o princípio da estreita colaboração policial. Subscrevem-na, inicialmente, a França e a Alemanha, bem como os três do Benelux, mas a ela, adere a Itália e, depois, Portugal e Espanha.

Sueste asiático

O exército vietnamita liquida a resistência cambodjana, liquidando tanto os khmers vermelhos como os sihanukistas.

Em 2 de Setembro já Pol Pot deixa a liderança dos khmers.

Mensário1985

Janeiro
Começa a era Delors

Fevereiro
O papa peregrino

Março
A ascensão de Gorbatchev ao Olimpo do Kremlin

Abril
Mortes de Hoxha e Tancredo

Maio
A multidão assassina do futebol

Junho
Do apoio norte-americano aos contras à Convenção de Schengen

Julho
Greenpeace e experiências nucleares francesas

Agosto
Golpes de Estado e guerras civis, a história continua

Setembro
Eleições a Norte, golpes e protestos a Sul

Outubro
Entre o apertar do cinto e o regresso da pirataria

Novembro
A procura da paz para a Irlanda

Dezembro
Entre a aproximação do cometa e o projecto de Acto Único

 

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 01-05-2009