1993

União Europeia, Partido Popular, TVI e PS vencendo autárquicas

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Partido Popular O velho CDS, agora liderado por Manuel Monteiro, passa a Partido Popular (24 de Janeiro). O jovem líder, que conclui a licenciatura em Direito, querendo uma nova ideia para a Europa, reúne algumas contribuições estratégicas em Viva Portugal, com os contributos de Adriano Moreira, Paulo Portas e António Marques Bessa, entre outros.

Guerra das propinas Manifestações diante do Ministério da Educação são policialmente reprimidas (26 de Março). Cerca de cem mil estudantes candidatam-se à entrada no ensino superior (17 de Junho). A crise agrava-se em 24 de Novembro, quando a polícia carrega sobre os protestantes nas escadarias da Assembleia da República. No dia seguinte, é decretada uma greve às aulas e o próprio Presidente da República trata de criticar a atitude da polícia. O PSD fala em desordeiros e defende a hierarquia policial. Se antigamente, no tempo da ditadura, eram os polícias contra os estudantes, agora vira-se o disco, porque são os estudantes contra os polícias, embora continue a tocar-se o mesmo. Muitos questionam se vamos regressar à agitação universitária por causa de uma questiúncula. Poucos reparam que está em causa um problema de fiscalidade, e uma incompreensão relativamente ao Estado de Direito e à sociedade aberta.

Iniciam-se as emissões experimentais da TVI (30 de Janeiro), o quarto canal televisivo e o segundo não-público, da responsabilidade da Igreja Católica. As emissões regulares do canal começam em 20 de Fevereiro, sob a direcção de dois antigos ajudantes de Diogo Freitas do Amaral, Roberto Carneiro, o ministro da educação de Cavaco Silva, e José Ribeiro e Castro, o futuro deputado europeu de Paulo Portas.

Satélites – Em 26 de Setembro entra em órbita o primeiro satélite português, o Posat 1, enquanto se agrava o conflito institucional entre o governo e a presidência da república. Na equipa que coordena um projecto mais mediático do que científico, dado visar apenas o chamado reforço da auto-estima nacional, destaca-se o dirigente do LNETI, Professor Fernando Carvalho Rodrigues, antigo colaborador de Veiga Simão, que então se aproxima do PSD, de quem virá a ser candidato a deputado pela Guarda.

Vitória do PS nas eleições autárquicas (12 de Dezembro). Consegue 126 câmaras contra 116 do PSD. CDU com 49 e CDS com 13. Os socialistas Fernando Gomes e Jorge Sampaio vencem nas câmaras do Porto e de Lisboa, respectivamente, mas o homem do futebol, Valentim Loureiro, do PSD, conquista Gondomar. O PSD decide combater nas autárquicas de Lisboa e do Porto com dois dos seus ambientalistas mais afamados: Macário Correia e António Taveira. Isto é, tenta colocar dois altos dirigentes do PS numa postura situacionista e trata de fingir-se o contra-poder. Isto é, os dois irmãos-inimigos continuam o ritmo do bloco central europeísta. Os dois não passam de dois pratos da mesma balança do poder, de duas faces do mesmo oceano situacionista. Os que procuram monopolizar a democracia e que a afogam numa demagogia verbalista.

Aristides Pereira que, durante dezasseis anos, foi presidente de Cabo Verde, confidencia ao semanário Expresso que o povo crioulo, em1974, não queria a independência, mas um estatuto de autonomia que lhe garantisse o estatuto de ilhas adjacentes da metrópole. Afinal, os adeptos da descolonização talvez tivessem tão pouca razão quanto os da colonização. Todos repudiaram um espaço universal de portugalidade que não devia ter sido confundido com um regime, um sistema ou um governo. Todos foram simples peões do xadrez internacional da guerra fria, não faltando os idiotas úteis de um retórico anti-colonialismo que não passaram de meros agentes objectivo de neo-colonialismos ainda mais devoristas e sangrentos.

 

 

& Ortigão, Ramalho (As Farpas, IV): 114. Neste ano concluímos, em 23 de Novembro, o nosso concurso para Professor Associado do ISCSP e publicámos O Imperial-Comunismo. Ensaio sobre os Meandros de um Paraíso que não Houve em Dois Grandes Estados Continentais, Lisboa, Academia Internacional da Cultura Portuguesa,1993 (520 pp.). Proferimos uma série de conferências no Curso de Gestão de Negócios Internacionais, promovido pelo Instituto Português da Conjuntura Estratégica sobre a evolução da Europa do Leste (Maio de 1993), bem como Sobre a Europa, os Nacionalismos e a Maastrichtomania, Academia da Força Aérea, em 25 de Março de 1993; A Igualdade de Oportunidades e o Direito ao Ensino, conferência produzida na Casa de Mateus em 22 de Março de 1993, no Seminário A Educação, o Desenvolvimento e a Cultura como Factores de Progresso, organizado pela UTAD; A Universidade e o Desenvolvimento, colóquio promovido pelo Opus Dei na Reitoria da Universidade do Porto, em 27 de Novembro de 1993

Os pós-modernos – No oitavo ano do cavaquismo, quando morrem Natália Correia, António Quadros, António José Saraiva (eu sou existencialmente inconformista. Eu sou, de origem, um camponês. Eu fui espiritualmente cristão e teoricamente marxista. Eu estou contra a sociedade, independentemente das teorias. Eu acredito no espírito, mas não sou capaz de o definir) e Francisco de Sousa Tavares, eis que Jorge Braga de Macedo, ministro das finanças, proclama a economia como a rainha das ciências sociais, enquanto Carlos Queirós, o seleccionador nacional de futebol, diz que só continuará seleccionador se, da Federação, for varrida toda a porcaria que lá existe. Será ele a sair. Entretanto, Boaventura Sousa Santos publica Pelas Mãos de Alice, em mais uma investida pós-moderna do líder da Faculdade de Economia de Coimbra, enquanto Cavaco Silva nomeia Zita Zeabra, a ex-estalinista, agora militante do PSD, para coordenar a reforma do áudio-visual. No plano da intelligentzia o situacionismo continua a viver uma espécie de santa aliança entre o neo-realismo e o surrealismo, federado pelos homens da média cultura jornalística. O próprio cavaquismo, muito pragmaticamente, decide não enfrentar o status quo e entregar a sua ala intelectual à imagem transmitida por José Pacheco Pereira e por Vasco Graça Moura, os propagandistas de serviço que têm sucessivos duelos com José Magalhães e António Barreto. Na SIC, um dos profetas do neo-liberalismo, Pedro Arroja até propõe a privatização dos deputados e da justiça.

Sinais e anedotas – O corretor da Bolsa Pedro Caldeira que fugira do país, é detido nos Estados Unidos (20 de Março). Em Abril surgem várias notícias que afectam a credibilidade dos serviços públicos de saúde. Poluição por alumínio nas águas que se fornecem serviços de hemodiálise causa várias mortes em Évora. Em Junho, o ministro do ambiente, o aveirense Carlos Borrego, é obrigado a demitir-se por ter contado em público uma mórbida anedota sobre tais mortos. A secção aveirense do PSD no governo, liderada por Marques Mendes, sofre mais um rombo, depois de em Março de 1992 ter sido nomeado Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia, Henrique Diz, que, então, ainda se mantinha como militante formal do PS. Será mais tarde compensado com um cargo de Reitor da Universidade Atlântica, quando esta universidade privada fica sob controlo financeiros do presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino de Morais, e do seu presidente da Assembleia Municipal, Marques Mendes. Mas novas gaffes nomeativas impedi-lo-ão de exercer as funções, apesar de patrono continuar a preponderar, sem ter que lavar as mãos como Pilatos.

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009