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Coimbra, um ninho de águias – Coimbra
está sendo um ninho de águias. Ali fazem-se religiões novas, os apóstolos
recebem o espírito-santo no O da ponte, falam de tudo e em todos os idiomas, sem
eles mesmos saberem como infusamente lhes cai a ciência por eles dentro!... Cada
rapaz que leu o Vico, bem ou mal percebido, atira um pontapé ao globo, e diz:
faça-se luz nova! Alguns no pontapé quebram a ferradura, e os cavalos saltam à
cara dos cidadãos pacíficos que vão à sua via (Camilo Castelo Branco).
Morte do velho Portugal – Antero de
Quental, com 25 anos, dirige, em 2 de Novembro, a António Feliciano de Castilho,
com 60, o opúsculo Bom-Senso e Bom-Gosto. Como, mais tarde, vai
reconhecer o próprio Antero: abrira-se uma nova é para o pensamento
português. O velho Portugal, ainda conservado artificialmente por uma literatura
de convenção, morrera definitivamente... Se a uma ordem social se seguiu uma
espécie de anarquia, é isso ainda assim preferível, porque uma contém gérmens de
vida, e da outra nada havia a esperar.
Remodelação – Em 5 de Março, Lobo de Ávila
sai do governo. Loulé pede a demissão e tanto Sá da Bandeira como o Conde de
Torres Novas chegam a ser encarregados da formação de um novo governo, mas logo
desistem. Surge assim o chamado governo Loulé-Matias.
Loulé na marinha, em lugar de João Crisóstomo. O
3º marquês de Sabugosa, António Maria da Silva César e Meneses (1825-1893), no
reino, em lugar de Loulé. Sá da Bandeira na guerra, em lugar de Ferreira Passos.
D. António Aires Gouveia (1828-1916) nos negócios eclesiásticos e justiça em
lugar de Gaspar Pereira da Silva. Matias de Carvalho e Vasconcelos (1832-1910)
na fazenda, em lugar de Lobo de Ávila. Loulé pediu a demissão e Sá da Bandeira
chega a ser encarregado de formar novo governo, mas logo desiste. Depois de
breve remodelação, o governo resistiria apenas até 17 de Abril de 1865.
Oposição agravada
– É desesperado o estado das finanças públicas, segundo a expressão
de Lobo d'Ávila. Na Câmara dos Deputados, já António Serpa ataca directamente o
chefe da unha preta, chamando-lhe burlão, enquanto outros
qualificam a Loulé como rei de Sião, duque, ministro sonâmbulo.
Fundada a Cruz Vermelha Portuguesa, em 11
de Fevereiro, entidade reconhecida por decreto de 4 de Maio de 1887, funcionando
sob os auspícios dos ministérios da guerra e da marinha.
Maçonaria – Começam as conversações entre a
Confederação Maçónica Portuguesa, o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente
de Portugal, tendo em vista a unificação das várias obediências.
Governo nº 26 Sá da Bandeira (141 dias,
desde 17 de Abril). Um gabinete de antigos dissidentes do governo de Loulé.
Ministros Ávila e Fontes apoiam a fusão de históricos e regeneradores.
Presidente, o chamado honrado Marquês
acumula a guerra e a marinha, mas segundo texto coevo era uma sombra heróica,
perdida na confusão dos acontecimentos. Silva Sanches no reino e na justiça.
António José de Ávila na fazenda e nos estrangeiros. Carlos Bento da Silva nas
obras públicas (até 4 de Setembro de 1865).
Desencadeia-se um
novo ciclo político, com a cisão dos históricos e a emergência de novos
pequenos partidos. Como então chega a escrever-se, o partido regenerador
morreu. Segue-se a morte do partido histórico. Com efeito, a partir do
próprio governo surge uma proposta de aliança com os regeneradores, advogada
tanto pelo grupo de Loulé e Silva Sanches, como pelos seguidores de António José
de Ávila, que começam a divergir dos restantes históricos, logo em Fevereiro de
1862.
Saldanha regressa
a Lisboa, vindo de Roma, sendo esperado e saudado por uma multidão de cerca
de seis mil pessoas, com vivório, foguetório e bandas de música (4 de Julho).
Eleição nº 19
da Câmara dos Deputados (8 de Julho de 1865). Vencem os adeptos da fusão (74%),
em torno da Comissão Eleitoral Progressista, defensora dos melhoramentos
materiais. Uma união de históricos e regeneradores, defendida pelos ministros
Silva Sanches e Ávila, com a oposição do chefe do governo. Os opositores da
fusão têm 47 deputados (26%).
Melhoramentos
materiais – Fala-se num partido dos melhoramentos materiais.
Era... o modo grave de o partido histórico se sumir. Sombra evocada de um
passado extinto, guiada por um fidalgo sonâmbulo (Loulé), querido de um
rei excêntrico e misantropo, devia ter-se dissipado quando o rei morreu
(Oliveira Martins)
Governo nº 27 de Joaquim António de
Aguiar, desde 4 de Setembro, 853 dias. O chamado ministério Aguiar-Fontes.
Gabinete da fusão de regeneradores e históricos. A procura da maioria
suficiente, exigida por Sá da Bandeira, vai levar ao poder um governo de
históricos e reformadores, marcado pela ideia do partido dos melhoramentos
materiais. Lidera o mesmo o regenerador Joaquim António de Aguiar, o antigo
mata frades que, durante o setembrismo, assume a liderança da ala
ordeira. No novo gabinete vão coabitar homens como Loulé, Fontes e Barjona de
Freitas, numa experiência inédita em Portugal. O governo é precedido por um
acordo prévio entre Loulé e Aguiar. No dia 5 de Setembro, já recebia formal
apoio do deputado José Dias Ferreira que falou em conciliação e tolerância
política. A chamada unha branca
do partido histórico converte-se ao
situacionismo.
Presidente acumula o reino (até 9 de Maio de
1866). Augusto César Barjona de Freitas na justiça. Fontes Pereira de Melo na
fazenda. Isidoro Francisco Guimarães, visconde da Praia Grande de Macau na
marinha. Conde de Torres Novas, António César Vasconcelos Correia, na guerra
(até 11 de Novembro de 1865). José Joaquim Gomes de Castro, conde de Castro nas
obras públicas (até 9 de Maio de 1866) e nos estrangeiros.
Em 26 de Setembro: Isidoro Francisco Guimarães,
visconde da Praia Grande de Macau, na pasta da guerra, por morte do conde de
Torres Novas (será interino até 11 de Novembro de 1865 e efectivo até 22 de
Novembro de 1865).
Em 22 de Novembro: Salvador de Oliveira Pinto da
França na guerra (até 20 de Abril de 1866, data da sua morte).
Fundiu-se tudo –
E como tudo estava safado, mole, roto, podre, fundiu-se tudo
(Oliveira Martins). Outra garra, branca como o hálito da locomotiva, novo
ídolo do tempo, chamava à conservação política no seio da revolução económica, a
gente “séria” de todos os lados, fusionada, abraçada num liberalismo prático sem
doutrinas, num catolicismo também prático sem exageros, numa religião de sala,
perfumada, afrancesada, burguesmente aristocrática, numa moral fácil, numa vida
cómoda, já que de todo não podia ser regalada
(Oliveira Martins).