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  Anuário de 1865

O começo da fusão

Contra o Fontes da poesia

Círculos católicos operários

Arquivo antigo do anuário CEPP

Questão Coimbrã

 

Governo nº 26 Sá da Bandeira (141 dias, desde 17 de Abril de 1865). Um gabinte de antigos dissidentes do governo de Loulé. Ministros Ávila e Fontes apoiam a fusão de históricos e regeneradores.

Eleição nº 19 (Julho de 1865). Vencem os adeptos da fusão, em torno da Comissão Eleitoral Progressista, defensora dos melhoramentos materiais. Opositores à fusão, liderados por Sá da Bandeira, com 47 deputados.

 

Governo nº 27 Joaquim António de Aguiar. Desde 4 de Setembro de 1865, 853 dias. Governo da fusão de regeneradores e históricos.

Coimbra, um ninho de águias – Coimbra está sendo um ninho de águias. Ali fazem-se religiões novas, os apóstolos recebem o espírito-santo no O da ponte, falam de tudo e em todos os idiomas, sem eles mesmos saberem como infusamente lhes cai a ciência por eles dentro!... Cada rapaz que leu o Vico, bem ou mal percebido, atira um pontapé ao globo, e diz: faça-se luz nova! Alguns no pontapé quebram a ferradura, e os cavalos saltam à cara dos cidadãos pacíficos que vão à sua via (Camilo Castelo Branco).

Morte do velho Portugal – Antero de Quental, com 25 anos, dirige, em 2 de Novembro, a António Feliciano de Castilho, com 60, o opúsculo Bom-Senso e Bom-Gosto. Como, mais tarde, vai reconhecer o próprio Antero: abrira-se uma nova é para o pensamento português. O velho Portugal, ainda conservado artificialmente por uma literatura de convenção, morrera definitivamente... Se a uma ordem social se seguiu uma espécie de anarquia, é isso ainda assim preferível, porque uma contém gérmens de vida, e da outra nada havia a esperar.

Remodelação – Em 5 de Março, Lobo de Ávila sai do governo. Loulé pede a demissão e tanto Sá da Bandeira como o Conde de Torres Novas chegam a ser encarregados da formação de um novo governo, mas logo desistem. Surge assim o chamado governo Loulé-Matias.

Loulé na marinha, em lugar de João Crisóstomo. O 3º marquês de Sabugosa, António Maria da Silva César e Meneses (1825-1893), no reino, em lugar de Loulé. Sá da Bandeira na guerra, em lugar de Ferreira Passos. D. António Aires Gouveia (1828-1916) nos negócios eclesiásticos e justiça em lugar de Gaspar Pereira da Silva. Matias de Carvalho e Vasconcelos (1832-1910) na fazenda, em lugar de Lobo de Ávila. Loulé pediu a demissão e Sá da Bandeira chega a ser encarregado de formar novo governo, mas logo desiste. Depois de breve remodelação, o governo resistiria apenas até 17 de Abril de 1865.

Oposição agravada – É desesperado o estado das finanças públicas, segundo a expressão de Lobo d'Ávila. Na Câmara dos Deputados, já António Serpa ataca directamente o chefe da unha preta, chamando-lhe burlão, enquanto outros qualificam a Loulé como rei de Sião, duque, ministro sonâmbulo.

Fundada a Cruz Vermelha Portuguesa, em 11 de Fevereiro, entidade reconhecida por decreto de 4 de Maio de 1887, funcionando sob os auspícios dos ministérios da guerra e da marinha.

Maçonaria – Começam as conversações entre a Confederação Maçónica Portuguesa, o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente de Portugal, tendo em vista a unificação das várias obediências.

Governo nº 26 Sá da Bandeira (141 dias, desde 17 de Abril). Um gabinete de antigos dissidentes do governo de Loulé. Ministros Ávila e Fontes apoiam a fusão de históricos e regeneradores.

Presidente, o chamado honrado Marquês acumula a guerra e a marinha, mas segundo texto coevo era uma sombra heróica, perdida na confusão dos acontecimentos. Silva Sanches no reino e na justiça. António José de Ávila na fazenda e nos estrangeiros. Carlos Bento da Silva nas obras públicas (até 4 de Setembro de 1865).

Desencadeia-se um novo ciclo político, com a cisão dos históricos e a emergência de novos pequenos partidos. Como então chega a escrever-se, o partido regenerador morreu. Segue-se a morte do partido histórico. Com efeito, a partir do próprio governo surge uma proposta de aliança com os regeneradores, advogada tanto pelo grupo de Loulé e Silva Sanches, como pelos seguidores de António José de Ávila, que começam a divergir dos restantes históricos, logo em Fevereiro de 1862.

Saldanha regressa a Lisboa, vindo de Roma, sendo esperado e saudado por uma multidão de cerca de seis mil pessoas, com vivório, foguetório e bandas de música (4 de Julho).

 

 

Eleição nº 19 da Câmara dos Deputados (8 de Julho de 1865). Vencem os adeptos da fusão (74%), em torno da Comissão Eleitoral Progressista, defensora dos melhoramentos materiais. Uma união de históricos e regeneradores, defendida pelos ministros Silva Sanches e Ávila, com a oposição do chefe do governo. Os opositores da fusão têm 47 deputados (26%).

Melhoramentos materiais – Fala-se num partido dos melhoramentos materiais. Era... o modo grave de o partido histórico se sumir. Sombra evocada de um passado extinto, guiada por um fidalgo sonâmbulo (Loulé), querido de um rei excêntrico e misantropo, devia ter-se dissipado quando o rei morreu (Oliveira Martins)

 

Governo nº 27 de Joaquim António de Aguiar, desde 4 de Setembro, 853 dias. O chamado ministério Aguiar-Fontes. Gabinete da fusão de regeneradores e históricos. A procura da maioria suficiente, exigida por Sá da Bandeira, vai levar ao poder um governo de históricos e reformadores, marcado pela ideia do partido dos melhoramentos materiais. Lidera o mesmo o regenerador Joaquim António de Aguiar, o antigo mata frades que, durante o setembrismo, assume a liderança da ala ordeira. No novo gabinete vão coabitar homens como Loulé, Fontes e Barjona de Freitas, numa experiência inédita em Portugal. O governo é precedido por um acordo prévio entre Loulé e Aguiar. No dia 5 de Setembro, já recebia formal apoio do deputado José Dias Ferreira que falou em conciliação e tolerância política. A chamada unha branca do partido histórico converte-se ao situacionismo.

Presidente acumula o reino (até 9 de Maio de 1866). Augusto César Barjona de Freitas na justiça. Fontes Pereira de Melo na fazenda. Isidoro Francisco Guimarães, visconde da Praia Grande de Macau na marinha. Conde de Torres Novas, António César Vasconcelos Correia, na guerra (até 11 de Novembro de 1865). José Joaquim Gomes de Castro, conde de Castro nas obras públicas (até 9 de Maio de 1866) e nos estrangeiros.

Em 26 de Setembro: Isidoro Francisco Guimarães, visconde da Praia Grande de Macau, na pasta da guerra, por morte do conde de Torres Novas (será interino até 11 de Novembro de 1865 e efectivo até 22 de Novembro de 1865).

Em 22 de Novembro: Salvador de Oliveira Pinto da França na guerra (até 20 de Abril de 1866, data da sua morte).

Fundiu-se tudo  –  E como tudo estava safado, mole, roto, podre, fundiu-se tudo (Oliveira Martins). Outra garra, branca como o hálito da locomotiva, novo ídolo do tempo, chamava à conservação política no seio da revolução económica, a gente “séria” de todos os lados, fusionada, abraçada num liberalismo prático sem doutrinas, num catolicismo também prático sem exageros, numa religião de sala, perfumada, afrancesada, burguesmente aristocrática, numa moral fácil, numa vida cómoda, já que de todo não podia ser regalada (Oliveira Martins).