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  Anuário de 1879

1879

O primeiro governo progressista – Braamcamp: moralidade e liberdade

Do António Maria à Avenida da Liberdade

República radical em França

Arquivo antigo do anuário CEPP

 Em Maio, o ministro António Serpa é acusado de corrupção.

Novo directório republicano. Surgem os republicanos federalistas, liderados por Teófilo Braga.

 

  Governo nº 37 Braamcamp (664 dias, desde 1 de Junho). O primeiro governo progressista.

Eleição nº 27 (19 de Outubro). Vitória dos governamentais progressistas, que têm o apoio dos avilistas (105 deputados). Avilistas, 4 deputados. Regeneradores, 21 deputados. Têm o apoio dos constituintes, 6 deputados. Estes tentaram um acordo prévio com os progressistas.

A dinâmica republicana – Novo directório republicano com Oliveira Marreca, Latino Coelho, Sousa Brandão, Bernardino Pinheiro e Eduardo Maia. Resolvem publicar um catecismo das respectivas doutrinas, tarefa levada a cabo por José Joaquim Pereira Falcão (1841-1893) que assim edita a Cartilha do Povo (3 de Fevereiro). Animam-se os republicanos federalistas, liderados por Teófilo Braga e movimentam-se em torno da questão do Banco Nacional Ultramarino, acusando a administração de burla e concussão, com Sebastião de Magalhães Lima que, então, abandona a advocacia e passa a dedicar-se ao jornalismo, como director de o Comércio de Portugal, a emitir um opúsculo sobre a matéria. Como reconhece Basílio Teles, o republicanismo reduzia-se nessa época a um punhado de inofensivos visionários absorvidos em propaganda doutrinária dentro do recinto dos conventículos, mas era, em compensação, como espírito, ideia, esperança, um facto moral considerável.

1879 Socialistas – Emerge nova dissidência socialista: a do grupo d’ A Voz do Operário, órgão dos manipuladores de tabaco, que se aproximam dos anarquistas.

Os feitiços do Império – Os progressistas, na Câmara dos Pares, suspeitam das relações entre o ministério da fazenda, de António Serpa, e o Banco Nacional Ultramarino (Maio). Criticada a concessão da exploração das minas, baldios e florestas da Zambézia ao capitão Paiva de Andrade. O governo é particularmente atacado por Sabugosa, Mariano de Carvalho e José Frederico Laranjo. Em 28 de Maio consegue vencer votação sobre a matéria, mas apenas por oito votos. No dia seguinte, Serpa apresenta a demissão, arrastando todo o governo. Assina-se o Tratado de Lourenço Marques que tanto admite o desembarque de tropas britânicas nesse porto, como o patrulhamento das costas moçambicanas por navios britânicos (31 de Maio)

Chega a Lisboa o major Serpa Pinto (9 de Junho). Iniciara a travessia de África com Hermenegildo Brito Capelo e Roberto Ivens, oficiais de marinha, em 7 de Julho de 1877. No Bié, em 12 de Novembro do mesmo ano, separara-se destes dois companheiros, que se dirigiram para Nordeste, e seguiu para Sul, chegando a Pretória em 12 de Fevereiro de 1879.

Governo nº 37 de Anselmo Braamcamp (664 dias, desde 1 de Julho). O primeiro governo progressista, dando-se início ao chamado rotativismo puro, num jogo de partidos-sistema que se assumem como irmãos-inimigos. Promete-se moralidade e liberdade. Os avilistas, através de Barros e Cunha, dão apoio. Dias Ferreira, pelos constituintes, promete apenas benevolência. Os regeneradores entram em imediata oposição, através dos discursos de Lopo Vaz, Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro (1849-1907) e Júlio Vilhena.

Presidente acumula os estrangeiros. José Luciano de Castro Pereira Corte Real (1834-1914) no reino; Adriano de Abreu Cardoso Machado (1829-1891) na justiça; Henrique de Barros Gomes (1843-1898) na fazenda; Augusto Saraiva de Carvalho nas obras públicas; João Crisóstomo de Abreu e Sousa na guerra; 3º marquês de Sabugosa, António Maria da Silva César e Meneses (1825-1893) na marinha (até 17 de Junho)

A figura de Anselmo – Uma grave e entristecida figura, alquebrada, nostálgica, levemente céptica...um dos últimos da geração dos Passos, dos Cabrais, de Saldanha, de Sá da Bandeira, de Herculano, de Garrett, de José Estevão, do Sampaio da Revolução, e de Rodrigo da Fonseca (Oliveira Martins, sobre Anselmo Braamcamp).

Eleição nº 27 (19 de Outubro) Vencem os governamentais progressistas (77%, 105 deputados), apoiados pelos avilistas (3%, 4 deputados), antigos aliados de Fontes.

Nestas eleições houve uma luta intensa. Conforme a descrição de António Cândido, a urna foi disputada palmo a palmo, momento a momento. A oposição, julgando-se forte, entendeu que devia mostrar em toda a parte o seu valor e a sua influência.

Os regeneradores não passam dos 15% (21 deputados), com os republicanos a reelegerem Rodrigues de Freitas, pelo Porto. Mas os novos detentores do poder não mudam os vícios regeneradores, mantendo, nomeadamente, o regime das fornadas de pares. Na oposição, os regeneradores passam a aliar-se aos constituintes de Dias Ferreira (6 deputados, 4%).

Eleições prostituídas – Os pugilatos fermentam-se nas tabernas onde se bebem os vinhos capitosos da Companhia pagos pelos influentes galopins e pelas autoridades administrativas, que decerto não têm a paixão do partido em tal apuro que os paguem à sua custa. Desta infâmia surgiu uma desmoralização enorme. Esta canalha, chamada ao sufrágio por uma lei eleitoral cavilosa, não tinha a mínima ideia de deveres nem de direitos. O proletário, o jornaleiro sabe que pode negociar o voto entre um quartinho e nove mil reis. Na extrema um partido do outro. Conhece apenas os influentes que costumam negociar-lhe o voto; mas, às vezes, como ignoram as transacções que se fazem nas esferas altas da política, são afinal logrados, e vendem-se baratos. Aqui um meu vizinho feliz pôde comprar dez votos à razão de seis abóboras por cabeça. Chega a esta prostituição o direito de eleger. A fracção que legislou assim arrependeu-se quando viu outra facção colher o fruto podre da medida. Fazem-se estes cálculos vergonhosos fundados na estupidez da plebe; não se cuida em lhe dar consciência do acto (Camilo Castelo Branco, descrevendo o processo das eleições).