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1890 |
Do Ultimatum ao falado governo extra-partidário
(Ver Arquivo antigo do anuário CEPP |
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(Abril). Eleição de 50 pares.
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Ultimato britânico. Primeiro,
de forma oral. Depois, por escrito (11 de Janeiro). Exige-se que se enviem ao
governo de Moçambique instruções telegráficas imediatas, para que todas e
quaisquer forças militares portuguesas, que se encontram no Chire e nos países
dos macololos e machonas se retirem. O Conselho de Estado reúne até de
madrugada. Apenas Barros Gomes e António Serpa se manifestam favoráveis a uma
certa resistência, pela retirada das nossas forças dos territórios em disputa,
caso os britânicos aceitem a arbitragem. O resto do Conselho cede completamente
ao Ultimato.
Morte da velha ilusão imperial –
Morria finalmente a ideia de uma comunidade de povos cristãos organizada
pelos portugueses, sem necessidade de afirmar supremacias de qualquer outra
ordem que não as das virtudes da cristandade. Acresce que a aliança
inglesa foi rotulada como um conluio dinástico destinado a manter a Casa de
Bragança, para que Portugal existisse como Estado independente, mas uma
independência fictícia, com o Reino sob tutela dos ingleses (Eduardo Vera
Cruz).
Heróis do mar, contra os bretões...
– Vários motins em Lisboa (12 de Janeiro). O consulado britânico é
apedrejado. Ataques a jornais. Residência de Barros Gomes é também assaltada.
Muitos vivas e morras. A estátua de Camões em Lisboa aparece
rodeada de crepes negros, por iniciativa do deputado Eduardo Abreu e a
multidão vai enfim modelar-se em povo em torno da figura lendária do grande
épico, e uma pátria surgir onde até aí se revolvia surdamente uma colmeia
(Basílio Teles). A Sociedade de Geografia de Lisboa hasteia a bandeira nacional
a meia haste. Surge A Portuguesa, de Alfredo Keil e Henrique Lopes de
Mendonça. Miguel Ângelo Pereira compõe A Marcha do Ódio, musicando poema
de Guerra Junqueiro. Comícios em Coimbra, com a imediata criação de batalhões de
voluntários (13 de Janeiro).
Portugal
como asteróide – A Portugal sucedia o que
sobrevém aos asteróides do espaço: entrara na órbita envolvente duma potência
mais forte, e era, como eles, irresistivelmente arrastado para dentro da sua
esfera aspiradora. Toda a política exterior seguida pelos Braganças desde 1640,
consistira em fugir de um perigo para ir buscar outro perigo; em evitar um leão
para defrontar um leopardo; em escapar do Demónio para esbarrar com Satanás
(Basílio Teles).
Edição
do Finis Patriae, de Guerra Junqueiro (11 de Abril). O escritor profere
também um violento discurso onde considera que os partidos correspondem ao
estado da Nação. Fazem-me lembrar um homem que, numa feira, vendia vinho e
vinagre na mesma pipa. O vinho saía por um lado e o vinagre por outro. A droga
era a mesma.
Entretanto,
Sebastião de Magalhães Lima parte pela Europa numa propaganda intensa a favor
da confederação latina, uma federação republicana dos povos latinos, como
preâmbulo à confederação geral da Europa civilizada, e como preparação para que
um dia possa realizar-se o sonho dos filósofos e a utopia dos videntes, a
fraternidade humana, que hoje tem por seus implacáveis inimigos o egoísmo dos
monárquicos, o despotismo da tradição e o preconceito de inconscientes multidões,
como pode ler-se no relato da viagem que publicou Pela Pátria e pela
República. Por outras palavras, os republicanos parecem saber conciliar o
ideal maçónico da república universal e dos Estados Unidos da Europa com o mais
exaltado dos nacionalismos pátrios, nomeadamente pela construção imperial,
herdada de uma velha ideia de cruzada, pelo que a esfera armilar acaba por
conciliar-se com as quinas e a Cruz de Cristo que, entre nós, foi herdeira dos
iniciáticos Templários. O sebastianismo tenta, assim, conciliar-se com a ciência
e a aventura dos Descobrimentos com uma ideia de Estado.
Defesa nacional – Num comício
realizado no teatro da Trindade, é criada uma comissão de defesa nacional,
onde se junta gente de todos os partidos (23 de Janeiro). Inicia-se uma
subscrição pública para o efeito, no Teatro D. Maria II: não são um socorro
ao Estado, são um manifesto ao País. Entre os organizadores, o conde de S.
Januário, o médico José Tomás de Sousa Martins, Roberto Ivens, Luciano Cordeiro,
Teófilo Braga, Sebastião Magalhães Lima e Eduardo Abreu (24 de Fevereiro).
No Porto, forma-se uma Liga
Patriótica do Norte, com Antero de Quental e Luís de Magalhães, com o
fundador do nosso socialismo e vítima da proibição das Conferências do Casino a
dar as mãos ao filho de José Estêvão que há-se der um dos hierarcas da
Traulitânia de 1919.
Comício republicano no Coliseu
da Rua da Palma, em Lisboa, seguindo-se cortejo até ao Largo Camões.
Mobilizam-se cerca de 40 000 pessoas (11 de Fevereiro). A manifestação é
dissolvida pela campanha de apitos da Guarda Municipal, havendo apenas
pranchadas. Manuel de Arriaga e Jacinto Nunes fazem discursos em plena
rua e acabam detidos, sendo conduzidos para o navio Vasco da Gama.
Governo
nº 40 (desde 14 de Janeiro) António Serpa (274 dias). O segundo
governo de D. Carlos e o sexto regenerador. Apesar de ser um gabinete que
mobiliza personalidades bem experimentadas em negócios de Estado, até se
recorrendo ao apoio do velho dissidente regenerador, Barjona de Freitas, nomeado
embaixador em Londres, o governo acaba por cair por pressões da Liga Liberal,
com Fuschini a clamar contra a ditadura de Lopo Vaz.
Presidente acumula o reino e a guerra
(desde 17 de Janeiro). Lopo Vaz de Sampaio e Melo na justiça; João Ferreira
Franco Pinto Castelo Branco (1855-1929) na fazenda; Hintze Ribeiro nos
estrangeiros; Frederico Gusmão de Correia Arouca (1843-1902) nas obras públicas.
Vasco Guedes de Carvalho e Meneses na guerra (até 17 de Janeiro). O professor de
direito João Marcelino Arroio (1861-1930) na marinha e ultramar. Em 5 de Abril
de 1890: Júlio de Vilhenaö substitui João
Marcelino Arroio na marinha e ultramar. Recriado, então, o ministério da
instrução pública (22 de Agosto), para onde transita João Arroio que, não
estando em Lisboa e não sendo consultado, andou de pasta em pasta sem o saber.
Bandos em vez de partidos –
Como observa Oliveira Martins, não há partidos, não há doutrinas
constitucionais, a liberdade política saiu do campo da doutrina para o dos
costumes. Daí, assistir-se a um novo estado de coisas: os partidos
dissolvem-se em bandos, as influências pessoais substituem a fugida influência
dos princípios, os bandos aparecem transformados em sociedades cooperativas que
funcionam exclusivamente, ou quase, em benefício dos associados.
Eleição nº 32 (30 de Março).
Vitória dos regeneradores com 115 dos 169 deputados. Conseguem já incluir os
antigos dissidentes da Esquerda Dinástica.
Progressistas, na oposição, ficam
reduzidos a 33 deputados. 3 deputados republicanos (Elias Garcia, Latino Coelho
e Manuel de Arriaga). Todos são eleitos por Lisboa, com o apoio dos
progressistas, em lista de protesto. Na lista republicana entra o monárquico
Fernando Palha, presidente da Câmara de Lisboa, dissolvida por Lopo Vaz.
Surgem, aliás, no dia da ida às urnas,
graves incidentes em Lisboa, com cerca de uma dezena de mortes e 40 feridos. Há
951 490 eleitores, cerca de 19% da população total e 72% da população masculina
com idade superior a 21 anos, num universo de 5 049 729 habitantes no Continente
e Ilhas.
O autonomista açoriano Aristides da
Mota é eleito deputado regenerador por Ponta Delgada. Vai apresentar em 31 de
Março de 1892 um projecto de lei sobre a autonomia dos Açores.
Eleição de 50 pares (Abril).
Forte movimentação da Liga Liberal
contra o Tratado de Londres.
Um sabre e uma espada – É
necessário um sabre tendo ao lado um pensamento. Tu és capaz de ser o homem que
pensa – mas onde está o homem que acutila? (Eça de Queiroz, em carta de 7 de
Outubro, dirigida a Oliveira Martins).
Governo nº 41.1 de João
Crisóstomo (14 de Outubro, 462 dias), com uma alteração completa do gabinete
em 25 de Maio de 1891. O governo dito nefelibata, presidido pelo
octogenário general, que conta como apoio da Liga Liberal, constitui-se depois
da recusa do regenerador Martens Ferrão, então embaixador em Roma.
Visa-se a criação de um ambiente de
apaziguamento e concórdia, mas a missão torna-se impossível tanto pela
emergência de uma série de escândalos financeiros, como pela impossibilidade de
se concretizar um grande empréstimo externo, numa altura em que até se fala
num poço sem fundo no plano financeiro.
Presidente acumula a pasta da guerra.
António Cândido Ribeiro da Costa (1850-1922) no reino. António Emílio Correia de
Sá Brandão (1821-1909) na justiça. José de Melo Gouveia na fazenda. António José
Enes Júnior (1848-1901) na marinha e ultramar. José Vicente Barbosa do Bocage
nos estrangeiros. Tomás Ribeiro nas obras públicas. Em 24 de Novembro de 1890:
Augusto José da Cunha substitui José de Melo Gouveia na fazenda.
Pelos prestigiosos nomes que se
mobilizam, trata-se de um dos gabinetes do liberalismo monárquico com mais
qualidade. Mas, se as estrelas não fazem uma boa equipa, também as
circunstâncias hã-de tornar este governo impotente para dar uma adequada
resposta aos desafios.