|| Governos|| Grupos|| Eleições|| Regimes|| Anuário|| Classe Política

  Anuário de 1890

1890

Do Ultimatum ao falado governo extra-partidário

Marx em Lisboa e suicídio de Camilo

Reforma eleitoral, ciência política, ideias-forças e geopolítica

(Ver Arquivo antigo do anuário CEPP

Ultimatum britânico leva à queda do governo de Luciano.

Governo nº 40 (14 de Janeiro) António Serpa (274 dias) Barjona regressa aos regeneradores e vai para embaixador em Londres Surge o hino dos Heróis do Mar Antero de Quental constitui a Liga Patriótica do Norte A procura de um sabre e  de uma espada

Eleição nº 32 (30 de Março). Vitória dos regeneradores com 115 deputados. Conseguem já incluir os antigos dissidentes da Esquerda Dinástica. Progressistas, na oposição, passam para 33 deputados. 3 deputados republicanos.

(Abril). Eleição de 50 pares.

Forte movimentação da Liga Liberal contra o Tratado de Londres.

 

Governo nº 41 (14 de Outubro) João Crisóstomo (462 dias). Governo extrapartidário, apoiado pela Liga Liberal. Sucessivos conflitos entre os ministros Lopo Vaz e Mariano de Carvalho.

 

Grupos políticos

Ultimato britânico. Primeiro, de forma oral. Depois, por escrito (11 de Janeiro). Exige-se que se enviem ao governo de Moçambique instruções telegráficas imediatas, para que todas e quaisquer forças militares portuguesas, que se encontram no Chire e nos países dos macololos e machonas se retirem. O Conselho de Estado reúne até de madrugada. Apenas Barros Gomes e António Serpa se manifestam favoráveis a uma certa resistência, pela retirada das nossas forças dos territórios em disputa, caso os britânicos aceitem a arbitragem. O resto do Conselho cede completamente ao Ultimato.

Morte da velha ilusão imperial – Morria finalmente a ideia de uma comunidade de povos cristãos organizada pelos portugueses, sem necessidade de afirmar supremacias de qualquer outra ordem que não as das virtudes da cristandade. Acresce que a aliança inglesa foi rotulada como um conluio dinástico destinado a manter a Casa de Bragança, para que Portugal existisse como Estado independente, mas uma independência fictícia, com o Reino sob tutela dos ingleses (Eduardo Vera Cruz).

Heróis do mar, contra os bretões... – Vários motins em Lisboa (12 de Janeiro). O consulado britânico é apedrejado. Ataques a jornais. Residência de Barros Gomes é também assaltada. Muitos vivas e morras. A estátua de Camões em Lisboa aparece rodeada de crepes negros, por iniciativa do deputado Eduardo Abreu e a multidão vai enfim modelar-se em povo em torno da figura lendária do grande épico, e uma pátria surgir onde até aí se revolvia surdamente uma colmeia (Basílio Teles). A Sociedade de Geografia de Lisboa hasteia a bandeira nacional a meia haste. Surge A Portuguesa, de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça. Miguel Ângelo Pereira compõe A Marcha do Ódio, musicando poema de Guerra Junqueiro. Comícios em Coimbra, com a imediata criação de batalhões de voluntários (13 de Janeiro).

Portugal como asteróide – A Portugal sucedia o que sobrevém aos asteróides do espaço: entrara na órbita envolvente duma potência mais forte, e era, como eles, irresistivelmente arrastado para dentro da sua esfera aspiradora. Toda a política exterior seguida pelos Braganças desde 1640, consistira em fugir de um perigo para ir buscar outro perigo; em evitar um leão para defrontar um leopardo; em escapar do Demónio para esbarrar com Satanás (Basílio Teles).

 Propaganda republicana – Os republicanos aproveitam as circunstância, tanto para manifestações de rua, duramente reprimidas, como para gritos de revolta, onde se destaca um artigo de António José de Almeida (1866-1929), no semanário O Ultimatum, com o escandaloso título de Bragança, o Último (23 de Março), onde considera que Portugal, o velho herói magnífico, não lhe pode enterrar a espada gloriosa nas profundezas do estômago, nem pode descarregar-lhe no arcado peito uma das suas espingardas honestas. No mesmo periódico, outro artigo escandaloso de Afonso Costa, onde se considera que a Monarquia é a causa do envilecimento moral da nação. O primeiro é condenado a três meses de prisão, o segundo é absolvido, porque os juízes consideram que só sustentou uma tese sociológica de livre discussão. E D. Carlos pensa perdoar ao primeiro, o que leva outro republicano, João de Meneses a clamar: guarde o seu perdão, que António José de Almeida guarda a sua honra.

 Edição do Finis Patriae, de Guerra Junqueiro (11 de Abril). O escritor profere também um violento discurso onde considera que os partidos correspondem ao estado da Nação. Fazem-me lembrar um homem que, numa feira, vendia vinho e vinagre na mesma pipa. O vinho saía por um lado e o vinagre por outro. A droga era a mesma.

Entretanto, Sebastião de Magalhães Lima parte pela Europa numa propaganda intensa a favor da confederação latina, uma federação republicana dos povos latinos, como preâmbulo à confederação geral da Europa civilizada, e como preparação para que um dia possa realizar-se o sonho dos filósofos e a utopia dos videntes, a fraternidade humana, que hoje tem por seus implacáveis inimigos o egoísmo dos monárquicos, o despotismo da tradição e o preconceito de inconscientes multidões, como pode ler-se no relato da viagem que publicou Pela Pátria e pela República. Por outras palavras, os republicanos parecem saber conciliar o ideal maçónico da república universal e dos Estados Unidos da Europa com o mais exaltado dos nacionalismos pátrios, nomeadamente pela construção imperial, herdada de uma velha ideia de cruzada, pelo que a esfera armilar acaba por conciliar-se com as quinas e a Cruz de Cristo que, entre nós, foi herdeira dos iniciáticos Templários. O sebastianismo tenta, assim, conciliar-se com a ciência e a aventura dos Descobrimentos com uma ideia de Estado.

Defesa nacional – Num comício realizado no teatro da Trindade, é criada uma comissão de defesa nacional, onde se junta gente de todos os partidos (23 de Janeiro). Inicia-se uma subscrição pública para o efeito, no Teatro D. Maria II: não são um socorro ao Estado, são um manifesto ao País. Entre os organizadores, o conde de S. Januário, o médico José Tomás de Sousa Martins, Roberto Ivens, Luciano Cordeiro, Teófilo Braga, Sebastião Magalhães Lima e Eduardo Abreu (24 de Fevereiro).

No Porto, forma-se uma Liga Patriótica do Norte, com Antero de Quental e Luís de Magalhães, com o fundador do nosso socialismo e vítima da proibição das Conferências do Casino a dar as mãos ao filho de José Estêvão que há-se der um dos hierarcas da Traulitânia de 1919.

Comício republicano no Coliseu da Rua da Palma, em Lisboa, seguindo-se cortejo até ao Largo Camões. Mobilizam-se cerca de 40 000 pessoas (11 de Fevereiro). A manifestação é dissolvida pela campanha de apitos da Guarda Municipal, havendo apenas pranchadas. Manuel de Arriaga e Jacinto Nunes fazem discursos em plena rua e acabam detidos, sendo conduzidos para o navio Vasco da Gama.

 

Governo nº 40 (desde 14 de Janeiro) António Serpa (274 dias). O segundo governo de D. Carlos e o sexto regenerador. Apesar de ser um gabinete que mobiliza personalidades bem experimentadas em negócios de Estado, até se recorrendo ao apoio do velho dissidente regenerador, Barjona de Freitas, nomeado embaixador em Londres, o governo acaba por cair por pressões da Liga Liberal, com Fuschini a clamar contra a ditadura de Lopo Vaz.

Presidente acumula o reino e a guerra (desde 17 de Janeiro). Lopo Vaz de Sampaio e Melo na justiça; João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco (1855-1929) na fazenda; Hintze Ribeiro nos estrangeiros; Frederico Gusmão de Correia Arouca (1843-1902) nas obras públicas. Vasco Guedes de Carvalho e Meneses na guerra (até 17 de Janeiro). O professor de direito João Marcelino Arroio (1861-1930) na marinha e ultramar. Em 5 de Abril de 1890: Júlio de Vilhenaö substitui João Marcelino Arroio na marinha e ultramar. Recriado, então, o ministério da instrução pública (22 de Agosto), para onde transita João Arroio que, não estando em Lisboa e não sendo consultado, andou de pasta em pasta sem o saber.

Bandos em vez de partidos – Como observa Oliveira Martins, não há partidos, não há doutrinas constitucionais, a liberdade política saiu do campo da doutrina para o dos costumes. Daí, assistir-se a um novo estado de coisas: os partidos dissolvem-se em bandos, as influências pessoais substituem a fugida influência dos princípios, os bandos aparecem transformados em sociedades cooperativas que funcionam exclusivamente, ou quase, em benefício dos associados.

Eleição nº 32 (30 de Março). Vitória dos regeneradores com 115 dos 169 deputados. Conseguem já incluir os antigos dissidentes da Esquerda Dinástica.

Progressistas, na oposição, ficam reduzidos a 33 deputados. 3 deputados republicanos (Elias Garcia, Latino Coelho e Manuel de Arriaga). Todos são eleitos por Lisboa, com o apoio dos progressistas, em lista de protesto. Na lista republicana entra o monárquico Fernando Palha, presidente da Câmara de Lisboa, dissolvida por Lopo Vaz.

Surgem, aliás, no dia da ida às urnas, graves incidentes em Lisboa, com cerca de uma dezena de mortes e 40 feridos. Há 951 490 eleitores, cerca de 19% da população total e 72% da população masculina com idade superior a 21 anos, num universo de 5 049 729 habitantes no Continente e Ilhas.

O autonomista açoriano Aristides da Mota é eleito deputado regenerador por Ponta Delgada. Vai apresentar em 31 de Março de 1892 um projecto de lei sobre a autonomia dos Açores.

Eleição de 50 pares (Abril).

Forte movimentação da Liga Liberal contra o Tratado de Londres.

Um sabre e uma espada – É necessário um sabre tendo ao lado um pensamento. Tu és capaz de ser o homem que pensa – mas onde está o homem que acutila? (Eça de Queiroz, em carta de 7 de Outubro, dirigida a Oliveira Martins).

Governo nº 41.1 de João Crisóstomo (14 de Outubro, 462 dias), com uma alteração completa do gabinete em 25 de Maio de 1891. O governo dito nefelibata, presidido pelo octogenário general, que conta como apoio da Liga Liberal, constitui-se depois da recusa do regenerador Martens Ferrão, então embaixador em Roma.

Visa-se a criação de um ambiente de apaziguamento e concórdia, mas a missão torna-se impossível tanto pela emergência de uma série de escândalos financeiros, como pela impossibilidade de se concretizar um grande empréstimo externo, numa altura em que até se fala num poço sem fundo no plano financeiro.

Presidente acumula a pasta da guerra. António Cândido Ribeiro da Costa (1850-1922) no reino. António Emílio Correia de Sá Brandão (1821-1909) na justiça. José de Melo Gouveia na fazenda. António José Enes Júnior (1848-1901) na marinha e ultramar. José Vicente Barbosa do Bocage nos estrangeiros. Tomás Ribeiro nas obras públicas. Em 24 de Novembro de 1890: Augusto José da Cunha substitui José de Melo Gouveia na fazenda.

Pelos prestigiosos nomes que se mobilizam, trata-se de um dos gabinetes do liberalismo monárquico com mais qualidade. Mas, se as estrelas não fazem uma boa equipa, também as circunstâncias hã-de tornar este governo impotente para dar uma adequada resposta aos desafios.