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Do fim do Bloco Central à adesão à CEE – Cavaco vence eleições
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Soares contra Eanes – Entre o soarismo do Bloco
Central e o eanismo presidencial emerge um confronto directo, marcado por um
processo de rivalidades de estilo, a que não correspondem conflituantes
perspectivas ideológicas. A animosidade entre as duas personalidades políticas
provém, sobretudo, do facto de ambas quererem assumir a liderança do mesmo
espaço político, com Mário Soares sonhar com a Presidência da República e
Ramalho Eanes perspectivar-se como dirigente partidário. Ao contrário da
anterior tensão entre o Presidente da República e Sá Carneiro, que apontava,
agora, para a superação do sistema, assiste-se a uma espécie de bipolarização
interna dentro das fronteiras de um mais amplo centrão, o qual corresponde ao
máximo de situacionismo pós-revolucionário. Aliás, Mota Pinto transformara-se
numa espécie de bode expiatório de um conglomerado partidário, sempre em
equilíbrio instável, porque condenado a conciliar o mais puro dos clubismos com
o mais interesseiro dos negocismos.
Machete – Daí que a nova síntese do PSD passe a
ser Rui Machete, talvez exageradamente intelectual para um partido que vive
quotidianamente sobre um vulcão de emoções, retomando algum do estilo da
liderança provisória de Sousa Franco, mas sem possibilidade de conciliar a
efectiva federação de barões em que o mesmo partido se transforma.
PRD – Outra das significativas mudanças vem da
emergência do Partido Renovador Democrático, no Congresso de Tróia (23 de
Fevereiro), onde a montanha eanista dá finalmente à luz uma sigla
laboratorialmente fabricada pelos especialistas de marketing político e
por certas memórias da psico militar, com algumas conotações com o PRP de
Afonso Costa e outro tanto do PPD inicial. E não é por acaso que, entre os
progenitores da nova agremiação, se encontram tanto republicanos históricos como
primitivos dissidentes sociais-democratas. Assim, o novo partido, emaranhado no
respectivo complexo genético, assume-se até como uma espécie de filho de pai
ausente, aparecendo tentado, umas vezes, pela sedução esquerdista da
Engenheira Pintasilgo, e, outras, pelo gatinhar nas areias movediças de certa
esquerda bem comportada que vai piscando o olho à direita do voto útil.
Lucas Pires – Já o CDS, no Congresso de Aveiro,
reforça a liderança de Lucas Pires, mobilizado em torno de uma moção que se
baptiza como oposição para a vitória.
Mário Soares – Enquanto isto, Mário Soares
assume-se como um referencial de estabilidade e chega a proclamar a
existência de um milagre português, onde há excesso de dinheiro nos
bancos e um défice orçamental menos espantoso que o norte-americano.
A simpatia do Primeiro-Ministro do Bloco Central quase parece um desses axiomas
que não carece de ser demonstrado, assumindo-se como politicamente liberal
e economicamente socialista, apesar de não se considerar um homem do
sistema económico herdado do 11 de Março.
O meteoro Cavaco
– Mota Pinto demite-se do Governo e de Presidente do PSD (5 de Fevereiro).
Será substituído no dia 10 por Rui Machete. No XII Congresso deste partido, em
19 de Maio, perante a candidatura de João Salgueiro, apoiada pelo situacionismo
dos defensores do Bloco Central (nomeadamente Mota Amaral), aparece, de forma
surpreendente, Aníbal Cavaco Silva, que assume a liderança. PSD rompe a
coligação governamental, em 4 de Junho, depois de reunião de Soares e Cavaco
Silva, onde este se propõe avançar com os pacotes laboral e agrícola. Eanes
inicia consultas aos partidos
Portugal na CEE
–
Cerimónia
solene de assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à CEE decorre no claustro
dos simbólicos Jerónimos (12 de Junho). Nesta data, os gestores do aparelho de
poder português subscrevem o tratado de adesão às comunidades europeias -
a CECA, a CEE e a CEEA que já então se assumem como Comunidade Europeia
-, algumas horas antes de idêntica atitude ser assumida, em Madrid, pelo Estado
espanhol. Para alguns observadores de mais estreitas vistas, a atrelagem
dos dois Estados ibéricos ao carro europeu não passa de mero prémio pela
conquista da democracia por duas entidades que tinham tido das mais longas
ditaduras do Ocidente no pós-guerra. Para outros, algo de mais: a abertura da
Europa àquele pedaço de si mesma que se desencontrara do ritmo das grandes
questões europeias nos anos trinta do século XX, não faltando até quem proclame,
com alguma justeza, que não éramos nós a aderir à Europa, mas, pelo contrário, a
Europa a aderir a si mesma. A adesão vai concretizar-se no dia 1 de Janeiro de
1986, depois de, uma década antes a havermos formalmente solicitado. Não tarda
que os nossos governantes qualifiquem a Europa das Comunidades como a
prioridade das prioridades e que a nossa classe política pós-revolucionária
trate de invocar uma Europa connosco, transformada no elemento mítico de
uma ideologia europeísta à portuguesa que nos prometia amanhãs que
cantam, bacalhau a pataco, peixe à vista de costa e supremas
produtividades por hectare.
Eleição nº 69
da Assembleia da República (5 de Outubro). 8 025 166 eleitores. 5 798 929
votantes. o PSD, sob nova liderança, a do antigo ministro das finanças de Sá
Carneiro, Aníbal Cavaco Silva, consegue obter 29,8%, enquanto o PS desce para
20,8% e o novo partido inspirado em Ramalho Eanes, o Partido Renovador
Democrático, com 18%. Se os comunistas, com a APU, estabilizam nos 15,6%, já
o CDS desce para os 9,7%. O PS que, devido à candidatura presidencial de Mário
Soares, apresenta Almeida Santosö
como candidato a primeiro-ministro, é a principal vítima do novo partido eanista
que consegue obter um excelente resultado. Um partido que se diz situado
ideologicamente entre o PSD e o PS e que, depois de liderado provisoriamente por
Hermínio Martinho, acaba por receber formalmente a liderança do próprio
progenitor, em 19 de Outubro de 1986, reunindo uma série de personalidades como
Magalhães Mota, um dos três fundadores do PPD, Vasco da Gama Fernandes, antigo
presidente da Assembleia da República pelo PS, Medeiros Ferreira, José da Silva
Lopes e José Carlos Vasconcelos.
Novos grupos
económicos em Portugal –
Depois do Bloco
Central e da adesão à CEE, começam a estruturar-se novos grupos económicos. Para
além do regresso do grupo Espírito Santo, aliado ao Crédit Agricole, e da
emergência de Belmiro de Azevedo, a partir da SONAE do Banco Português do
Atlântico, destaca-se a fundação do Banco Comercial Português, liderado pelo
membro do Opus Dei, Jardim Gonçalves que consegue mobilizar fundos do
corticeiro Américo de Amorim, de João Alberto Pinto Basto, da Vista Alegre, e de
António Mota, dos empreiteiros Mota & Companhia.
Governo nº 119 de Cavaco Silva de maioria
relativa (6 de Novembro). O PSD de Cavaco Silva, com o inicial apoio do novo PRD,
desencadeia um novo ciclo na democracia portuguesa, paralela à própria
integração na Comunidade Europeia, então marcada pela presidência de Jacques
Delors.
São ministros: Eurico de Melo (ministro de Estado e da
administração interna) Fernando Nogueira (ministro adjunto e dos assuntos
parlamentares), Leonardo Ribeiro de Almeida (defesa nacional), Pires de Miranda
(negócios estrangeiros), Miguel Cadilhe (finanças), Mário Raposo (justiça), Luís
Valente de Oliveira (plano e administração do território), Santos Martins
(indústria e energia), João de Deus Pinheiro (educação e cultura), João Maria de
Oliveira Martins (obras públicas, transportes e comunicações), Maria Leonor
Beleza (saúde), Luís Mira Amaral (trabalho e segurança social)..
Adriano Moreiraö
assume a
liderança do CDS, num palaciano Conselho Nacional, depois de Lucas Pires,
invocando os resultados eleitorais, se demitir. O antigo rival de Marcello
Caetano para a liderança da transição do Antigo Regime, tem apoio de alguns
antigos membros da direcção pirista, mas a oposição dos freitistas (10 de
Novembro). Entre os principais apoiantes do novo estado de coisas, está o líder
da Juventude Centrista, o estudante Manuel Monteiro. O secretário-geral é
Fernando Seara, indicado por José Vieira de Carvalho, o secretário-geral de
Lucas Pires, futuros notáveis autarcas, deputados e dirigentes do PSD. Ambos são
destacados elementos do lobby do Colégio Universitário Pio XII, do Padre
Joaquim Aguiar, o operacional político-espiritual de um eixo
político-eclesiástico que pretendia unir Adriano Moreira a Franco Nogueira, ala
essa que vai sobreviver a vários regimes e situações políticas, acabando em
pleno entendimento com Carlos Monjardino e a Fundação do Oriente e em regime de
aliança com a presidência de Jorge Sampaio, para além do inestimável apoio de
Mário Soares, em aliança com Veiga Simão e António de Almeida Santos e sempre
com a cooperação discursiva de Narana Coissoró.