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2003 |
Dos blogues à Casa Pia |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
Os portugueses continuam a viver em regime de dupla personalidade. O verniz da "doença da ordem" recobre o vulcão do nosso temperamento anarquista: o semi-optimismo das sondagens esconde o nosso profundo ensimesmamento. Continuamos a querer "o tudo ou o seu nada". Os que dizem "sim"
ao Governo também deliram com as diatribes da oposição; assistimos passivamente aos telejornais, mas divertimo-nos com as indiscrições da imprensa sensacionalista; repartimo-nos entre as piadas porcas de algumas anedotas analíticas do actual "status" e as meditações beatas de uma qualquer
sotaina negra ou de um avental. No centro da contradição está o governo, simples reflexo de uma complexa "vox populi" que não é propriamente uma "vox Dei". E o segredo de quem manda é saber ter sempre um pé cá e um pé lá. É ser situação com mentalidade de oposição. É viver à direita e
dizer que pensa à esquerda, para, de vez em quando, proclamar que não é de direita nem de esquerda, argumentando que não há direita nem esquerda, mas apenas o bem e o mal, o progresso e a conservação, o futuro e o passado.
O drama do governo é que tanto se sente grande como também descobre, para si mesmo, que não tem grandeza. Falta-lhe simplesmente o sonho. Tem planos, mas não projecto; é honesto, mas está sitiado pela corrupção; tem boa vontade, mas falta-lhe estratégia. É social-democrata, centrista e popular, mas não quer já construir o socialismo nem a democracia-cristã. Não é liberal, mas quer liberalizar. É democrata, mas tem os reflexos condicionados do poder absoluto. Anda à procura do norte, mas perdeu a bússola das ideias.
O governo não é ele nem é o outro. É algo de intermédio, entre quem efectivamente é e a sua própria sombra. Soube conquistar o poder, mas parece não saber o que fazer com o poder que agora tem. Porque tem poder demais para as ideias que não tem.
Há um novo país de novos insatisfeitos sem direito à emigração e ao emprego qualificado, que não são os reprimidos rurais do Alentejo e Ribatejo ou os assalariados da cintura industrial de Lisboa que berraram nos primeiros de Maio de 1974 e1975, que foram à guerra colonial ou que beneficiaram dos juros bonificados da banca nacionalizada, nossa e que, depois de serem marcelistas, spinolistas e otelistas, acabaram por se congregar em torno de Mário Soares.
Também já não há os empregados da banca e dos seguros que beneficiaram com a pós-revolução, nem os desiludidos dos salários em atraso que, fartos da Dona Branca e do gato por lebre da febre de Pedro Caldeira, saudaram Cavaco Silva e a adesão à CEE.
Há uma nova geração que ainda não escreveu a sua própria história, que está farta de promessas por cumprir, que vive uma nova comunidade de significações partilhadas e que ainda pode ser convictamente portuguesa. Por isso dói, saber que um dos nossos principais entertainers, desde o glorioso Zip-Zip, alguém que sempre considerámos íntimo e com quem partilhámos laços de afecto quase familiar, pode efectivamente ser o principal símbolo da falta de autenticidade.
Estamos à espera. Porque se o aparelho judicial e policial cometeu um erro, novo desastre se anuncia, com um dos pilares do Estado de Direito a ser afectado, tanto no seu prestígio como na sua necessária autoridade. Esperemos para ver.
Julgo ter chegado o tempo dos homens de convicção que sejam magistrados ou polícias, bastonários da Ordem dos Advogados, jornalistas ou simples conhecedores da verdade. E como cidadão que não votou nem em Sampaio, como Presidente da República, nem nos partidos que fizeram elevar Barroso a primeiro-ministro, quero aqui declarar que confio tanto nestes dois como nos meus antigos alunos que agora têm a missão de aplicar os valores que nos regem, no âmbito das regras processuais que escolhemos. Espero que, a nenhum deles, possa aplicar-se o que Joaquim Mouzinho de Albuquerque disse do chefe do governo de então: "a minha superioridade consiste em ter apenas uma cara ... Vossa Excelência, sendo um político, não tem apenas uma". Por isso, não acredito que o regresso do caso da pedofilia tenha sido manobra dos que não querem que os portugueses tenham opinião sobre a crise iraquiana e sobre a carta que o nosso chefe do governo subscreveu e que serviu para certos governantes norte-americanos proclamarem que assim surgiu uma nova Europa contra a velha Europa dos fundadores da CECA e da CEE. Sei tanto dos dados do Iraque quanto dos fundamentos da detenção de Carlos Cruz. Tanto espero pelas provas, como pela aplicação das parcas regras de direito internacional e pelas decisões da Organização das Nações Unidas. Apenas me custa que, numa operação de propaganda de guerra, tenha constatado a quebra de consenso dos dois principais partidos democráticos portugueses em matéria que, sendo, por enquanto, de política externa, pode, em breve, transformar-se em questão de política de defesa nacional e de segurança interna.
Espero que o consenso seja imediatamente refeito, com a necessária intervenção dos mecanismos institucionais previstos na Constituição e o bom senso cooperativo de outros órgãos do Estado, como o governo regional dos Açores. Se não subscrevo os temores do Professor Diogo Freitas do Amaral, porque não acredito numa geométrica secura da justiça impotente, nem numa juridicista defesa sem armas ou vontade de lutar, também não alinho na fúria dos neoconservadores de importação intelectual, que, do silogístico e coerentíssimo mestre, fizeram um mártir. Discutamos amplamente a questão e, depois da decisão, congreguemo-nos em unidade nacional, para podermos falar a uma só voz, com a de Mário Soares, sem alguns serôdios impulsos juvenis, a afinar pelo mesmo diapasão da que tem, de vez em quando, Durão Barroso, desde que este tenha o necessário consenso de Jaime Gama, cujo discurso parlamentar aplaudo na totalidade. É assim que um país de oito séculos de resistente autodeterminação deve agir em momentos de crise nacional e internnacional.
Não me esqueço que, durante o PREC, os norte-americanos do neo-realismo político, bem interpretados pelo kissingerianismo, tanto admitiram que nos poderíamos transformar, numa vacina comunista para a Europa ocidental, como preferiram subsidiar o MRPP e desdenhar de Sá Carneiro, em favor de Soares. Valeu-nos, nessa altura, a militância da tal velha Europa, dos alemães e dos franceses, da aliança luso-britânica e da solidariedade de quase todos os outros parceiros da CEE, da inicial e da alargada, bem expressa pela gestão dos Delors e Kohl.
E agora, bem gostaria de poder seguir a ideologia internacionalista expressa por João Paulo II e assumir, como aliado dos norte-americanos e dos britânicos, uma neutralidade activa, mantendo a minha reserva de valores universais e de ponte entre a política transatlântica e o mundo islâmico. Bagdad está aqui bem perto, como, por exemplo, na Fundação Calouste Gulbenkian, e até não é ficção da CNN a circunstância de Rabat estar mais próxima de Lisboa do que Madrid.
Aliás, o mítico desastre nacional de Alcácer-Quibir, quando a nossa política mundial optou pela derrota, nunca teria acontecido se el-rei D. Sebastião tivesse ouvido o avisado conselho de D. Jerónimo Osório, num tempo ainda podiam falar os que tinham voz própria. Por isso tanto não sou pela carta de Blair, Aznar e Barroso, como não tenho os reflexos condicionados daquele esquerdismo cobarde que fingindo o "make love, not war", acabou a proclamar o "antes vermelhos que mortos". Prefiro a coragem da velha Europa, para ajudar os Estados Unidos a seguirem Kant e não caírem nem tentação do Rambo, mesmo que seja necessário chamar Eisenhower, Montgomery, Willy Brandt e Charles De Gaulle.
Temo que, nos próximos dias, entre Carlos Cruz e Saddam Hussein, possam surgir novos imprevisíveis nomes e novos dramáticos casos que abalem aquelas águas mornas do nosso viver colectivo, bem expresso pela observação constante da agenda do Almirante Américo Tomás, no dia 1 de Janeiro de 1974: "no primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores..."
Por ironia do destino, tudo acontece quando o ministro Paulo Sheraton Portas decidiu fazer aprovar um conceito estratégico de defesa nacional, sem que previamente tivéssemos debatido o necessário conceito estratégico nacional. Assim, a estratégia de luta contra o risco de nos transformarmos num Estado Exíguo, marcada por tantos tacticismos ministeriais e politiqueiros, acabou por ser brutalmente driblada por uma ousada decisão de política externa, que deu a imagem de nos colarmos ao americanismo, porque o texto teve um pretexto e inseriu-se num contexto.
Com efeito, a actual crise moral em que estamos embrenhados é um excelente revelador do processo de colonização cultural a que fomos sujeitos por todos aqueles que consideram o atlantismo como sinónimo de americanismo ou, quando muito, cedem aos preconceitos culturais da concepção anglo-americana do mundo e da vida.
Com efeito, nem todos os que fazem discursos sobre a independência nacional, com abundante retórica patrioteira, assumem a necessária raiz identititária da nossa autonomia cultural.
O governo lusitano, dirigido por antigo professor da teoria da decisão em política externa, sendo conformado por licenciados em direito com simples nota de "suficiente mais", onde parte significativa deles prestava serviço nos escritórios das principais "multinacionais do direito", parece só saber pensar através dos pareceres pedidos a tais entidades de consultadoria externa, talvez por ser educado, em matéria de política internacional, pelos nossos queridos debates televisivos.
É natural que os sentimentos pelicularmente patrióticos que movem a "elite no poder" tenham sido mal informados e mal aconselhados e que predominasse um certo voluntarismo dos tacticistas que, confundindo lutas políticas domésticas com os negócios estrangeiros, caíram no neomaquiavélico engodo do "quem não arrisca não petisca".
Tais altos decisores, se tivessem sido infra-estruturamente comandados pela procura das constantes culturais da política externa portuguesa, talvez percebessem que não nos convinha ser subsidiários da potência de quem nos livrámos em 1640 e daquela outra que nos fez cantar "A Portuguesa" a partir de 1890.
As nossas falsas elites opinativas, sujeitas a uma americanização sem dor, que lhes ocupou intimamente a própria "forma mentis", deixaram conduzir-se pelos geradores do "agenda setting" que só recolhem "slogans" da cultura MRPP, aliada às certezas neo-realistas dos professores formados em Georgetown e daqueles comentadores que traduzem em calão revistas que todos podemos ler na Internet ou no enciclopédico manual de defesa de Nuno Rogeiro.
Parafraseando uma anedota que li algures na tal "net", todos esqueceram que, se é plágio copiar-se um artigo, não deixam de ser censuráveis os que se alcandoram à fama, com dissertações de mestrado que são cópia de um só livro. Até nem faltam os subscritores de dissertações de doutoramento que apenas fizeram cópias de mais que um livro e que, agora, não podem ser analisadas, porque o registo automático dos doutoramentos importados nem sequer precisa de equivalências.
O processo é de tal modo caricato que os antigos invocadores das excelências gaullistas, como o ministro Paulo Portas ou o seu antecessor no PP, Manuel Monteiro, mestre em Paris e doutorando em Santiago de Fraga Iribarne, aceitam acriticamente as tontices daquela estúpida propaganda de guerra que quase levou metade da Europa a ser condescendente com a ditadura manhosa de Saddam Hussein, acreditando no modelo único da "democra-CIA". O próprio Partido Socialista, apesar dos bons argumentos que haviam sido ensaiados por António Guterres e Ferro Rodrigues na reunião da Internacional Socialista, ficou amarrado ao desnorte de Mário Soares, caído na armadilha lançada por aqueles que tanto foram os últimos aliados de Slobodan Milosevic como saudaram entusiasticamente a invasão de Praga pelas tropas do defunto Pacto de Varsóvia.
Não é por discordarmos da carta dos oito que passamos para o outro extremo do falso binário, dando razão aos manifestantes do passado sábado que, confundindo Portugal com os ditames do "happening" de Porto Alegre, misturaram os antigos aliados do KGB com o folclore esquerdista do "make love not war" e fizeram regredir o Dr. Mário Soares ao que ele fazia antes de 1950 quando o então-militante do PCP organizava comícios contra a NATO, para, depois, ser o homem de confiança dos norte-americanos no PREC e na pós-revolução, não, sem antes, ter excelentes relações de cooperação internacionalista com o Ali bábá de Saddam Hussein e Khadafi.
Só que a dimensão do nosso antigo Primeiro-ministro e Presidente da República permite-lhe certos deslizes de inimputabilidade, a que só os patriarcas senatoriais, com muita senatorialidade, têm direito, quando a permanecente vaidade já nem sequer é controlada pelas boas maneiras da auto-censura.
Com a direita, a esquerda e o centro em confusão de narizes, face aos ditames do realismo quanto à inevitabilidade da invasão, proclamada por Marcelo Rebelo de Sousa nas suas prédicas dominicais na TVI, ou pelo conformismo de António Barreto na crónica do jornal "Publico"; com um governo em transe; e um presidente da República a procurar assumir-se como simples bissectriz deste paralelograma de forças, já ninguém consegue ouvir o esotérico de certos octogenários senadores da república, especialistas em diagnósticos depois do desafio se ter realizado.
Transformados em baços espelhos que reflectem tribalismos exógenos, vamos assistindo à propagação de todas estas "traduções em calão". Porque as antigas fábricas de significações partilhadas que nos davam húmus secular, como eram a Igreja católica e a Maçonaria, quase secaram. Os católicos, sem assumirem o discurso de João Paulo II, continuam sem digerir os diferendos clássicos entre os cerejeiristas e os peixinhos vermelhos em água benta, como eram os progressistas cristãos, agora pintasilguistas, e permanecem na terceira via dos chamados "catolaicos", entre as arremetidas globalistas do Padre Melícias e as reflexões filosóficas de D. Januário. Já os maçons, apesar de invocarem a soma de Adriano Moreira com Diogo Freitas do Amaral, reflectem idêntica crise eclesiástica, dado que continuam sem apresentar bispos com voz própria
Vale-nos ainda termos a língua de Raúl Brandão para nos "ramalharmos" em "farpas". Resta-nos aquela procura do português antigo que rejeita a tentação de nos transformarmos em simples Espanha Ocidental e a vontade de, como liberais, assumirmos, com os miguelistas, a Maria da Fonte e de, como monárquicos, desejarmos que chegue um qualquer partido republicano que seja capaz de "levantar hoje, de novo" a dor profunda de Portugal. Porque, a continuarmos esta decadência, seremos não "um", nem "zero", mas apenas "menos um". Corremos o risco de entrar nesse túnel dos números negativos, de entrarmos no ponto de não regresso de um poço sem fundo, que atingiria o clímax da instabilidade se a Europa revogasse o pacto de convergência que justifica Manuela Ferreira Leite e o preço do petróleo saltasse para os quarenta dólares por barril, com os contribuintes alemães e franceses a cortarem nos restos de fundos estruturais que nos sustentam.
Quando o eixo franco-alemão se entender com Washington, porque a ONU não pode deixar Nova Iorque nem a quotização do orçamento do "Tio Sam", e porque a Europa não quer pagar a sua defesa nem dispensar o guarda-chuva nuclear dos norte-americanos, resta saber se ainda sabemos o que queremos, donde viemos e para onde vamos.
Factos, mesmo factos, são os que voltaram a ser inseridos no recente relatório do PNUD sobre o desenvolvimento humano, onde, em termos de corrupção, continuamos a estar na cauda da Europa da União Europeia, apenas nos situando antes da Grécia e da Itália, que no índice global nos superam, remetendo a nossa república para um vergonhoso 28º lugar, abaixo de Chipre, de Singapura e da Coreia do Sul e quase a ser apanhada pela Eslovénia, Malta e Barbados.
Isto é, acima de nós, está a Alemanha, onde o ex-chanceler Helmut Kohl se viu envolvido num escândalo que o obrigou a renunciar da presidência honorária da CDU, sem que Rui Mateus tenha escrito a respectiva biografia. Acima de nós, está a Holanda onde o próprio príncipe consorte teve de largar as funções por causa da Lockheed. Acima de nós, está a Bélgica, com inúmeros ministros e líderes partidários, da esquerda e da direita, a serem processados. Acima de nós, está a França, com os diamantes de Bokassa, as ELF, as fragatas de Taiwan e os processos a Roland Dumas. Acima de nós, está a Espanha, entre a Matesa-Opus e os esquerdistas parentes de Alfonso Guerra. Abaixo de nós, está a Itália da operação mãos limpas que liquidou, num ápice, todo um sistema partidário corroído, com Andreotti s e craxis. Abaixo de nós, está a Grécia, com o caso do Banco de Creta que enrodilhou o PASOK.
Por outras palavras, em todos as democracias referidas, quem teve condições para cumprir o seu dever foi o poder judicial e não partidos ditos da virtude, sacristias, lojas ou juntas de coronéis façanhudos, mesmo quando se mudou o sistema para se manter o regime.
Na verdade, até em escândalos e casos de corrupção somos pequeninos, apesar dos muitos tabus que afectaram altas personalidades portuguesas e das inconfidências que nos vão deixando certos diplomatas, adidos e agentes estrangeiros, quando não ganham os interesses que os mesmos representam. Ficamo-nos pela memória do caso Alves dos Reis, recordamos relatórios subscritos por Henrique Galvão e fazemos telenovelas com o pretérito, do ballet rose a Dona Branca. O resto é paisagem de patos bravos e gentes da futebolítica, entre cerveja, estádios da UEFA, pneus, mercedes, traineiras, autarcas, "offshores" e electrodomésticos, para gáudio da conversa em churrasqueiras e sardinhadas, onde abundam os que, pela prescrição, se livraram da perseguição e não deveriam agora apedrejar.
Direi, com tenho dito e redito, que o problema da corrupção em Portugal é uma questão mais cientificamente politológica do que juridicamente criminal, porque não podemos pedir aos senhores polícias, às estruturas do Ministério Público e aos juízes que façam um adequado levantamento de todos os grupos informais que circulam, numa sociedade aberta, entre aquilo que é o dinheiro que quer comprar poder e aquilo que são os agentes do poder, executivo, legislativo, autárquico, regional, partidário, judicial, policial, cultural, universitário ou comunicacional, que estão disponíveis para compra. Não podemos pedir ao poder judicial que faça um trabalho sociológico, antropológico e politológico, capaz de identificar os grupos de interesse e os grupos de pressão, que vivem na zona de fronteira entre o ilícito e o imoral. Muito menos podemos solicitar-lhe, através de politiqueiro requerimento público, que nos sejam fornecidos todos os contornos das entidades espirituais tradicionais da nossa sociedade que costumam actuar de forma discreta junto do poder político e financeiro. Não podemos também pedir à liberdade de imprensa que cubra toda uma zona que precisa de dissertações de mestrado e de doutoramento, com livre consulta aos arquivos dos partidos, das empresas e das sociedades discretas. E não chegam as fugas de informação vindas do segredo de justiça e dos relatórios dos serviços secretos, nem as tais investigações jornalísticas dos grandes mass media que dispõem de adequada consultadoria jurídica e de fundos de reserva para indemnizações para os eventuais erros de análise dos sinais indiciadores
O caso da Universidade Moderna trouxe para a praça pública um dos aspectos essenciais do actual regime político português: a existência de grupos de pressão baseados em sociedades secretas, ou em sociedades discretas, que procuram constituir redes de influência nos meios intelectuais, universitários, sociais, comunicacionais e partidários. Redes, onde mantos diáfanos de vagas ideias recobrem oportunismos carreirísticos e muita vontade de dinheiro.
Se, de um lado, temos a
esquerda caviar de que falava Portas Paulo, é inequívoca a existência de uma direita jaguar, de que falava o jornalista Carlos Magno. Entre as duas faces da mesma gente burguesa, há uma identidade de perspectivas: o solene desprezo pelos homens livres. Até podemos acrescentar, actualizando um episódio da guerra civil espanhola, que muitos gestores desta network structure continuam a dizer: quando ouço falar de inteligência puxo logo do livro de cheques!O presente
niilismo, ao contrário do que muitos dizem, não é caracterizado por uma ausência de valores. Bem pelo contrário: o que se manifesta é uma nova hierarquia axiológica, marcada pelo utilitarismo, onde o dinheiro é o valor supremo, bem como os respectivos sinais exteriores, tanto do neo-riquismo, como do atávico poder banco-burocrático, gerado pelos barões dos sucessivos situacionismos.Assim vão tendo tempo de antena muitos gigantes com pés de barro, através de uma política de imagem, onde os
actores suplantam os autores. Contudo, estes novos líderes da teatrocracia, apesar de não terem autoridade, conseguem criar audiências e ter poder de mercado. Porque, se os anteriores autoritarismos transformaram os indivíduos em súbditos, eis que os novos poderes continuam a esmagar a cidadania, volvendo-nos em simples auditores.Só através da
revolta individual nos podemos libertar destas cadeias que nos ameaçam. Só um movimento de homens livres, da esquerda, da direita e do centro, pode denunciar este processo que visa esmagar a cidadania, pelo estabelecimento de clandestinas regras de um jogo que pretende abafar a autonomia dos portugueses.Não haverá Portugal sem portugueses. E não haverá portugueses sem autonomias individuais. Só chegaremos à política e à cidadania autênticas se as regras de conduta social assentarem em prévias regras morais. Da tal moral entendida como a ciência dos actos do homem como indivíduo.
Só depois do indivíduo vem a
casa. Só depois da casa vem a cidade, chame-se-lhe polis, república, comunidade ou Estado. Onde o indivíduo, educado como pessoa, habituado a participar na casa, se transforma em cidadão, isto é, naquele que participa na decisão.
Iludidos com os discursos de defesa forense de Braga Gonçalves e com as muitas facturas da pernoita de Paulo Portas em Braga, pouco me interessa que tenham pago as ditas uma qualquer D. Beatriz, o economato do Largo do Caldas ou a Universidade Moderna. Um ministro de Portugal não pode depender desse calcanharzinho de Aquiles, a pátria portuguesa e o actual regime democrático não devem evoluir conforme as cenas desta telenovela.
Por mim, ficaria muito mais descansado se o senhor Primeiro-Ministro assinasse um simples despacho proibindo que os seus ministros recorressem à consultadoria de multinacionais do direito para a assinatura de contratos internacionais, incluindo os de armamento, reservando tais tarefas às auditorias jurídicas do Estado, coordenadas pela Procuradoria-Geral da República, para que a mulher de César, isto é, um membro do Conselho Superior da Magistratura, recentemente eleito, não ficasse dependente da agência de viagens que recebeu o pagamento de uma qualquer D. Beatriz.
A credibilidade do Estado Português não pode flutuar ao sabor das inconfidências que derrubaram o ministro Isaltino de Morais e, como recordou o presidente Sampaio, na senda dos conselhos da magistrada Maria José Morgado, na base deste incómodo, está a falta de apoios em peritos que as entidades encarregadas da investigação continuam a padecer. Se déssemos aos nossos investigadores penais meios parecidos com os que tiveram o juiz italiano Prieto ou o juiz espanhol Garzón, certamente que poderíamos livrar-nos do desonroso 13º lugar entre os actuais quinze da União Europeia em matéria de corrupção, conforme o mais recente relatório do PNUD.
Basta ir à Internet e recolher as recomendações da OCDE em matéria de legislação-modelo quanto à luta sistémica contra a mesma corrupção, coisa que os nossos legisladores não parecem querer praticar. Basta pedirmos aos directores de informação dos principais canais televisivos que sugiram a nomes ligados à infra-estrutura lusitana do tráfico de influências que não mais façam comentários regulares em nome da moral pública. Nem sequer gastemos pelo mau uso aquilo que acaba por prostituir-se pelo abuso.
Voltando ao 25 de Abril, e porque faltam sete anos para que o nosso actual regime atinja a provecta idade que teve Salazar como Presidente do Conselho, talvez seja conveniente acabarmos com a desculpa habitual de dizermos que o responsável pelo nosso atraso é o mesmo catedrático de Santa Comba Dão. Dizermos tal é sermos mesmo salazaristas, porque este também disse, durante décadas, que a culpa era da I República, que teve apenas dezasseis anos de vida. Tal como os republicanos diziam que a culpa era dos Braganças e os monárquicos liberais, que a culpa era dos miguelistas.
A política do passa-culpas, recentemente agravada, com Guterres a dizer que o que lhe correu mal foi provocado pelo cavaquismo e com Durão a proclamar que os respectivos males vêm do guterrismo, apenas serve para continuarmos a concluir que a culpa morreu solteira. Por isso é que ainda não acabou o processo Leonor Beleza, por acaso idêntico, no tempo e na matéria, ao que recaiu sobre o contemporâneo ministro francês da saúde, Laurent Fabius, que já recebeu o trânsito em julgado há um ror de anos.
O 25 de Abril não tem culpa dos meandros da pós-revolução, do passa-culpas que nos leva a sermos governados por esta mentalidade MRPP/MES, tanto à esquerda como à direita. Não é por acaso que, à excepção do PCP, todos os grandes partidos portugueses são dirigidos pela bastardia de antigos militantes da vizinha adversária. O PSD é comandado por um discípulo de Arnaldo Matos e tem como principais intelectuais orgânicos outros antigos MLs. O PS tem a dirigi-lo um ex-MES, companheiro ideológico do actual Reitor da Universidade Católica em1974-1975, que só abandonou esse grupelho de esquerda revolucionária, longos meses depois da saída de Jorge Sampaio. O CDS-PP recorreu a um filiado da JSD que ainda nos anos oitenta militava no comentarismo jornalístico contra o partido a que hoje preside, ao serviço de Cavaco Silva e Freitas do Amaral, para, depois, ser o mais histérico dos anticavaquistas e dos antifreitistas.
A culpa não é de Salgueiro Maia e dos seus companheiros que tanto fizeram o 25 de Abril de 1974 como o 25 de Novembro de 1975, permitindo que funcionasse a revolução do sufrágio universal, livre, justo e pluralista, bem como o princípio da alternância do poder que admitiu que a direita democrática logo vencesse as eleições de 1979. A culpa, digamo-lo de forma brutal, está nos filhos pródigos do abrilismo que passaram do extremismo para uma aparente moderação sem adequada educação cívica pluralista.
A infra-estrutura do vanguardismo revolucionário, a nível de subsolo de pensamento, continua latente para além das palavras formalmente moderadas que proferem como verniz de conveniência. O estilo marxista-leninista ou de radicalismo verboso, típico dos filhos-família da grande burguesia, permanece nos grandes líderes do actual regime e esta talvez seja a causa do respectivo seguidismo face ao discurso ideológico do puritanismo bushista. E também não foi por acaso que receberam entusiástica adesão dos grandes jornalistas ex-MRPPs e ex-Futuro Presente da nossa praça, todos quebrando a tradição de universalismo humanista do nosso modo de estar no mundo.
O problema do actual regime português está nos maus actores políticos que vamos tendo e na respectiva incapacidade de coerência e de autenticidade. Quando somos acordados pela madrugada com uma conferência de um ex-ministro da educação de Portugal, alta figura entre os meios católicos lusitanos, que durante cerca de vinte minutos plagiou, com uma década de atraso, partes de um manual de história da filosofia contemporânea, publicado em França, há mais de dez anos, por um conhecido maçon, percebemos como é que, mesmo entre os universitários católicos, o actual ensino da filosofia política tem matriz protestante, anglo-americana, em nome da gestão de subsídios, rejeitando-se a velha tradição tomista, em que continua a assentar o magistério de João Paulo II.
Daí que, neste confusionismo, a palavra do discurso político e ideológico tenha perdido sentido. Nenhum dos grandes mestres da estratégia, mesmo que tenham sido condecorados com uma medalha burocrática de bons serviços prestados à pessoa do ministro, é capaz de compreender a necessidade da grande estratégia cultural do patriotismo científico. Nenhum ministro das universidades é capaz de assumir que, na respectiva tutela, estão os principais armamentos que dão arcaboiço à nossa resistência nacional. Nenhum ministro dos estrangeiros tem a humildade de reconhecer que devemos voltar ao universalismo da esfera armilar e convencer o Brasil de Lula a não se esquecer do sonho lusíada, fazendo com que a República dos Portugueses que restam não tenha como objectivo nacional a facturação de uma empresa de construção civil afectada pelos cortes orçamentais de Manuela Ferreira Leite.
Que venha o 25 de Abril, na sua promessa não cumprida de efectiva igualdade social. Que venha a tal paixão pela igualdade, que está na base da democracia, mesmo que seja a igualdade da justiça, do tratarmos desigualmente os desiguais, nesse aristotélico exigir, de cada um, segundo as suas possibilidades, para podermos dar, a cada um, conforme as respectivas necessidades.
O que implica voltarmos ao sentido comunitário profundo da nossa democracia da sociedade civil, desses evangélicos, ou maçónicos, factores democráticos de Portugal, lutando e derrubando os vícios da luta de invejas em que nos estamos enredando e desses perniciosos amores aos privilégios, que constituem o mais vergonhoso dos nossos atavismos. Desses privilégios que não premeiam a verdadeira nobreza da aristocracia de espírito, mas os falsos filhos de algo de uma classe política que está a trair os próprios pais-fundadores do actual regime democrático.
Que venha outra vez o capitão Salgueiro Maia, de megafone em punho, clamar contra o Estado a que chegámos e que passe o microfone ao Francisco Sousa Tavares, para que volte a ser feito o primeiro discurso da democracia, mesmo que sejam necessários dois ou três tiros de aviso contra as paredes do quartel do Carmo. Mas que em vez de Chaimites e G3s, bem como de muitas armas em boas mãos, se usem as da luta contra a corrupção, a evasão fiscal e a degenerescência de uma classe política, que não é filha dos nobres fundadores, mas das vizinhas dos lados onde a culpa morre sempre solteira.
É evidente que não pedimos a cabeça do senhor Ministro da Administração Interna só porque o mesmo tutela os bombeiros e a terapêutica destes mostrou-se impotente perante as dimensões do desastre. A questão é bem mais grave, tem a ver com a terapêutica e por isso estranhamos o silêncio do Ministro da Agricultura, que bem poderia apontar as causas do desastre. Ou será que o Prestige se afunda apenas nas costas da Galiza?
Preferimos dizer que este governo é como todos os governos rotativos da nossa pós-revolução. É mais do mesmo! Com uma direita mole a repetir o patético da anterior esquerda mole, ambas mais preocupadas com os jobs for the boys do que com o bem comum, quase reduzido a palavreado demagógico, onde os assessores de imagem dos diversos ministros parecem conseguir sempre o necessário golpe retórico que permite amansar os povos.
Bem pode o presidente Soares falar num tumor a extirpar, pois basta que um alto quadro de uma empresa de refrigerantes, a mesma que ainda há pouco recebeu a visita do Primeiro-Ministro, logo proclame que o dito, se for lancetado, também levará Durão com ele, mergulhando o país numa grave crise política, precisamente na véspera do Euro 2004.
Aliás, com as cenas finais da novela da Universidade Moderna, as parangonas sensacionalistas prometem com a questão da Casa Pia, enquanto a secção portuguesa da Igreja de Roma não emite um comunicado de desenvolvimento das recentes posições papais sobre a homossexualidade, talvez porque o Bloco de Esquerda logo promovesse uma manifestação em torno de alguns altos dignitários do actual sistema que politicamente estão no preciso inverso.
O governo continua firme, bem apoiado pelo partido emergente do semanário O Independente, de um lado, e pela escola de má-língua do jornalismo inventado pelo Professor Marcelo Rebelo de Sousa, a partir da Gente do Expresso e de O Semanário. Aliás, é curioso notar que nos começos do século XIX, em plena decadência da viradeira, dois dos pólos do situacionismo de então, eram precisamente um tal Visconde da Anadia, ascendente do patrão da TVI, que o foi de O Independente, e um tal Visconde de Balsemão, ascendente do patrão da SIC e que o ainda a continua a ser do Expresso. Como recentemente me fazia notar um investigador desse momento histórico, o meu amigo Mendo Castro Henriques.
Isto é, dois séculos depois, o mesmo atavismo, as mesmas castas, bem como o eterno problema de organização do trabalho nacional. E tudo se torna bem mais grave quando desaparecem as reais ameaças ao situacionismo, como, até há bem pouco, eram representadas pelo Partido Comunista, quando era agente da URSS.
Por isso é que a cantilena do atlantismo, agora dito transatlântico, soa a algum falsete, porque corremos o risco de passarmos a estimados cooperantes do Senhor Rumsfeld, o mesmo que, no gabinete de Gerald Ford, apoiou Franck Carlucci contra as teses de Kissinger, quanto ao não apoio à resistência anticomunista no Portugal do PREC.
Num governo onde antigos elementos do MRPP da altura conhecem perfeitamente o esquema da actuação da CIA em Portugal no tempo do PREC, seria prudente não transformar a nossa questão estratégica em meras conversas de jornalistas em bares da capital, bem frequentados por agentes estrangeiros que recolhem e difundem informação. Especialmente quando deixaram de ter credibilidade os nossos actuais serviços de informação estratégica.
Os actuais partidos-sistema, tanto à direita como à esquerda, perderam o sentido dos sagrados combates por princípios e as palavras que emitem são como as dos sacristães que perderam o sentido dos gestos. O tumor referido por Mário Soares é bem menos grave do que a hipótese deste situacionismo levar a que uma das estrelas do nosso jet set possa tornar-se candidato à presidência da república, com o apoio dos dois partidos da coligação, por mais tumores que o ex-presidente Soares possa vir a invocar.
Os amigos americanos, se assim poderiam ficar bem mais descansados com esta nova espécie de vacina, que também poderia incluir Manuel Dias Loureiro como Primeiro-Ministro, para se fechar o círculo dos principais protagonistas da queda do cavaquismo, lá veriam este jardim da Europa à beira-mar plantado, ser um seguro aliado para onde se poderiam continuar o envio da ajuda marroquina. Mas Portugal entraria definitivamente na galeria dos Estados Exíguos, apesar de se reforçar o estadão de alguns ministros e de, eventualmente, ser criada uma espécie de Fundação do Ocidente com novos dinheiros do jogo de Stanley Ho e para a qual até poderiam ser convidados muitos dos curadores da antiga Fundação do Ocidente, dispostos a servirem Santana e Portas.
Enquanto isto, o principal partido da oposição, quase tão preso quanto o deputado Paulo Pedroso, espera ansioso que se resolva a alternativa que vai de um clamoroso erro judiciário com cabala, ao preciso oposto de uma culpabilidade, quando o sistema governamental deixou de ter voz quanto à política de justiça e os especialistas na intriga, em vez de solidarizarem humanamente com a ministra, fazem o jogo das pré-remodelações. E daqui desejo à Celeste, que tanto tenho criticado, o meu sincero desejo de rápidas melhoras e de regresso em força!
Não falta até que, na guerra entre magistrados e advogados, o vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura mande piadas polémicas de mau-gosto a propósito do passado político do bastonário da Ordem dos Advogados, que tem, pelo menos, a legitimidade de ter sido uma vítima de um não-Estado de Direito. Será que poderão ser divulgadas as fichas de militância antidemocrática, revolucionária ou contra-revolucionárias, dos magistrados judiciais e do Ministério Público agora protagonistas dos principais processos?
A opinião pública, depois de meio século de preconceito da ordem, de alguma balbúrdia revolucionarista e de muito devorismo pós-revolucionário, talvez já não siga os ditames tanto dos velhos marechais da democracia como das senatoriais figuras tutelares do Estado a que chegámos. Mas os partidos de O Independente e do Semanário, que estão no poder, não podem ter a ilusão que a manipulação passou para as novas governantas do sistema.
O maquiavelismo, além de uma péssima moral, é também uma péssima política. Parecendo vencer no curto-prazo, acaba por também ser uma péssima política, porque perde a aparente razão logo que desapareça a breve interrupção do vazio de política, quando os povos, aparentemente anestesiados, recobram a normalidade e descobrem todos meandros das pressões ocultas dos vários neo-corporativismos que estão a transformar a democracia numa democratura.
Podem não funcionar os necessários serviços de informação estratégica. Podem mostrar-se ufanos os membros do grande "lobby" que vai babando coisas que as instituições militares e eclesiásticas detestam. Mas quando a velha nobreza, da função militar, e o velho clero da função moral, se voltarem a aliar ao povo, todos, em cortes gerais, poderemos regenerar um tecido político onde já não há apenas fumos de corrupção, mas desavergonhadas manifestações do periscópio dos submarinos da pressão oculta.
Portugal necessita de recobrar um novo ânimo de defesa e segurança nacionais que seja capaz de ultrapassar esotéricos conceitos ditos estratégicos e burocráticos planos de emergência. A soberania sempre foi a decisão em momentos de excepção onde possamos todos dizer que o rei vai nu e acabar com a história do velho, do rapaz e do burro. Em vez de se extirparem tumores, talvez seja mais fácil recordar a história do ovo de Colombo.
Logo, é com todas as reticências que tentarei protestar contra o facto de se ter posto a hipótese de venda das dívidas do fisco a um especulador saudita, por mais argumentos de engenharia financeira com que se justifique o processo. Com efeito, seguindo a prática dos nossos reis pré-inquisitoriais, seria bem melhor recorrermos aos tradicionais financeiros judeus, até para os ressarcirmos dos prejuízos causados por D. Manuel I. É evidente que não acreditamos que o recurso ao compatriota de Bin Laden seja uma dessas manobras ocultas destinadas a justificar a intervenção da GNR no Iraque e mais perverso seria estarmos perante um expediente destinado a obtermos mais um favor de Rumsfeld. Mas mais ridícula foi a utilização do Panteão Nacional para fins de promoção editorial de um "best seller", dado que assim caminhamos cada vez para elevarmos a realidade política à categoria da ficção "pimba", conforme o ritmo dos noticiários da TVI, onde, depois de longas descrições dos exames directos sexuais da medicina legal, o mesmo locutor logo anuncia as lágrimas de cera de uma imagem religiosa na Anadia, antes de teorizar sobre a poesia de Sophia de Melo Breyner, com o máximo dos despudores. Não faltam sequer as imaginações dialécticas em torno do tabu de Ferro Rodrigues, a viagem de Cinha Jardim aos Estados Unidos, como acompanhante do ministerial ocupante de S. Julião da Barra, ou o ritmo "big brother" dos projectos arquitectónicos de Pedro Santana Lopes. uase apetece reconhecer, como li num desses comentários "on line", que "estamos todos um pedacinho grávidos de pai incógnito", porque grassam, nos meandros da politiqueirice, as terríveis bactérias da incompetência e da imoralidade, sem que os antibióticos genéricos surtam efeito, porque estão eventualmente inquinados pelo desleixo da não-luta contra a corrupção.
Culminando este ritmo esquizofrénico, a questão europeia parece enredar-se nos velhos complexos que marcaram as venerandas metodologias do regime derrubado em 25 de Abril de 1974, quando, muito dogmaticamente, se afastava a hipótese de instauração da democracia, porque não podíamos discutir matérias de Deus, Pátria e Família...
Paradoxalmente, alguns dos que se insurgiram contra essa tolice do "ancien régime", quando andavam pela extrema-esquerda dos "filhos família", vêm agora escrevendo que a Europa se reduz à via unicitária da tal Constituição que ainda não está feita, e tudo por causa da globalização. Que quem não é pela dita é nacionalista. Que os nacionalistas são de direita. Que a direita é fascista. E que quem não seguir esta inteligência binária está contra o progresso, a civilização e a salvação da humanidade.
Para cúmulo do ridículo, não tardará que alguns ministros do mesmo "ancien regime", ainda em ritmo de propagação de sentenças, venham a terreiro culminar o respectivo percurso ultra-situacionista, alinhando com a perspectiva gerontocrática de Valéry Giscard d'Éstaing e invocando a postura de Frei Bartolomeu dos Mártires em apoio a Filipe II.
Mas quem acredita na Europa como democracia de muitas democracias e como nação de nações, desde os próprios federalistas autênticos, os herdeiros de Proudhon e da lógica antijacobina, aos que, em nome da nação libertadora, querem dividir para unificar, de acordo com os pais-fundadores do projecto europeu, resistirão na defesa do necessário pluralismo que sempre foi unidade na diversidade, contra a lei da unicidade.
Talvez os secretos defensores da independência nacional, que têm de parecer alinhar, por disciplina de filiados, com os programas eleitorais do Partido Popular Europeu e do Partido Socialista Europeu, porque integrados nas secções nacionais dos mesmos, do PSD-PP ao PS, possam, na hora da verdade e do voto secreto, assumir a autenticidade dos que estão contra a Razão do Euro-Estado que, furtivamente, nos ameaça.
Muitos dos inimputáveis marechais e senadores, que, agora, fazem os discursos moralizadores da serôdia impunidade, são exactamente os mesmos que manipularam os altíssimos lugares cimeiros, dando palmadas nas costas a banqueiros e terroristas, cardeais e aventais, para que todos fôssemos unidimensionalizados através da obediência pelo temor. Ora, essas sínteses magistrais do nosso "pensar baixinho" quase se assemelham àqueles intelectuais que são importantes, na política, por terem a fama de intelectuais, enquanto conseguem algum destaque, entre os intelectuais, por invocarem a sua condição de políticos. E, no intervalo, lá vão abichando uma avença, um tacho dourado e outras mordomias, com que conseguem mandar em motoristas, nomear uns primos e jagunços ou desviar um subsídio, para manterem a imagem de que ainda controlam as teias do "poder nu".
Muitos deles nunca tiveram, dos verdadeiros políticos, a matriz genética do militante, da mesma maneira como não atingirão o médio prazo da perenidade do intelectual, dado que cairão no silêncio quando saírem do palanque que lhes dá o jogo da notoriedade política. Daí que odeiem todos quantos se regem pela ética da convicção e que não deixam de proclamar a respectiva liberdade de pensamento. N entanto, foi essa ilustre gente que moldou as presentes marionetas amestradas que se contentam com alguns minutos de passagem pela glória das "passerelles" do mediatismo ministerial, assumindo a dimensão de meros serviçais da democratura e do doce neocolonialismo predador que nos fustigam. Qando a esquerda e a direita são meros pretextos para a dialéctica da máquina de calcular dos que nos querem transformar em sub-xerifado dos grandes donos do mundo, temos de concluir que, nesta orgia da incompetência, talvez faltem políticos que se assumam como a voz tribunícia dos muitos povos mudos desta nossa pátria, que não vêem saciada a respectiva sede de justiça. Quando os colonizados sub-colonizam, o resultado só pode ser este neomaquiavelismo de traduções em calão. Jlgo que para se recordar que o país é obra de soldados nem o presidente do conselho Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro colocaria o ministro Carlos Lobo d’Ávila a ler o discurso de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, apesar dos assessores de imagem da governação apontarem para encenações patriatorrecas que compensem as cedências ao fatalismo da mistela euro-tola.
Espero que tais assessores não aconselhem as altíssimas figuras ministeriais a enfiarem o barrete dos nossos Kumba-Iá-Cá, que já nos chega Alberto João Jardim a reduzir De Gaulle à dimensão de Pedro Santana Lopes, ou aquela excelência ministerial, cujos homónimos ocuparam lugares na galeria dos ministeriais da monarquia liberal e do Estado Novo, que, cedendo ao subliminar do nosso racismo social, tratou de considerar alguns grupos não apoiantes do governo como marcados por uma "esperteza saloia". Eu que, muito orgulhosamente me sinto parte desta ancestral componente rural da pátria, apenas qualifico como pouco esperta tal investida de genocídio verbal contra os que não fazem parte dos "backgrounds" do "jet set". Enfiando o negro barrete de tais humilhados, apenas tenho que invocar o gesto adequado desse máximo símbolo saloio que Rafael Bordalo imortalizou. Os ministros passam, o zé povinho, apesar de pagar, dá-lhes o gesto da revolta!
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009