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  Anuário de 1907

 

1907

 

Da greve académica ao governo à turca

Ciência social e pregmatismo

Fernando Pessoa na greve académica

Pormenores em anuário CEPP

  Greve académica desencadeada em Coimbra em Março. Alastra a todo o país e dura até Maio.

Governo nº 49 (2 de Maio) João Franco sem progressistas, em regime de ditadura.

Nova lei de imprensa (20 de Junho)

  Bombas em Lisboa (6 de Agosto)

Júlio de Vilhena é eleito líder dos regeneradores (12 de Outubro). Descontentamento de Campos Henriques e António Teixeira de Sousa.

  Nova explosão acidental de uma bomba na Rua do Carrião em Lisboa (17 de Novembro)

 

 

Greve académica desencadeada em Coimbra a partir do mês de Março. Alastra a todo o país e dura até Maio. O pretexto é a reprovação de um candidato a doutoramento em direito, José Eugénio Dias Ferreira ö (1882-1953), filho de José Dias Ferreira, que se declara republicano e dedica a tese a Teófilo Braga. A situação é de tal maneira grave que têm de ser mobilizadas tropas de Aveiro e do Porto para Coimbra. O movimento estende-se ao Porto. 400 estudantes de Coimbra vêm a Lisboa entregar um protesto ao parlamento. Reúnem com os republicanos numa sessão realizada no Ateneu Comercial. Assistem nas galerias ao debate parlamentar sobre a matéria e recebem solidariedade dos estudantes da Escola Médica de Lisboa. O governo pune vários estudantes e a academia responde com greve geral, anunciando grande comício para Lisboa. Em 23 de Maio são mandadas encerrar as matrículas

Ópera bufa – A greve é um intermezzo ou espécie de ópera-bufa entre duas peças, no meio da grande campanha republicana contra João Franco e a Monarquia. Bastava conhecer-lhe os motivos e os grandes" meneurs" do movimento, lançado, como sempre em tais ocasiões, por uma minoria audaciosa contra uma maioria silenciosa, para logo isto se perceber (Luís Cabral de Moncada, sobre a greve académica de 1907).

A Luta –Surge o primeiro número do jornal A Luta, dirigido por Manuel Brito Camacho (1862-1934) (1 de Janeiro).

A monarquia está nas mãos de João Franco – A monarquia está nas mãos de João Franco e nas mãos de João Franco deve morrer. Seja qual for o partido que a recebe ainda com vida, recebe-a já agonizante (João Chagas).

As unhas aduncas – O lucianista António Cabral, em 2 de Abril, numa reunião das maiorias chama aos dissidentes progressistas oposição de bandidos que ardia em ânsias de conquistar o poder, para cravar as unhas aduncas no Tesouro Público.

Governo nº 49 (2 de Maio de 1907) João Franco sem ministros progressistas, em regime de ditadura. António Teixeira de Abreu (1865-1930) na justiça. Fernando Martins de Carvalho na fazenda. Luciano Afonso da Silva Monteiro nos estrangeiros.

O rei e os partidos – D. Carlos nunca contentou os partidos. Utilizava-se deles, mas desprezava-os. Entendia-se com os chefes políticos. Aos outros tratava-os comos lacaios (João Chagas).

Como apagar o fogo? D. Carlos, referindo-se aos adiantamentos, salienta que estamos diante duma fogueira que desejamos apagar, e não se apaga o fogo lançando-lhe lenha (23 de Maio).

 

Fúria oposicionista – Emitido o primeiro decreto ditatorial (8 de Maio). Dissolvida a Câmara dos Deputados, sem prévia consulta ao Conselho de Estado e sem marcação de data para as eleições (10 de Maio). A oposição desencadeia uma vaga de ataques a João Franco e a D. Carlos. Os dissidentes progressistas entendem-se com os republicanos e chega mesmo a instituir-se um comité revolucionário com Francisco de Correia Herédia (1852-1918), 1º visconde da Ribeira Bravaö desde 1871, e Alpoim, pelos dissidentes. Afonso Costa e Alexandre Braga, pelos republicanos. D. Carlos é recebido com frieza, quando vai ao teatro em Lisboa. Começam a funcionar os chamados gabinetes negros da lei de imprensa (22 de Maio). Vários conselheiros de Estado escrevem a D. Carlos, considerando errado o caminho da ditadura (26 de Maio). Grande comício republicano, com a presença de vários políticos monárquicos (27 de Maio). Comissões das duas câmaras apresentam representações ao rei, sendo lidas por Sebastião Teles, pelos pares, e Vicente Monteiro, pelos deputados. D. Carlos responde secamente, comunicando que recomendaria o caso ao governo (30 de Maio). Dissolução da Câmara Municipal de Lisboa (6 de Junho).

Nova lei de imprensa, proibindo escritos, desenhos ou impressos atentatórios da ordem pública (20 de Junho). A Gazeta da Relação de Lisboa opina, declarando que o poder judicial não pode nem deve sancionar os diplomas da ditadura. Há sucessivas declarações de prevenção das forças militares. França Borges, refugiado em Badajoz, começa aí a publicar o Espectro do Mundo (26 de Junho). Um juiz de Lisboa, Abel de Matos Abreu suspende, no tribunal do comércio, dois processos de pequenas dívidas, considerando ilegítimo o decreto ditatorial que regula a matéria. O Supremo Tribunal de Justiça não lhe dá cobertura (Julho).

Despotismo e abatimento – Quase desde a morte de Sampaio que o governo político em Portugal se foi fazendo, com pequenas intermitências, cada vez mais despótico; e daí o seu abatimento e o predomínio em breve, seguidamente, da plutocracia, do militarismo e da teocracia... A obra política do actual governo foi uma obra profundamente reaccionária. Ela atacou e feriu todas as liberdades públicas. Daí, outra vez, como de 94 a 97, por falta de apoio na opinião, a submissão do poder civil ao despotismo plutocrata e militarista (Bernardino Machado).

Morte de Hintze Ribeiro quando acompanhava os funerais de Casal Ribeiro (1 de Agosto).

Bombas explodem na Rua de Santo António à Estrela, quando estão a ser manipuladas pelos respectivos fabricantes. Um deles, Brito Bettencourt, até é professor no Colégio de Campolide, estando ligados à chamada Loja dos Obreiros do Futuro, fundada por Heliodoro Salgado (6 de Agosto). Nova explosão acidental de uma bomba em Lisboa. A casa é habitada pela amante do chefe de gabinete de José de Alpoim e o então estudante Aquilino Ribeiro terá colaborado na feitura do engenho (17 de Novembro).

Decreto aumenta a lista civil do monarca. Confirma-se que os anteriores gabinetes haviam feito adiantamentos ilegais à casa real (30 de Agosto).

Todos querem a ditadura – Diário Ilustrado transcreve, em 16 de Novembro, declarações do jornalista Joseph Galtier, publicadas em Le Temps, onde, depois de entrevistar D. Carlos (dia 11), refere que João Franco só permanece no poder por vontade do rei. Refere também que o presidente do conselho era detestado pela rainha-mãe e pelo príncipe real. O rei declara: era necessário que a confusão – o "gâchis", não há outro termo – acabasse. Aquilo não podia durar. Íamos não sei para onde. Foi então que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura, mas os partidos, os que mais gritam, tinham-me também pedido a ditadura...Precisava de uma vontade sem fraqueza para conduzir as minhas ideias a bom caminho. Franco foi o homem que eu desejava. De há muito que o tinha em vista. No momento oportuno, chamei-o.

Adesões ao republicanismo – Augusto José da Cunha, par do reino e antigo professor de D. Carlos, filia-se no Partido Republicano (16 de Novembro). Dois dias depois é a vez de Anselmo Braamcamp Freire (18 de Novembro).

Decreto aumenta os poderes de alçada ao Juízo de Instrução Criminal. O Juiz Francisco Maria da Veiga, nomeado juiz de instrução criminal em 1893, tão atacado pela oposição, acabará por apresentar a demissão, sendo, depois, saudado como homem honesto, pelos que o denegriram (21 de Novembro).

Talassas – Mensagem da colónia do Brasil de apoio a João Franco começa com a expressão Talassa! Talassa! (24 de Novembro). Estava então a ser preparada uma viagem da família real ao Brasil, organizada pelo nosso ministro Camelo Lampreia, avô de um futuro ministro brasileiro das relações exteriores.

Vilhena – Júlio de Vilhena é eleito líder dos regeneradores (12 de Outubro), depois da morte de Hintze Ribeiro, em 1 de Agosto. Descontentamento de Campos Henriques e Teixeira de Sousa, face à nova liderança. O novo líder logo reclama o fim da ditadura e renuncia ao mandato que tinha no Banco de Portugal (dia 14). Encontra-se com D. Carlos em Cascais, no dia 16. Marcará para o dia 2 de Janeiro uma manifestação nacional, caso as Cortes não reabram nesse dia

Crispação – Assembleias-gerais dos regeneradores e dos progressistas, onde alguns delegados chegam a aventar a hipótese da abdicação de D. Carlos (8 de Dezembro). Dissolvidas as câmaras municipais e as juntas gerais (12 de Dezembro)

Crime ou revolução – Isto termina fatalmente por um crime ou por uma revolução (Júlio de Vilhena, em Agosto de 1907). O crime há-de acontecer com o regicídio; a revolução suceder-se-lhe-á, com a implantação da república; para que venham mais crimes e não acabem as revoluções. Para que tudo mude e tudo fique no mais do mesmo.

 

& Baptista, Jacinto: 54; Brandão, Raul (I): 112, 113, 207, 208, 228, 229; Gallis, Alfredo (II): 376-380, 384-393, 402, 403, 407, 414-416, 418, 421, 422, 426, 427, 444-447; Melo, Gonçalo Sampaio e (1991): Oliveira, Lopes: 231, 232. 233, 234, 237, 238, 240, 241, 242, 243, 244, 248, 249, 251; Pabón, Jesus: 75, 79; Paixão, Braga (III): 48, 52; Paixão, Braga (III, 1971): 59 ss.; Peres, Damião /Guedes, Marques (VII): 439-442; Quadros, António (Páginas de Pensamento Político, de Fernando Pessoa, I): 34, 35, 36, 43; Serrão, Joaquim Veríssimo (X): 132, 135, 138, 139, 143, 148, 254.