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1907
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Da greve académica ao governo à turca
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Greve académica desencadeada em
Coimbra a partir do mês de Março. Alastra a todo o país e dura até Maio. O
pretexto é a reprovação de um candidato a doutoramento em direito, José Eugénio
Dias Ferreira ö (1882-1953), filho de José Dias
Ferreira, que se declara republicano e dedica a tese a Teófilo Braga. A situação
é de tal maneira grave que têm de ser mobilizadas tropas de Aveiro e do Porto
para Coimbra. O movimento estende-se ao Porto. 400 estudantes de Coimbra vêm a
Lisboa entregar um protesto ao parlamento. Reúnem com os republicanos numa
sessão realizada no Ateneu Comercial. Assistem nas galerias ao debate
parlamentar sobre a matéria e recebem solidariedade dos estudantes da Escola
Médica de Lisboa. O governo pune vários estudantes e a academia responde com
greve geral, anunciando grande comício para Lisboa. Em 23 de Maio são mandadas
encerrar as matrículas
Ópera bufa – A greve é um
intermezzo ou espécie de ópera-bufa entre duas peças, no meio da grande campanha
republicana contra João Franco e a Monarquia. Bastava conhecer-lhe os motivos e
os grandes" meneurs" do movimento, lançado, como sempre em tais ocasiões, por
uma minoria audaciosa contra uma maioria silenciosa, para logo isto se perceber
(Luís Cabral de Moncada, sobre a greve académica de 1907).
A Luta –Surge o primeiro número
do jornal A Luta, dirigido por Manuel Brito Camacho (1862-1934) (1 de
Janeiro).
A monarquia está nas mãos de João
Franco – A monarquia está nas mãos de João Franco e nas mãos de João
Franco deve morrer. Seja qual for o partido que a recebe ainda com vida,
recebe-a já agonizante (João Chagas).
As unhas aduncas – O lucianista
António Cabral, em 2 de Abril, numa reunião das maiorias chama aos dissidentes
progressistas oposição de bandidos que ardia em ânsias de conquistar o poder,
para cravar as unhas aduncas no Tesouro Público.
Governo nº 49 (2 de Maio de
1907) João Franco sem ministros progressistas, em regime de ditadura.
António Teixeira de Abreu (1865-1930) na justiça. Fernando Martins de Carvalho
na fazenda. Luciano Afonso da Silva Monteiro nos estrangeiros.
O rei e os partidos – D.
Carlos nunca contentou os partidos. Utilizava-se deles, mas desprezava-os.
Entendia-se com os chefes políticos. Aos outros tratava-os comos lacaios
(João Chagas).
Como apagar o fogo? D. Carlos,
referindo-se aos adiantamentos, salienta que estamos diante duma fogueira que
desejamos apagar, e não se apaga o fogo lançando-lhe lenha (23 de Maio).
Fúria
oposicionista – Emitido o primeiro decreto ditatorial (8 de Maio).
Dissolvida a Câmara dos Deputados, sem prévia consulta ao Conselho de Estado e
sem marcação de data para as eleições (10 de Maio). A oposição desencadeia uma
vaga de ataques a João Franco e a D. Carlos. Os dissidentes progressistas
entendem-se com os republicanos e chega mesmo a instituir-se um comité
revolucionário com Francisco de Correia Herédia (1852-1918), 1º visconde da
Ribeira Bravaö desde 1871, e Alpoim, pelos
dissidentes. Afonso Costa e Alexandre Braga, pelos republicanos. D. Carlos é
recebido com frieza, quando vai ao teatro em Lisboa. Começam a funcionar os
chamados gabinetes negros da lei de imprensa (22 de Maio). Vários
conselheiros de Estado escrevem a D. Carlos, considerando errado o caminho da
ditadura (26 de Maio). Grande comício republicano, com a presença de vários
políticos monárquicos (27 de Maio). Comissões das duas câmaras apresentam
representações ao rei, sendo lidas por Sebastião Teles, pelos pares, e Vicente
Monteiro, pelos deputados. D. Carlos responde secamente, comunicando que
recomendaria o caso ao governo (30 de Maio). Dissolução da Câmara Municipal de
Lisboa (6 de Junho).
Nova lei de imprensa, proibindo
escritos, desenhos ou impressos atentatórios da ordem pública (20 de Junho). A
Gazeta da Relação de Lisboa opina, declarando que o poder judicial não
pode nem deve sancionar os diplomas da ditadura. Há sucessivas declarações de
prevenção das forças militares. França Borges, refugiado em Badajoz, começa aí a
publicar o Espectro do Mundo (26 de Junho). Um juiz de Lisboa, Abel de
Matos Abreu suspende, no tribunal do comércio, dois processos de pequenas
dívidas, considerando ilegítimo o decreto ditatorial que regula a matéria. O
Supremo Tribunal de Justiça não lhe dá cobertura (Julho).
Despotismo e abatimento –
Quase desde a morte de Sampaio que o governo político em Portugal se foi
fazendo, com pequenas intermitências, cada vez mais despótico; e daí o seu
abatimento e o predomínio em breve, seguidamente, da plutocracia, do militarismo
e da teocracia... A obra política do actual governo foi uma obra profundamente
reaccionária. Ela atacou e feriu todas as liberdades públicas. Daí, outra vez,
como de 94 a 97, por falta de apoio na opinião, a submissão do poder civil ao
despotismo plutocrata e militarista (Bernardino Machado).
Morte de Hintze Ribeiro quando
acompanhava os funerais de Casal Ribeiro (1 de Agosto).
Bombas explodem na Rua de Santo
António à Estrela, quando estão a ser manipuladas pelos respectivos fabricantes.
Um deles, Brito Bettencourt, até é professor no Colégio de Campolide, estando
ligados à chamada Loja dos Obreiros do Futuro, fundada por Heliodoro
Salgado (6 de Agosto). Nova explosão acidental de uma bomba em Lisboa. A casa é
habitada pela amante do chefe de gabinete de José de Alpoim e o então estudante
Aquilino Ribeiro terá colaborado na feitura do engenho (17 de Novembro).
Decreto aumenta a lista civil do
monarca. Confirma-se que os anteriores gabinetes haviam feito adiantamentos
ilegais à casa real (30 de Agosto).
Todos querem a ditadura –
Diário Ilustrado transcreve, em 16 de Novembro, declarações do jornalista
Joseph Galtier, publicadas em Le Temps, onde, depois de entrevistar D.
Carlos (dia 11), refere que João Franco só permanece no poder por vontade do
rei. Refere também que o presidente do conselho era detestado pela rainha-mãe e
pelo príncipe real. O rei declara: era necessário que a confusão – o "gâchis",
não há outro termo – acabasse. Aquilo não podia durar. Íamos não sei para onde.
Foi então que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura,
mas os partidos, os que mais gritam, tinham-me também pedido a
ditadura...Precisava de uma vontade sem fraqueza para conduzir as minhas ideias
a bom caminho. Franco foi o homem que eu desejava. De há muito que o tinha em
vista. No momento oportuno, chamei-o.
Adesões ao republicanismo –
Augusto José da Cunha, par do reino e antigo professor de D. Carlos, filia-se no
Partido Republicano (16 de Novembro). Dois dias depois é a vez de Anselmo
Braamcamp Freire (18 de Novembro).
Decreto aumenta os poderes de alçada
ao Juízo de Instrução Criminal. O Juiz Francisco Maria da Veiga, nomeado
juiz de instrução criminal em 1893, tão atacado pela oposição, acabará por
apresentar a demissão, sendo, depois, saudado como homem honesto, pelos que o
denegriram (21 de Novembro).
Talassas – Mensagem da colónia
do Brasil de apoio a João Franco começa com a expressão Talassa! Talassa!
(24 de Novembro). Estava então a ser preparada uma viagem da família real ao
Brasil, organizada pelo nosso ministro Camelo Lampreia, avô de um futuro
ministro brasileiro das relações exteriores.
Vilhena – Júlio de Vilhena é
eleito líder dos regeneradores (12 de Outubro), depois da morte de Hintze
Ribeiro, em 1 de Agosto. Descontentamento de Campos Henriques e Teixeira de
Sousa, face à nova liderança. O novo líder logo reclama o fim da ditadura e
renuncia ao mandato que tinha no Banco de Portugal (dia 14). Encontra-se com D.
Carlos em Cascais, no dia 16. Marcará para o dia 2 de Janeiro uma manifestação
nacional, caso as Cortes não reabram nesse dia
Crispação – Assembleias-gerais
dos regeneradores e dos progressistas, onde alguns delegados chegam a aventar a
hipótese da abdicação de D. Carlos (8 de Dezembro). Dissolvidas as câmaras
municipais e as juntas gerais (12 de Dezembro)
Crime ou revolução – Isto
termina fatalmente por um crime ou por uma revolução (Júlio de Vilhena, em
Agosto de 1907). O crime há-de acontecer com o regicídio; a revolução
suceder-se-lhe-á, com a implantação da república; para que venham mais crimes e
não acabem as revoluções. Para que tudo mude e tudo fique no mais do mesmo.
& Baptista, Jacinto: 54; Brandão, Raul (I): 112, 113, 207, 208, 228, 229; Gallis, Alfredo (II): 376-380, 384-393, 402, 403, 407, 414-416, 418, 421, 422, 426, 427, 444-447; Melo, Gonçalo Sampaio e (1991): Oliveira, Lopes: 231, 232. 233, 234, 237, 238, 240, 241, 242, 243, 244, 248, 249, 251; Pabón, Jesus: 75, 79; Paixão, Braga (III): 48, 52; Paixão, Braga (III, 1971): 59 ss.; Peres, Damião /Guedes, Marques (VII): 439-442; Quadros, António (Páginas de Pensamento Político, de Fernando Pessoa, I): 34, 35, 36, 43; Serrão, Joaquim Veríssimo (X): 132, 135, 138, 139, 143, 148, 254.