1914  Da frustrada bernardização à Guerra

Governo nº 61 (9 de Fevereiro) Bernardino Machado (306 dias). Durante cerca de dez meses sobe ao poder um gabinete presidido por um antigo ministro da monarquia, com três ministros democráticos, sendo os restantes independentes. Novo chefe do governo fala na necessidade do congreçamento da família portuguesa e diz não ao sectarismo, pelo que tenta novamente chamar para o governo os republicanos históricos do Porto, convidando Basílio Teles, Alves da Veiga, Guerra Junqueiro e Paulo Falcão, mas todos recusam.

Bernardino Luís Machado Guimarães na presidência e no interior. Nos estrangeiros, desde 23 de Maio de 1914, o coronel de engenharia Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929), antigo colaborador de António Enes em Moçambique e governador da província de 1906 a 1910. Na justiça, até 23 de Junho, o democrático e republicano histórico Manuel Joaquim Rodrigues Monteiro (1879-1952), governador civil de Braga depois de 1910 (desde 23 de Junho, Bernardino Machado; a partir de 23 de Julho, Eduardo Augusto de Sousa Monteiro). Nas finanças, o professor da Politécnica, fiscalista e republicano histórico, vereador da Câmara de Lisboa em 1908, Tomás António da Guarda Cabreira (1865-1918) (desde 23 de Junho de 1914: António dos Santos Lucas). No fomento, o advogado Aquiles Gonçalves Fernandes (desde 23 de Junho de 1914, João Maria de Almeida Lima (1859-1930)). Na guerra, António Júlio da Costa Pereira de Eça (1852-1917), general e director do Arsenal do Exército, não filiado partidariamente. Na marinha, o independente Augusto Eduardo Neuparth (1859-1925), almirante, célebre por ter criado a farolagem). Nas colónias, Alfredo Augusto Lisboa de Lima, professor da Escola Politécnica, também não filiado partidariamente. Na instrução pública, o também independente José de Matos Sobral Cid, professor de medicina.

Prometendo tudo a todos  –   Bernardino Machado pertence a uma geração de homens extraordinários, de homens que construíram ao lado da vida uma vida abstracta – e só vivem para essa coisa imaginária e tremenda feita de teias de aranha (Raúl Brandão). Segundo Guerra Junqueiro, não era de ferro, mas de borracha, pode passar-lhe um cilindro de estrada por cima que ele levanta-se logo, todo lépido, a tirar o chapéu, mas este que era o homem mais delicado de Portugal, afinal vai ser um lírio que dará cicuta.  Com efeito, Bernardino estava talhado para ser o presidente simbólico de um regime estabilizado, onde o poder moderador pudesse ser apenas um mero poder simbólico, capaz de simples influência numa balança de poderes incontestada. Ele apenas era o calmante republicano e jamais o chefe de um governo que vai ser de mobilização para a guerra

A procura de um governo de concentração – O rei exilado chega a sugerir aos monárquicos para colaborarem com a República no esforço de guerra e alguns jornais monárquicos, como a Nação, falam mesmo na necessidade de um governo de concentração nacional. Congresso autoriza a entrada de Portugal na Guerra (23 de Novembro). Perante as circunstâncias, o governo de Bernardino Machado pede a demissão em 5 de Dezembro, três dias depois da reabertura parlamentar, reconhecendo, pouco tempo depois, que havia uma crise profunda porque a formação dos partidos dentro da República foi prematura. Aliás, o gabinete, na fase final, apenas tem a defendê-lo António José de Almeida e Machado Santos.

Congelamento das rendas de casa dos prédios urbanos pelo Decreto nº 1 079 (21 de Novembro). O modelo vai criar um regime que se mantém, mais ou menos, incólume até ao século XXI.

Sinais de oposição ao governo dentro dos próprios democráticos e dos unionistas. Entre os primeiros, salientem-se as intervenções de Jaime Cortesãoö, a partir do jornal O Norte, a criticar os afonsistas. Entre os segundos, os artigos de José Jacinto Nunes em A Luta contra Brito Camacho. Defendem o governo, A República, de António José de Almeida, e O Intransigente, de Machado Santos

António José de Almeida recusa governo de concentração – Afonso Costa diz que a união é impossível por causa das guerras pessoais. Almeida considera que a questão tem a ver com princípios, nomeadamente com divergências face à Lei da Separação. Brito Camacho está contra o governo de concentração e até contra a hipótese de governo extra-partidário, defendendo um governo de base parlamentar demo-evolucionista ou demo-unionista. Mas põe obstáculos até à concretização deste último (5 de Dezembro).

  Governo anterior

Governo posterior  

Governo de Bernardino Machado

De 9 de FEVEREIRO a 12 de Dezembro de 1914

307 dias

Cerca de dez meses

6º governo republicano

5º governo constitucional

[1]Há duas formais nomeações deste governo: a primeira de 9 de Fevereiro de 1914 a 23 de Junho de 1914 (135 dias); a segunda de 23 de Junho de 1914 a 12 de Dezembro de 1914 (173 dias).

Presidência e Interior

Bernardino Luís Machado Guimarães na presidência e no interior.

Estrangeiros

Desde 23 de Maio de 1914

O coronel de engenharia Alfredo Augusto Freire de Andrade assume os estrangeiros, pasta até então gerida interinamente por Bernardino Machado.

Justiça

Até 23 de Junho

O democrático Manuel Joaquim Rodrigues Monteiro (bacharel em direito, juiz do Supremo Tribuanl Administrativo e historiador da arte românica).

Manuel Monteiro tinha sido governador civil de Braga depois de 1910. Será ministro do fomento do governo de João Chagas/ José de Castro, de 17 de Maio a 29 de Novembro de 1915.

Desde 23 de Junho

Bernardino Machado

Desde 23 de Julho

Juiz Eduardo Augusto de Sousa Monteiro.

Finanças

Tomás António da Guarda Cabreira (capitão de engenharia e professor universitário de química, antigo vereador republicano de Lisboa em 1908)

Faleceu em 1918, publicando várias obras em 1912, 1915 e 1916 sobre os problemas financeiro, bancário e tributário.

Desde 23 de Junho de 1914

Capitão António dos Santos Lucas

Fomento

Aquiles Gonçalves Fernandes (advogado)

Desde 23 de Junho de 1914:

João Maria de Almeida Lima

Guerra

António Júlio da Costa Pereira de Eça (general e director do Arsenal do Exército). Não filiado partidariamente.

Marinha

Augusto Eduardo Neuparth (almirante, célebre por ter criado a farolagem). Não filiado partidariamente.

Colónias

Alfredo Augusto Lisboa de Lima (professor da Escola Politécnica). Não filiado partidariamente.

Instrução Pública

José de Matos Sobral Cid (professor de medicina). Não filiado partidariamente.


 

[1] Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 22-23; David Ferreira, I, pp. 138 ss.; Jesus Pabón, pp. 178-179.

Fevereiro de 1914

·Constituído o governo de Bernardino Machado em 9 de Fevereiro. Bernardino era embaixador no Rio de Janeiro e tinha pouco antes regressado a Lisboa, a bordo do paquete Avon: caía do céu. Segundo João Chagas ofereceu pastas a toda a gente a dos negócios estrangeiros a meio mundo. Ninguém lhe pegou, nem o Júlio Dantas[2]. O governo bernardizava-se, conforme dizia Guerra Junqueiro.

·Bernardino, primeiro, tentou chamar para o governo os republicanos históricos do Porto, convidando Basílio Teles, Alves da Veiga, Guerra Junqueiro e Paulo Falcão, mas todos recusaram. Segundo dizia, em nota oficiosa de 7 de Janeiro, quer formar o ministério com elementos extrapartidários e elementos conciliadores representantes dos partidos, numa fórmula que, conforme se lia em A Capital, não seria a repetição da concentração partidária[3].

·Apresentação parlamentar do novo governo em 10 de Fevereiro[4]. Promete revisão da Lei da Separação e ampla amnistia, falando em congraçamento da família portuguesa e dizendo não ao sectarismo. Apoio formal dos democráticos, aberta oposição dos evolucionistas e expectativa benévola dos 17 deputados unionistas. Os evolucionistas justificam a oposição dizendo que no gabinete há três ministros democráticos, uma agremiação que fomentoua desordem, o tumulto, a guerra civil entre os portugueses e que agasalhou e incitou espiões miseráveis que vitimaram inocentes e desgraçaram famílias inteiras.

·Deputado socialista Manuel José da Silva, entrevistado por O Século, em 15 de Fevereiro, propõe a institucionalização dos contratos colectivos de trabalho[5].

·Em 16 de Fevereiro, 62 parlamentares evolucionistas e unionistas assinam documento onde se propõe a fusão dos dois partidos. Camacho concorda, Almeida põe condições[6].

·Proposta de lei da amnistia apresentada no parlamento no dia 19 de Fevereiro pelo ministro da justiça Manuel Monteiro. Aprovada no dia seguinte por 102-24, será publicada no dia 21. Os presos serão libertados logo no dia 22. Amnistia abrange o desterro dos bispos[7]. Abrange 572 indivíduos presos e 1 700 emigrados. Segundo João Chagas, atira sobre a República dois mil adversários odientosi[8]. Brito Camacho terá apoiado a medida, dizendo que conspirar é um direito[9]

·Reaparece o jornal monárquico O Dia, afecto a José Maria de Alpoim.

·Tumultos em Monção. Chagas observar greve em Portugal. Comboios descarrilados, bombas, pontes que saltam, comunicações interrompidas[10]

·Patriarca de Lisboa regressa à diocese em Fevereiro. O do Porto em 3 de Abril[11].

Março de 1914

·Afonso Costa assume o exercício efectivo das funções de professor e director da Faculdade de Direito e Estudos Sociais de Lisboa em 2 de Março. Até fins de Janeiro de 1915, quando pede licença. Apenas regressa em Novembro de 1915, mas apenas preside a uma sessão do conselho, dado que, depois de Julho ter um acidente, passa  a presidente do ministério.

·Fernando Pessoa cria o heterónimo Alberto Caeiro em 8 de Março.

·Morte de José Luciano de Castro na Anadia em 9 de Março.

·Congresso Operário de Tomar de 14 a 17 de Março. Criada a União Operária Nacional[12].

·Interrompido comício católico na igreja de S. João de Almedina  em Coimbra em 22 de Março. Estavam presentes Salazar e Cerejeira[13].

·No dia 24 desloca-se a Lisboa comissão de católicos de Coimbra para inteirar o governo dos distúrbios. Bernardino Machado toma a salomónica decisão de, em nome da paz académica, mandar encerrar todos os centros académicos[14].

·Decreto sobre a central hidro-eléctrica das Portas do Ródão em 28 de Março. O diploma vai levar à queda do governo, sendo revogado em 24 de Junho.

Abril de 1914

·D. António Barroso volta discretamente ao Porto em 3 de Abril. No dia 7, grande manifestação pública de apoio ao bispo regressado[15].

·Começa a publicar-se em Coimbra Nação Portuguesa, em 8 de Abril.

·Em 16 de Abril o parlamento rejeita o regresso a Portugal do jesuíta Pestana da Silva que se encontrava gravemente doente na Galiza. Bernardino fora favorável a um requerimento apresentado pelo pai do mesmo, mas no parlamento apenas teve o apoio de Jacinto Nunes, João de Meneses e do socialista Manuel José da Silva. O governo cede, para não abrir crise.

·Em 20 de Abril, aniversário da Lei da Separação, os republicanos do Porto organizam grande manifestação de resposta à manifestação dos católicos do dia 7.

·Greves de pintores e metalúrgicos em Lisboa e da construção civil em Coimbra. Tumultos em Olhão.

Maio de 1914

·Congresso das Associações Comerciais e Industriais em Maio. No dia 1, lei sobre a livre associação e funcionamento das associações de classe.

·Em 2 a 4 de Maio congresso no Porto da Federação das Juventudes Católicas, presidido pelo conde de samodães. Salazar discursa: A Democracia e a Igreja[16]. Tentativa de assalto ao congresso no dia 4[17].

·Greve dos pescadores em Sesimbra.

Junho de 1914

·Afonso Costa desafia António José de Almeida para duelo, sabendo que este o não aceita, por ser defensor do modelo dos tribunais de honra.

·Reforma do ensino primário em 8 de Junho

·Em 17 de Junho a questão do decreto de 28 de Março é levantada na Câmara dos Deputados pelo deputado evolucionista Celorico Gil. António Maria da Silva chama-lhe canalha. O contraventor insulta-o, qualificando este como tolerado. Bofetões nos Passos Perdidos[18].

·Mantida a Lei da Separação, depois de votação parlamentar em 20 de Junho. Manifestações de católicos e da Associação do Registo Civil. Bernardino Machado lamenta que a República não tenha um cardeal Saraiva ou um D. Alves Martins[19].

·Em 22 de Junho, Bernardino Machado pede a demissão por causa do decreto de 28 de Março.

·Concurso para assistentes da Faculdade de Estudos Sociais e Direito. Admitido Martinho Nobre de Melo em detrimento de João Evangelista Campos Lima, Alfredo Pimenta e António Macieira[20].

·Os ministros democráticos demitem-se, mas Tomás Cabreira, inconformado, apesar de demitir-se pede também a demissão de membro do partido democrático. O Supremo Tribunal Administrativo considerou o diploma inconstitucional. Em 20 de Junho os deputados e senadores democráticos votam pela constitucionalidade do diploma e mandam que os ministros do partido não assinem qualquer decreto declarando nulo o diploma[21].

·Anulado o decreto de 28 de Março em 24 de Junho. Como observa João Chagas, quando Bernardino Machado está no poder nunca há em rigor uma crise, e é o que sucede  … tapou rapidamente os buracos deixados pelos seus três colaboradores e prossegue[22].

·Atentado de Serajevo em 28 de Junho

·Aprovado o orçamento e encerrada a legislatura em 30 de Junho. Houve falta de quorum nas sessões de 27, 28 e 29. A falta de quorum tem a ver com a projectada discussão da lei eleitoral. Os evolucionistas não comparecem e os unionistas retiram-se[23].

·Em 30 de Junho discute-se nova lei eleitoral, principalmente no tocante à divisão dos círculos. Admitia-se o sistema de lista incompleta, reservando-se um quarto dos deputados para as minorias. O deputado evolucionista Mesquita de Carvalho considera que o projecto serve para servir os interesses de uma seita e para favorecer a dementada ambição de uma criminosa ditadura parlamentar. O projecto será discutido e aprovado na Câmara dos Deputados, mas nunca chegou a ser votado pelo Senado

·Em 30 de Junho, Afonso Costa declara: a República carece de um governo extrapartidário até às eleições; que o sr. Presidente do Ministério se conserve até lá no seu posto de honra[24].

·Tumultos na Idanha e na Azambuja. Conflitos estudantis em Coimbra (200 estudantes presos). Greve dos operários das moagens por falta de importação de trigo.

·Realizam-se conferências anarquistas em Lisboa e no Porto.

Julho de 1914

·Lei nº 253 de 20 de Julho sobre o regime de fiscalização do vinho do Porto.

·Ultimato à Sérvia em 23 de Julho.

·Declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia em 28 de Julho.

·Ultimato alemão à França e à Rússia, em 31 de Julho.

·Em 31 de Julho são marcadas eleições em Portugal para o dia 1 de Novembro

Agosto de 1914

·A declaração de guerra da Alemanha à Rússia em 1 de Agosto.

·Invasão alemã do Luxemburgo (2 de Agosto) e da  Bélgica (3 de Agosto).

·Em 3 de Agosto, proibida a exportação de combustíveis, gado e géneros alimentícios, à excepção do vinho, em Portugal.

·Declaração de guerra à Alemanha pelo Reino Unido (4 de Agosto).

·Encerradas as Bolsas de Fundos de Lisboa e do Porto em 4 de Agosto. Regime estabelecido pelo decreto nº 797 de 25 de Agosto.

·Bernardino Machado, em 7 de Agosto, lê relatório sobre a posição de Portugal em sessão do Congresso. Proclamada a fidelidade à aliança luso-britânica. Aplauso unânime.

·Em 8 de Agosto, a Lei nº 275 permite ao governo actuar sem peias parlamentares, face ao estado de guerra: concede ao poder executivo as faculdades necessárias para, na actual conjuntura, garantir a ordem em todo o país e salvaguardar os interesses nacionais, bem como para ocorrer a quaisquer emergências extraordinárias de carácter económico e financeiro. É ao abrigo deste diploma que se exercerá a ditadura de Pimenta de Castro. A lei foi prorrogada pela Lei nº 292 de 29 de Janeiro de 1915 e renovada pela lei de 5 de Junho de 1915.

·Entre os defensores do intervencionismo está João Chagas, nosso representante em Paris. Teixeira Gomes, em Londres, é mais moderado. Brito Camacho é contra a intervenção no teatro europeu do conflito, defendendo apenas uma intervenção em África. Esta é também a posição dos monárquicos, através de Aires de Ornelas, lugar-tenente de D. Manuel II. O rei chega a propor que os monárquicos colaborem com a República para o efeito. Alguns jornais monárquicos, como a Nação falam mesmo na necessidade de um governo de concentração nacional[25].

·Leote do Rego fala num perigo ibérico, referindo-se aos monárquicos

·Novas penalidades para comerciantes que elevem os preços dos géneros de primeira necessidade, pelo decerto nº 741 de 10 de Agosto. Nesse diploma também se institui um sistema global de fiscalização do preço dos géneros alimentícios.

·Criada uma Comissão de Subsistências, para géneros alimentícios e combustíveis, pelo decreto nº 767 de 17 de Agosto.

·No dia 18 são instituídos armazéns gerais industriais e criada uma comissão especial junto do ministério do fomento para a aplicação de providências visando o abastecimento do país em géneros alimentícios e combustíveis.

·No dia 21, criadas bolsas de mercadorias em Lisboa e no Porto.

·Em 18 de Agosto determina-se a organização de duas expedições militares para África.

·Ataque alemão ao posto de Maziua em Moçambique no dia 25 de Agosto.

·Decreto do ministro das finanças Santos Lucas, de 26 de Agosto, estabelece em 120 000 contos o limite da circulação fiduciária (limite das notas chamadas de ouro).

·Greve dos cabouqueiros e dos fabricantes de cal em Lisboa. Tumultos em Lamego (10  mortos). Assaltado o jornal A Liberdade.

Setembro de 1914

·Em 7 de Setembro é publicada a Carta de um Velho a um Novo, de Ramalho Ortigão, a João Amaral, onde aquele escritor apoia o movimento integralista.

·Partem para África as primeiras expedições militares em 11 de Setembro. A de Angola, que segue a bordo do Moçambique, é comandada pelo coronel Alves Roçadas. Desembarca em Moçâmedes no dia 1 de Outubro e chega ao Lubango a 17 do mesmo mês. A de Moçambique, que segue a bordo do Durham Castle, e comandada pelo coronel Massano de Amorim. Chega a Lourenço Marques a 16 de Outubro.

·Assaltos a armazéns de víveres no Porto, em 18 de Setembro. Intervenção das forças policiais. Greve dos tecelões no Porto. Assaltos a armazéns de víveres em Almada.

·Em 19 de Setembro, as eleições são adiadas sine die, atendendo a que persistem ainda os motivos de ordem internacional que aconselharam os partidos republicanos à patriótica suspensão das questões políticas internas. Nesse mesmo dia, o governo publicita um relatório sobre as respectivas actividades.

·Criação de uma Junta Reguladora de Câmbios, com delegados das associações privadas, em 24 de Setembro.

·Jornal monárquico O Dia suspende a publicação, em 24 de Setembro, protestando contra o facto de alguns dos seus números terem sido apreendidos.

·Lançado à água o contratropedeiro Guadiana, construído no Arsenal da Marinha.

·Greve dos tipógrafos no Porto.

Outubro de 1914

·Em 10 de Outubro, os britânicos convidam Portugal a abandonar a neutralidade.

·Conselho de Ministros decide criar um corpo expedicionário destinado a intervir em França, em 13 de Outubro.

·Proibida a reexportação de géneros alimentícios e de medicamentos, em 14 de Outubro.

·Incidente de Naulila em 18 de Outubro.

·Segunda Outubrada. Proclamada a monarquia em Mafra em 20 de Outubro, com intervenção do germanófilo Rodrigues Nogueira[26]. Os conspiradores monárquicos, quando se dirigiam a Torres vedras, são derrotados em S. Pedro da Caldeira pelas tropas governamentais comandadas pelo capitão Álvaro Poppe. Incidentes em Bragança. Assalto a vários jornais monárquicos em Lisboa (Jornal da Noite, Restauração e Talassa), bem como ao jornal crítico independente, Ridículos. Criado em 22 de Outubro um tribunal militar especial para julgamento dos conspiradores monárquicos[27].

·Facilitada a entrada na metropole de cereais produzidos nas colónias, em 28 de Outubro.

·Ataque alemão a Cuangala em 31 de Outubro[28].

Novembro de 1914

·Novos embarques para África em 5 de Novembro, 1, 3 e 10 de Dezembro.

·Congelamento das rendas de casa dos prédios urbanos em 21 de Novembro pelo Decreto nº 1 079.

·Governo é autorizado pelo Congresso a intervir na guerra em 23 de Novembro, numa reunião extraordinária do Congresso. Lei nº 283 publicada no dia seguinte.

·Redução dos custos de armazenagem dos géneros alimentícios no porto de Lisboa em 25 de Novembro.

·Parte para o Brasil Duarte Leite, o primeiro embaixador formal da República no Rio de Janeiro.

·Instaurada a censura sobre assuntos miliatres em 30 de Novembro.

Dezembro de 1914

·Reabertura do parlamento em 2 de Dezembro. Bernardino Machado lê o relatório do governo.

·Aprovada, por 77-10, moção para interpelação ao governo em 4 de Dezembro, por causa do decreto nº 1096 sobre a mobilização, publicado em 25 de Novembro. Em 2 de Dezembro  o deputado democrático Vitorino Godinho referia insultuosamente o chamdo decreto da mobilização. No dia 4, Bernardino Machado declarava categoricamente, sem a habitual cordialidade, que se a moção não fosse retirada o governo se demitiria. A votação de 4 de Dezembro foi apenas sobre a admissibilidade da moção, dado que o líder dos democráticos na Câmara dos Deputados, Alexandre Braga contrariou os intentos de Bernardino.

·Bernardino Machado  apresenta a demissão em 5 de Dezembro. Havia sinais de oposição ao governo dentro dos próprios democráticos e dos unionistas. Entre os primeiros, salientem-se as intervenções de Jaime Cortesão, a partir do jornal O Norte. Entre os segundos, os artigos de Jacinto Nunes em A Luta. Defendiam o governo, A República, de António José de Almeida, e O Intransigente, de Machado Santos[29]

·Em 10 de Dezembro já Manuel de Arriaga convida Azevedo Coutinho para formar governo.

·Em 14 de Dezembro, no Senado, Bernardino Machado refere: a crise … estava aberta já há muito tempo; é a crise profunda, que precisava de ser sanada, a crise dos partidos. Não há dúvida de que a formação dos partidos dentro da República foi prematura.


 

[1] Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 22-23; David Ferreira, I, pp. 138 ss.; Jesus Pabón, pp. 178-179.

[2] João Chagas, Diário, p.44.

[3] Damião Peres, p. 25.

[4] David Ferreira, I, p. 143.

[5] Damião Peres, p. 30.

[6] David Ferreira, I, p. 136.

[7] Damião Peres, pp. 31-32.

[8] João Chagas, Diário, I, p. 51.

[9] João Chagas, Diário, I, p. 53.

[10] João Chagas, Diário, I, p.55.

[11] Damião Peres, p. 29.

[12] Alexandre Vieira, pp. 71-77; José Pacheco Pereira, pp. 83-84.

[13] Franco Nogueira, I, pp. 108-110.

[14] Manuel Braga da Cruz, p. 257.

[15] Damião Peres, p. 42.

[16] Franco Nogueira, I, pp. 107-108; Manuel Braga da Cruz, p. 256.

[17] Damião Peres, p. 42.

[18] Damião Peres, p. 45.

[19] Damião Peres, pp. 35-37; David Ferreira, pp. 146 ss.

[20] Marcello Caetano, pp. 30-32.

[21] Damião Peres, p. 45.

[22] João Chagas, Diário, I, p. 93.

[23] David Ferreira, I, pp. 160 ss.

[24] Damião Peres, p. 51.

[25] Damião Peres, pp. 59- 60.

[26] David Ferreira, I, p. 165.

[27] Damião Peres, p. 62.

[28] Pabón, p. 216

[29] David Ferreira, I, pp. 173 ss.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 31-03-2009