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1991 |
Guerra do Golfo, Golpe de Moscovo e Nova Ordem Internacional |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
Guerra do Golfo, golpe de Moscovo e Nova Ordem Internacional. Dá-se a implosão da URSS e a consequente dissolução do Comecon e do Pacto de Varsóvia, com Ieltsine a vencer o golpe de Moscovo que pretende suspender o processo, enquanto George Bush defende o conceito de uma
nova ordem
mundial (27 de Setembro). Na Europa, decorre o Conselho Europeu de Maastricht, Butros-Butros-Ghali é eleito secretário-geral da ONU (21 de Novembro) e, em Portugal, quase nada de novo, a não ser eleições. O censo dá-nos 9 862 670 habitantes, José Saramago destaca-se com O Evangelho Segundo
Jesus Cristo e o Prémio Pessoa é atribuído ao arqueólogo Cláudio Torres, tendo, sobretudo em conta as escavações feitas em Mértola, onde, afinal, há mais um Portugal paleo-cristão do que restos da moirama, com que muitos pretendiam integrar-nos no Terceiro Mundo. O Expresso elege como
homens do ano um tal sindicalista Torres Couto, um tal intelectual Mega Ferreira, um tal secretário de Estado Santana Lopes e um tal tarimbeiro da política laranja, chamado Luís Filipe Meneses. Todos ilustres homens de sucesso sem obra-prima mas com muitas promessas de obra feita e, sobretudo,
detentores daquele eficaz sentido de oportunidade que lhes permite saber apostar no vencedor.
Centesimus Annus e primeira revolução global – Quando se reconhece a existência de um jardim das delícias democráticas (Philippe Braud), quando o papa João Paulo II lança a
Centesismus Annus, Alexander King e Bertrand Schneider, em relatório para o Clube de Roma reconhecem a
existência do The First Global Revolution. No plano das aventuras da política (Julien Freund), onde governar é parecer (Jean-Marie Cotteret), reconhecem-se as técnicas de construção do espectáculo político (Murray Edelman), apesar dos limites da interpretação (Umberto
Eco). Destaque para o lançamento no Brasil de Liberalismo Antigo e Moderno de José Guilherme Merquior.
Cavaco com nova maioria absoluta, massacre em Dili e tratado de Maastricht
Guerra do Golfo, golpe de Moscovo e Nova Ordem Internacional
ä Conselho Europeu de Maastricht
ä Acordo de Bicesse entre MPLA e UNITA
ä Dissolução do COMECON e do Pacto de Varsóvia
ä Ieltsine vence golpe de Moscovo
ä Implosão da URSS
Centesimus Annus e primeira revolução global
Entre o soarismo presidencial e o cavaquismo governativo
1 ep11 (13 Jan.1991)
1 e71 (6 Out.1991)
Conselho Europeu de Maastricht
Reeleição de Mário Soares
Acordos de Bicesse
Dissolução do Comecon e do Pacto de Varsóvia
Ieltsine vence golpe de Moscovo
Implosão da URSS
O limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países
(Pomian)
A noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples e o respectivo conteúdo é susceptível de mudar em das sucessivas gerações. Conclui, assim, que não é possível nem pertinente fixar na hora actual as fronteiras da União europeia, cujos limites serão traçados num decurso de um período de vários anos
(Comissão Europeia1991 era o ano do Conselho Europeu de Maastricht, da dissolução do Comecon e do Pacto de Varsóvia, de Ieltsine vencer golpe de Moscovo e de suceder a inevitável implosão da URSS, enquanto em Portugal se assitia à reeleição de Mário Soares e se celebravam os acordos de Bicesse, que pretendiam dar paz a Angola.
No plano comunitário era o tempo das jogadas negociais. Durante o primeiro semestre, de presidência luxemburguesa, tudo começava com a Irlanda a lançar as primeiras propostas sobre a coesão económica e social, como condição para a realização da União Económica e Monetária (Janeiro), seguindo-se propostas franco-alemãs sobre a segurança europeia, propondo a integração da UEO na Comunidade em1998 (15 de Fevereiro), uma proposta espanhola sobre a cidadania europeia (21 de Fevereiro) e uma declaração conjunta germano-italiana, propondo poderes alargados para o Parlamento Europeu (9 de Abril).
Entretanto, a conferência intergovernamental chegava a consenso quanto a um primeiro projecto de um tratado de união europeia, com três pilares (12 de Abril), protestando de imediato a Comissão contra esta a teoria, propondo, como alternativa a teoria da árvore (29 de Maio). E lá vinha um segundo projecto de tratado da união europeia, apresentado pela presidência luxemburguesa, mantendo a tese dos pilares, mas fazendo referências federalistas e reforçando o papel da Comissão (18 de Junho), até que o Conselho Europeu do Luxemburgo, em 28-29 de Junho, decidiu que o segundo projecto de tratado serviria de base para as negociações (28-29 de Junho).
Seguia-se a presidência holandesa que, em 30 de Setembro, já apresentava novo projecto de um tratado da união europeia (30 de Setembro), como uma segunda versão em 10 de Novembro, onde eram reforçados os poderes do Parlamento Europeu e se previa a realização de uma conferência intergovernamental em1996 na perspectiva de reforçar o carácter federal da União.
Então, para superar-se o impasse, os chefes de governo democrata-cristãos propuseram um compromisso: eliminação das referências federalistas, a fim de se garantir a integração da PESC na Comunidade (26 de Novembro). Assim se permitiu que o Conselho Europeu de Maastricht, de 10 de Dezembro, aprovasse a União Europeia, mas com o Reino Unido a recusar o capítulo social e a obter também cláusulas de exclusão relativamente à União Económica e Monetária. A política de segurança europeia ganhava, contudo, novos contornos, no último trimestre. Em 5 de Outubro surgia uma declaração conjunta anglo-italiana sobre a segurança e defesa, sublinhando a importância da NATO; no dia 11, uma iniciativa franco-alemã de um projecto sobre a PESC, pelo reforço da UEO; três dias depois era decidida a criação de um Eurocorpo por Mitterrand e Kohl e em 7-8 de Novembro reunia o Conselho Atlântico de Roma, onde os norte-americanos aceitavam o princípio de uma identidade europeia em matéria de defesa, ao mesmo tempo que se definia um novo conceito estratégico para a aliança atlântica. Seguia-se, em 20 de Dezembro, o começo do Conselho de Cooperação Norte-Atlântico, onde os 16 membros da NATO se juntavam a nove Estados da Europa central e oriental, um conjunto que, em Março de 1992, já englobava 36 membros.
Nova configuração sofriam, no entanto, as relações da Comunidade Europeia com os países do Leste europeu. Depois da inauguração do BERD, em 15 de Abril, eis que a Polónia, a Checoslováquia e a Hungria tratavam de solicitar um reforço do diálogo político com a Comunidade (20-22 de Agosto), o que se concretizaria com a assinatura dos acordos europeus da Comunidade Europeia com aqueles países do grupo de Visegrado (16 de Dezembro).
Mitterrand reunia em Praga com intelectuais europeus defendendo uma Confederação europeia com a URSS; Havel dizia-lhe que esta não podia ser feita sem os EUA e o Canadá (Junho). A grande alteração seria, no entanto, a dissolução do COMECON (28 de Junho) e do Pacto de Varsóvia ( 1 de Julho).
No plano das políticas domésticas europeias, surgiam eleições na Albânia, com vitória dos ex-comunistas (31 de Março) e na Bulgária, aqui com a vitória da União das Forças Democráticas (13 de Outubro), levando ao primeiro governo búlgaro sem comunistas (8 de Novembro). Também ocorriam eleições legislativas na Polónia (21 de Outubro) donde surgiria o novo governo, presidido por Jan Olsewski (9 de Dezembro)
Entretanto, a Croácia e a Eslovénia proclamavam a independência (25 de Junho), desencadeando um conflito que viria a confundir todo este processo. Se em Haia surgia uma conferência de paz para a Jugoslávia, sob a égide da Comunidade Europeia (7 de Setembro), eis que a Alemanha já reunificada tratava de reconhecer solitariamente a Eslovénia e a Croácia (23 de Dezembro)
Na Europa ocidental era o tempo do PCI se transformar no Partido Democrático da Esquerda (3 de Fevereiro), do Conselho Europeu extraordinário sobre a Guerra do Golfo (8-9 de Abril) e da Suécia se candidatar à adesão às Comunidades Europeias (1 de Julho).
Mais uma vez, quase nada de novo em Portugal, a não ser eleições. Nas presidenciais de 13 de Janeiro, era a reeleição de Mário Soares e, nas legislativas de 5 de Outubro, reforçava-se a maioria absoluta de Cavaco Silva (PSD,50,6%; PS, 29,1%; CDU, 8,8%; CDS, 4,4%; PSN,1,7%.). Em termos político-partidários, para além da entrada do deputado do PSN, Manuel Sérgio no hemiciclo de São Bento, Pedro Canavarro emergia como presidente do PRD (2 de Junho), Lucas Pires demitia-se de militante do CDS (15 de Novembro) e Barros Moura era expulso do PCP (19 de Novembro). Valia-nos a visita de João Paulo II (Maio) e a inauguração o último troço da auto-estrada Porto-Lisboa (13 de Setembro), mas só o massacre no cemitério de Santa Cruz em Dili adquiria um nível de dramatismo mobilizador das consciências cívicas(12 de Novembro)
O ano era sobretudo marcado pelo início da operação Tempestade no Deserto, a chamada Guerra do Golfo , até 28 de Fevereiro (17 de Janeiro). Mas grandes alterações ocorreriam na URSS que no fim do ano implodia. O ano começa com uma tentativa de regresso ao Império com uma intervenção militar de tropas do Ministério do Interior soviético nos países bálticos (7 de Janeiro).
No plano político, Gorbatchev conseguia que o Soviete Supremo decidisse um referendo sobre a União, entendida como federação renovada de repúblicas iguais e soberanas nas quais os direitos do homem e as liberdades serão garantidas às pessoas de todas as nacionalidades (17 de Janeiro)
Acontece que os países bálticos se antecipavam ao processo, com um referendo na Lituânia, com 95 % de votos a favor da independência (9 de Fevereiro) e referendos na Letónia e Estónia, também favoráveis à independência (3 de Março). Apesar de tudo, em 17 de Março, decorria um referendo sobre a manutenção da URSS proposto por Gorbatchev; em que, além dos países bálticos, também se recusavam participar a Geórgia, a Moldova. Em 30 de Março, um referendo na Geórgia aprova va a independência.
Nesta sequência, era assinado acordo para a constituição de uma União das Repúblicas Soviéticas Soberanas entre a Rússia, a Ucrânia, o Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguisistão, Turcomenistão e Tadjiquistão (1 de Junho)
Na Federação da Rússia prosseguia entretanto a dialéctica anti-Gorbatchev. Em 28 de Março, 200.000 manifestantes em Moscovo a favor de Ieltsine, apesar da proibição decretada pelo Governo da URSS. No dia 5 de Abril, o Parlamento Russo cria va o cargo de Presidente da Federação a ser eleito por sufrágio universal. Em 12 de Junho, Boris Ieltsine era eleito em sufrágio universal Presidente da Federação Russa (57,3% dos votos), contra Ryjkov (17%), Makachov (3,8%), Bakatime (3,4%), Jirinovski (7,8%) e Tuleev (7%); por referendo, Leninegrado voltava a designar-se Sam Petersburgo (12 de Junho). Em 29 de Julho a Federação da Rússia reconhecia a independência da Lituânia. Gorbatchev tentava resistir. Ia a Londres à Cimeira dos Sete Mais Ricos-G7 (15-17 de Julho) e via o plenário do PCUS aceitar o princípio da renúncia ao marxismo-leninismo (25 de Julho).
Em 31 de Julho era assinado o Tratado START I entre Bush e Gorbatchev (31 de Julho)
Mas em 19 de Agosto surgia Golpe de Estado em Moscovo; estava prevista para o dia 20 a assinatura de um novo tratado da União proposto por Gorbatchev (19 de Agosto) Uma Junta presidida por Janaiev declarava estado de excepção; diziam que Gorbatchev estava doente (em férias na Crimeia desde o dia 4; Ieltsine assumia a resistência e fazia da sede do parlamento russo, a Casa Branca, o bastião da resistência; populares de Moscovo levantam barricadas. Na noite de 20 para 21 a junta dava ordens à Brigada Anti-terrorista Alfa do KGB para prender Ieltsine; os tanques eram detidos por barreiras de populares (20-21 de Agosto). Em 22 de Agosto era arreada a bandeira comunista na sede do parlamento russo e içada a bandeira da frota comercial russa do tempo dos czares, ao mesmo tempo que começavam a derrubar-se as estátuas comunistas em toda a URSS. Gorbatchev regressava da Crimeia (22 de Agosto), apresentava explicações no Parlamento da Rússia (23 de Agosto) e demitia-se de Secretário-geral do PCUS (24 de Agosto). Em 29 de Agosto, o Soviete Supremo proibia PCUS, cujos bens eram, entretanto, confiscados.
Estas circunstâncias provocaram uma corrida ao secessionismo. O Parlamento da Estónia proclamava a independência (20 de Agosto), a que se seguiram idênticas proclamações na Letónia (21 de Agosto), na Ucrânia (24 de Agosto) e na Bielo-Rússia (25 de Agosto).
Em 27 de Agosto, já a Comunidade Europeia reconhecia a independência dos Estados Bálticos, no mesmo dia em que a Moldova proclamava a independência (27 de Agosto), seguindo-se as do Azerbaijão (29 de Agosto), do Quirguizistão e do Uzbequistão (31 de Agosto), antes de ocorrer um referendo na Arménia sobre a matéria (21 de Setembro).
Em 2 de Setembro, dez Estados da URSS anunciavam a criação de uma União de tipo confederal. Em 6 de Setembro, a URSS reconhecia a independência da Letónia, Lituânia e Estónia. Em 10 de de Setembro, os Estados Bálticos aderiam à CSCE, sete dias antes de serem admitidos na ONU (17 de Setembro). Em 14 de Novembro, sete Estados da URSS anunciavam a criação de uma União de Estados Soberanos. No dia 1 de Dezembro, era o referendo sobre a independência na Ucrânia. Em 16 de de Dezembro, o Cazaquistão proclamava a independência e, no dia 21 surgia a reunião em Alma Ata de todas as repúblicas da URSS, à excepção da Geórgia, donde resultava a chamada Comunidade dos Estados Independentes.
Outras medidas iam sendo, entretanto, assumidas. Em 11 de Setembro era anunciada a retirada de 11.000 soldados soviéticos de Cuba. Em Outubro, proclamava-se a supressão do KGB, ao mesmo tempo em que a URSS passava a membro associado do FMI (5 de Outubro). Dois dias depois era o acordo entre a URSS e a Polónia sobre a retirada de 50.000 soldados soviéticos (7 de Outubro). No dia 18 desse mesmo mês estabeleciam-se relações diplomáticas entre a URSS e Israel, ao mesmo tempo que dez repúblicas da URSS assinavam um tratado de união económica.
No dia 1 de Novembro, o Congresso de Deputados da Rússia atribuía plenos poderes a Boris Ieltsine para a reforma da economia e das finanças e, no dia 19, Chevarnadze voltava a ocupar as funções de Ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS.
Finalmente, a 25 de Dezembro, dava-se a demissão de Gorbatchev e era arreada bandeira vermelha do Kremlin, depois de, no anterior dia 8, pelo Acordo de Minsk, a Rússia, a Bielo-Rússia e a Ucrânia concordarem em substituir a URSS por uma Comunidade de Estados Independentes.
Em África, o facto mais saliente, para além do derrube do regime pró-soviético da Etiópia (28 de Maio), era a assinatura dos Acordos de Bicesse entre o MPLA e a UNITA (31 de Maio), enquanto, em Cabo Verde, o partido da oposição, o MPD derrotava o PAICV (10 de Janeiro). Entretanto o egipcio Butros Butros-Ghali era designado novo Secretário-geral da ONU (21 de Novembro)
Na Ásia, era assassinado Rajiv Ghandi na Índia (21 de Maio), surgia o acordo de Paz para o Cambodja em Paris (23 de Outubro), antes de Li Peng visitar a União Indiana (11-16 de Dezembro).
Os novos desafios de 1989-1990. podem não ter derrotado o projecto europeu, mas mudaram as circunstâncias que o corporizavam, principalmente pelo desaparecimento do federador passivo, com a implosão da URSS.
Com efeito, é depois de 1989 que se concretizam as mais drásticas mudanças do mundo ocorridas depois da Segunda Guerra Mundial, nomeadamente pelo fim da guerra fria.
Mas, em vez da casa comum, parecia estar a acontecer um regresso a muitas das feridas anteriores aos tratados de paz das duas guerras mundiais deste século.
Depois da reunificação alemã, renasceu a balcanização. Depois do fim do comunismo, voltaram as questões político-religiosas e o clássico confronto de civilizações e quase regressamos ao ambiente da Guerra da Crimeia, para não falarmos em 1848 e nas inacabadas situações das minorias que aspiram a uma primavera dos povos, desses povos sem história que sempre circularam nas bordas dos impérios centrais, por entre os cinturões de populações mistas.
E lá voltámos a ter que reler a literatura do tempo da Santa Aliança e do sistema Metternich, recuperando manuais de relações internacionais e de direito internacional de há cinquenta e cem anos. Porque as ententes, as triplas alianças e as próprias pentarquias ameaçam, com o seu cortejo de Estados directores e de Estados secundários, de acordo com a regra da hierarquia das potências.
A literatura épica do fim do comunismo cedeu, aliás, lugar a um certo desespero. Foi a derrapagem da Guerra do Golfo, com a questão não resolvida pelos tratados de paz posteriores a 1914-1918, bem como a grande decepção da Jugoslávia, onde a nova Alemanha democrática, esquecendo-se da dimensão europeia, retomou, pela via diplomática, o que o Reich tinha feito pela violência.
Regressou-se àquela literatura que procura limitar a Europa a Leste... Otto Molden afastava da Europa a Ucrânia, a Bielo-rússia e Rússia, mas incluindo a Polónia e os países bálticos
OTTO MOLDEN, em Die europaische Nation. Die neue Supermacht vom Atlantik bis zur Ukraine, Munique, Herbig,1990, estabelece o limite leste da Europa numa linha que começa no Lago Peipous e passa pelos rios Pripet e pelo Dniester, abandonando os Urales, isto é, afasta da Europa, não só a Rússia, como também a Ucrânia e a Bielorússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Isto é, reconhece a Rússia como uma ásia com apêndice europeu
. Krzystof Pomian falava num limite que passaria a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, que atravessaria a Ucrânia, contornaria a Hungria e cortaria a Jugoslávia em duas, a Sérvia de um lado, a Croácia de outro, isto é, que remeteria para o outro lado, a igreja ortodoxa
KRZYSTOF POMIAN, L'Europe et ses Nations, Paris, Gallimard,1990, diz que o limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países.
Mas os mesmos que assim pensam, em nome da conveniência, apelam à integração da Turquia e à associação do Magrebe....
Em1992, num documento sob o título A Europa e o Desafio do Alargamento, a Comissão vem considerar que a noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples e o respectivo conteúdo é susceptível de mudar au gré das sucessivas gerações. Conclui, assim, que não é possível nem pertinente fixar na hora actual as fronteiras da União europeia, cujos limites serão traçados num decurso de um período à venir de vários anos (in Bulletin CE, suplemento 3/92, p. 11)..
Por seu lado, a assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em 22 de Abril de 1992, quando abordou a integração de anteriores territórios da URSS, estabeleceu uma hierarquia entre eles: num primeiro grupo, incluiu os incontestavelmente europeus, as repúblicas bálticas, a Bielo-rússia, a Moldova, a Rússia e a Ucrânia; num segundo grupo, constituído pelos Estados do Cáucaso, como a Arménia, o Azerbaijão e a Geórgia, já fala que o carácter europeu dos mesmo é mais duvidoso, para não ter dúvidas em considerar que o Cazaquistão, a Quirguízia, o Tadjiquistão, o Turquemenistão e o Usbequistão, têm um carácter europeu dificilmente aceitável (in L’Extension Géographique du Conseil de l’Europe, in Revue Universelle des Droits de l’Homme, vol. IV, nº 5-6, Junho de 1992, pp. 181 ss.).
O redesenho da Europa não passava pela cultura nem pela política, mas mais pelos banqueiros e pelos macro-economistas. Em vez de uma Europa a recomeçar pela cultura e repolitizar-se, eis que a casa e o mercado procuravam ocupar o lugar da polis.
1991 era o ano do Conselho Europeu de Maastricht, da dissolução do Comecon e do Pacto de Varsóvia, de Ieltsine vencer golpe de Moscovo e de suceder a inevitável implosão da URSS, enquanto em Portugal se assitia à reeleição de Mário Soares e se celebravam os acordos de Bicesse, que pretendiam dar paz a Angola.
No plano comunitário era o tempo das jogadas negociais. Durante o primeiro semestre, de presidência luxemburguesa, tudo começava com a Irlanda a lançar as primeiras propostas sobre a coesão económica e social, como condição para a realização da União Económica e Monetária (Janeiro), seguindo-se propostas franco-alemãs sobre a segurança europeia, propondo a integração da UEO na Comunidade em1998 (15 de Fevereiro), uma proposta espanhola sobre a cidadania europeia (21 de Fevereiro) e uma declaração conjunta germano-italiana, propondo poderes alargados para o Parlamento Europeu (9 de Abril).
Entretanto, a conferência intergovernamental chegava a consenso quanto a um primeiro projecto de um tratado de união europeia, com três pilares (12 de Abril), protestando de imediato a Comissão contra esta a teoria, propondo, como alternativa a teoria da árvore (29 de Maio). E lá vinha um segundo projecto de tratado da união europeia, apresentado pela presidência luxemburguesa, mantendo a tese dos pilares, mas fazendo referências federalistas e reforçando o papel da Comissão (18 de Junho), até que o Conselho Europeu do Luxemburgo, em 28-29 de Junho, decidiu que o segundo projecto de tratado serviria de base para as negociações (28-29 de Junho).
Seguia-se a presidência holandesa que, em 30 de Setembro, já apresentava novo projecto de um tratado da união europeia (30 de Setembro), como uma segunda versão em 10 de Novembro, onde eram reforçados os poderes do Parlamento Europeu e se previa a realização de uma conferência intergovernamental em1996 na perspectiva de reforçar o carácter federal da União.
Então, para superar-se o impasse, os chefes de governo democrata-cristãos propuseram um compromisso: eliminação das referências federalistas, a fim de se garantir a integração da PESC na Comunidade (26 de Novembro). Assim se permitiu que o Conselho Europeu de Maastricht, de 10 de Dezembro, aprovasse a União Europeia, mas com o Reino Unido a recusar o capítulo social e a obter também cláusulas de exclusão relativamente à União Económica e Monetária. A política de segurança europeia ganhava, contudo, novos contornos, no último trimestre. Em 5 de Outubro surgia uma declaração conjunta anglo-italiana sobre a segurança e defesa, sublinhando a importância da NATO; no dia 11, uma iniciativa franco-alemã de um projecto sobre a PESC, pelo reforço da UEO; três dias depois era decidida a criação de um Eurocorpo por Mitterrand e Kohl e em 7-8 de Novembro reunia o Conselho Atlântico de Roma, onde os norte-americanos aceitavam o princípio de uma identidade europeia em matéria de defesa, ao mesmo tempo que se definia um novo conceito estratégico para a aliança atlântica. Seguia-se, em 20 de Dezembro, o começo do Conselho de Cooperação Norte-Atlântico, onde os 16 membros da NATO se juntavam a nove Estados da Europa central e oriental, um conjunto que, em Março de 1992, já englobava 36 membros.
Nova configuração sofriam, no entanto, as relações da Comunidade Europeia com os países do Leste europeu. Depois da inauguração do BERD, em 15 de Abril, eis que a Polónia, a Checoslováquia e a Hungria tratavam de solicitar um reforço do diálogo político com a Comunidade (20-22 de Agosto), o que se concretizaria com a assinatura dos acordos europeus da Comunidade Europeia com aqueles países do grupo de Visegrado (16 de Dezembro).
Mitterrand reunia em Praga com intelectuais europeus defendendo uma Confederação europeia com a URSS; Havel dizia-lhe que esta não podia ser feita sem os EUA e o Canadá (Junho). A grande alteração seria, no entanto, a dissolução do COMECON (28 de Junho) e do Pacto de Varsóvia ( 1 de Julho).
do Conselho Europeu extraordinário sobre a Guerra do Golfo (8-9 de Abril)
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© José Adelino Maltez, História do Presente (2006)