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1908
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Do regicídio à impossível acalmação
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Começa reinado de D. Manuel II
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Republicanos vencem as eleições municipais de Lisboa (1 de Novembro).
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Que o diabo nos livre disto –
Na habitual recepção de gala no Paço, não comparecem os marechais regeneradores
e progressistas (1 de Janeiro). O rei, em Vila Viçosa, caça; o João Franco,
em Carnide, dorme com a casa cercada de polícia. Fala-se em conspirações, na
tropa, em transferências de oficiais e sargentos. Chegam alguns a dizer:
venha tudo, venha o pior, venha o diabo do Inferno que nos livre disto (Raul
Brandão). Reunião dos marechais progressistas, tendo em vista a escolha das
listas de deputados (dia 6). Reunião dos marechais regeneradores (dia 11).
Aquilino Ribeiro consegue evadir-se da cadeia do caminho Novo, onde se
encontrava detido, condenado ao presídio de Timor (dia 12).
A ignóbil literatura –
Começa a circular o livro de António de Albuquerque, O
Marquês da Bacalhoa, com insinuações reles sobre a Rainha D. Amélia (15 de
Janeiro). O autor, de família miguelista, perseguida pelos pedristas, terá
aderido aos republicanos como vingança, segundo a técnica dos extremos que se
tocam.
A atmosfera é eléctrica – D.
Carlos visita Évora. Várias prisões de jornalistas, acusados de conspiração,
nomeadamente de França Borges e João Chagas. Suspenso um jornal progressista na
Guarda (21). Prisão de António José de Almeida (26). Consta publicamente que a
revolução vai estalar dentro de dois dias. Um polícia aliciado pelo João
Chagas, denunciou a revolução; o juiz, ao ler o depoimento do António José de
Almeida, exclamou: - Ora até que enfim encontro um homem! (Raul Brandão).
Partido Republicano emite um manifesto, redigido por Bernardino Machado, onde,
reconhecendo o ambiente de sobre-excitação, apela contra a ditadura, em
nome da alma livre e heróica do povo português (dia 27). A atmosfera é
eléctrica...toda a gente espera acontecimentos. O boato corre de ouvido em
ouvido...Há nervos na atmosfera. A questão dos adiantamentos levantou todo o
País contra o rei. Há muito que D. Carlos é visado, discutido e injuriado.
Atribuem-lhe todos os males...E, no entanto, a vida segue o seu curso habitual:
todas as noites enchentes nas revistas...Todas as noites o mesmo falatório no
Rossio, o mesmo formigueiro humano seguindo as suas manias, as suas ambições, os
seus interesses (Raul Brandão).
Jugulada conspiração que se
conjugara entre dissidentes progressistas e republicanos. São presos vários
líderes da revolta como Luz de Almeida (1867-1939), Afonso Costa, Egas Moniz,
Pinto dos Santos, Ribeira Brava e João Chagas, nas dependências do ascensor do
largo da Biblioteca.
A conspiração carbonária –
A Carbonária mobiliza cerca de oito mil membros em Lisboa e dois mil na Outra
Banda, tendo entrado em contacto directo com o PRP a partir do Outono de 1907
(28 de Janeiro). Luz Almeida é particularmente eficaz quanto à organização dos
bombistas, a chamada artilharia civil; António José de Almeida tem
entendimentos com o exército e até com os anarquistas.
Alpoim foge –
Decretada a prisão de José de Alpoim e João Pinto dos Santos. Suspensos cinco
jornalistas, mas apenas um é republicano (29 de Janeiro de 1908). Alpoim e o
visconde de Pedralva (Francisco Coelho Amaral Reis), depois de se refugiarem em
casa de Teixeira de Sousa, fogem. Alpoim vai para Espanha, instalando-se em
Salamanca. A revolta é jugulada graças à acção do general Malaquias de Lemos.
Chega a haver desordens no Largo do Rato.
Não houve outro 31 do costume –
Os jornais franquistas Diário Ilustrado e Jornal da Noite dão
conta dos acontecimentos, referindo que João Franco degolara um novo 31 de
Janeiro. O ministro Teixeira de Abreu parte para Vila Viçosa, onde tem um
encontro com D. Carlos. Regressará a Lisboa na madrugada do dia 1, antes do rei,
a fim do rei assinar um decreto com medidas excepcionais de luta contra a
subversão, onde se prevê, nomeadamente a expulsão do reino e a deportação para o
Ultramar de quem atente contra a segurança do Estado..
Uma tarde linda – Está uma
tarde linda, azul, morna, diáfana... O rei e a rainha detiveram-se uns minutos,
com o João Franco e o Vasconcelos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de
cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opôs-se. O carro descoberto partiu a
chouto, com toda a família real junta... (Raúl Brandão).
Regicídio – D. Carlos e D. Luís
Filipe são assassinados numa esquina do Terreiro do Paço, depois de
desembarcarem no cais das Colunas, vindos de Vila Viçosa, donde saem às 11 horas
do dia 1 de Fevereiro. Os executantes são Manuel Buíça e Alfredo Costa. D. Maria
Pia acusará João Franco de ser o coveiro da monarquia. Júlio de Vilhena
logo declara querer um armistício na luta política dos partidos. Os tiros
no rei e no príncipe real matam o próprio sistema político e anunciam o fim da
monarquia. O jogo rotativista conduzira à tragédia. O salto em frente de João
Franco acelerara o processo. Começa em tragédia o breve reinado de D. Manuel II.
Entre os pistoleiros que premiram o gatilho e o ente, individual ou colectivo,
que mandou matar ficará para sempre a distância do sigilo e eventuais razões se
seita, partido, Estado ou potência. Sempre aquela lógica terrorista que proclama
haver actos de violência que são menos violência que certos estados de
violência.
Uma ditadura à Costa Cabral – O
monárquico Carlos Malheiro Dias, na revista Ilustração Portuguesa,
considera que quem criou a revolução foi, de
facto, o Governo. O problema político era puramente administrativo. O governo,
imprudentemente, transformou-o numa questão de princípios. Uma ditadura à
Mouzinho da Silveira podia tê-lo resolvido. O Governo fez uma ditadura à Costa
Cabral. Tendo por si a força, não lhe seria desairoso contemporizar. Em vez de
acalmar as paixões, excitou-as...
Quem carregou as espingardas?
Se os republicanos dispararam as espingardas, quem as carregou até à boca
foram os rotativos (José Agostinho). Como vai reconhecer, depois, Machado
Santos, tal acto foi levado à prática por estes homens, por um acto de
abnegação espontânea. Se soubesse, a tempo, o que os dois haviam feito,
tê-los-ia secundado à frente do corpo de marinheiros, mas só o soube quando
todas as precauções se haviam tomado no quartel (artigo de 21 de Janeiro de
1911, publicado no Intransigente).
A monarquia, prisioneira da
república – Nesse domingo, Lisboa tornou-se num túmulo e num deserto, a
monarquia sangrentamente ferida e a república sinistramente desacreditada
(José Agostinho). Raúl Brandão observa: se seis tambores fossem rufar para
diante do Paço, a monarquia acabava ali mesmo. Como observa Lopes d’Oliveira,
estaladas as raízes levarão ainda algum tempo a
apodrecer no sangue e na lama... a Monarquia, se vive, é como prisioneira da
República.
A política do medo – José
Luciano declara que convinha agora é a paz e a união dos partidos. Júlio
Vilhena secunda a ideia de um governo de concentração monárquica. Todos
dizem querer acalmar o espírito público. Mas como depois vem a reconhecer
o último, a união de todos em volta do trono é a política do medo... Essa
política prevaleceu sempre no Paço até ao dia 5 de Outubro.
Governo nº 50
(4 de Fevereiro) Ferreira do Amaral (326 dias) Até 25 de Dezembro de
1908. 28º governo depois da Regeneração, 5º depois da desagregação partidária,
1º governo do reinado de D. Manuel II. Promove as eleições de 5 de Abril de
1908. Outros qualificam o gabinete como o ministério da mistificação. Já
o presidente do conselho é acusado de fútil, nomeadamente por fazer parte do
Clube dos Makavencos, uma seita jantante que se reunia nos baixos do teatro
da rua dos Condes.
Os
dois ministros regeneradores são Campos Henriques (justiça) e Wenceslau de Lima
(estrangeiros). Manuel Afonso Espregueira (fazenda) e o general Sebastião Teles
(guerra) são progressistas. João de Sousa Calvet de Magalhães (obras públicas) e
o almirante Augusto de Castilho (marinha e ultramar) aparecem como
amaralistas.
Vitória do lucianismo –
Conforme observou Júlio de Vilhena, José Luciano ganhou a partida.
Propusera que se organizasse um ministério, em que entrassem membros dos
partidos regenerador e progressista, em partes iguais, sob a presidência dum
homem estranho aos grémios partidários.
Implantemos a república –
Bernardino Machado proclama: sendo-nos restituídas as nossas liberdades, a
acalmação se produzirá. Reservando, prudentemente, as nossas forças de acção
para qualquer vicissitude, forças que devemos ir aumentando sempre, voltaremos a
desencadear a nossa propaganda; e, ainda que nos leve mais algum tempo a
implantar a república em Portugal, daremos por bem empregado esse tempo, para
que a nossa vitória se alcance pacificamente (5 de Fevereiro).
A dita acalmação – Reaparecem
os jornais suspensos: Diário Popular, Liberal, O Dia, O País,
Correio da Noite (6 de Fevereiro). São libertados António José de Almeida,
Afonso Costa, Egas Moniz, João Chagas e França Borges (6 de Fevereiro). Até se
admitem manifestações públicas junto das campas dos regicidas e o jornal O
Mundo organiza subscrição pública para apoio às famílias dos mesmos,
enquanto os juízes de investigação, Alves Ferreira e Silva Monteiro, coligem
elementos sobre a situação da Carbonária.
Violência e violências – França
Borges diz em O Mundo: só as violências podem provocar violências. Não
precisamos delas, para que a nossa causa triunfe, porque uma causa que é nobre,
que é santa, vive e triunfa pela sua própria força moral (6 de Fevereiro).
João Franco parte para o exílio,
a caminho de Roma. À chegada à capital de Itália, vaticina a Matias de Carvalho:
por ora, a anarquia; depois, a república (6 de Fevereiro).
Eleição nº 44 da Câmara dos
Deputados (5 de Abril). Surge uma verdadeira manta de retalhos que
teria sido urdida por José Luciano e Campos Henriques, num dos últimos acordos
rotativos. Eleitos 63 regeneradores (41%), dos quais 21 hão-de acompanhar a
dissidência de Campos Henriques, 59 progressistas (38%), 15 amaralistas (10%), 7
republicanos (55), 7 dissidentes progressistas, 3 franquistas e 1 nacionalista
(Jacinto Cândido). Os republicanos elegem três deputados em Lisboa (António José
de Almeida, Alexandre Bragaö e João de Meneses),
dois em Setúbal (José Estevão de Vasconcelos e Feio Terenas) e um em Évora
(Brito Camacho).
No dia das eleições, há graves
tumultos em Lisboa, com catorze mortos e cerca de uma centena de feridos,
com a intervenção da guarda municipal perto da Igreja de S. Domingos.
Inaugura-se o Congresso do Livre Pensamento na Caixa Económica Operária
(19 de Abril). Intervenções de Teófilo Braga, Miguel Bombardaö
e Magalhães Lima.
Congresso do Partido Republicano
em Coimbra: falha a tentativa de eleger um directório que seja também um comité
revolucionário (25 de Abril). Os moderados continuam a controlar, contra a
perspectiva dos radicais: foi uma festa e um desafio... os rotatitivos
recuavam; e o PRP saíra da crise mais forte do que nunca (Vasco Pulido
Valente). Pouco dias depois, o directório toma a iniciativa de preparar uma
revolução diferente da sargentada do 31 de Janeiro
Cerimónia de exéquias por alma
de D. Carlos e D. Luís Filipe no convento dos Jerónimos, com oração fúnebre do
cónego Aires Pacheco (25 de Abril).
Abertura das Cortes e leitura do discurso da coroa
(29 de Abril). Volta a questão dos adiantamentos. Oposição clama pelo castigo
dos ministros adiantadores. Brito Camacho propõe a abolição do juramento
e um inquérito parlamentar aos incidentes de 5 e 6 de Abril (8 de Maio). No dia
seguinte, Dantas Baracho critica, com veemência, a actuação da Guarda Municipal.
Aclamação de D. Manuel II nas Cortes. Na véspera, o jornal O Mundo
declara que o rei confessa-se dia sim, dia não, sendo rara a manhã em que não
ouve duas e três missas (6 de Maio).
Brito Camacho propõe um inquérito à
questão dos adiantamentos à Casa Real, o que é rejeitado (11 de Maio).
Discurso de José de Alpoim sobre os incidentes, falando tanto em assassínio como
em inépcia (12 de Maio). Discurso de Afonso Costa sobre a organização policial e
o juízo de instrução (13 de Maio). Pinto dos Santos propõe uma nova lei
constitucional, porque contra o absolutismo, é legítima a insurreição (18
de Maio). Afonso Costa diz admitir uma plataforma de tréguas do partido
republicano relativamente à monarquia (18 de Maio). Republicanos e dissidentes
atacam a actuação do ministro Espregueira, tanto na procura de um novo
empréstimo como quanto aos adiantamentos ilegais. Egas Moniz diz mesmo: o
senhor é um criminoso! (5 de Junho). Novos ataques dos dissidentes contra
Espregueira, com discurso de João Pinto dos Santos a considerar criminosos o
ministro. Na Câmara dos Pares Júlio Vilhena declara que também não teria dúvidas
em fazer adiantamentos ilegais.
Alpoim contra a canalha doirada –
José de Alpoim discursa, dizendo que tanto há uma canalha na rua como
uma canalha doirada que, à sombra do poder, tantas vezes esmaga a lei, o
direito e a liberdade (2 de Junho). Declara também: os dois grandes
partidos, pelas declarações falsas feitas no parlamento e pelas vergonhas
confessadas, por culpa dos seus chefes e do seu passado não merecem a confiança
do País... a coroa foi coberta de enxovalhos e ninguém a defendeu, ninguém!
Agora defendem-na por ambição (19 de Junho)
Missa íntima celebrada no Panteão por
D. António Mendes Belo (1842-1929), por alma de D. Carlos e D. Luís
Filipe. Assistem o rei e D. Amélia (11 de Maio).
Manifestação monárquica – Vem a
Lisboa uma delegação da Universidade de Coimbra, saudar o novo rei, acompanhada
pelo reitor, Alexandre Cabral, e pelo secretário da Universidade, Manuel da
Silva Gaio. Integram a comitiva de estudantes, entre outros, Carneiro Pacheco,
Fezas Vital, Pacheco de Amorim, Paulo Cancela de Abreu e Luís de Almeida Braga.
À noite, sessão no Teatro D. Amélia (27 de Maio). O Times de Londres,
há-se observar que numa cidade, em que os republicanos predominam, as
manifestações monárquicas, públicas e agressivas, tendem a tornar-se
provocadoras (27 de Maio). Com efeito, vários estudantes republicanos lançam
um manifesto denunciando o processo e entre os subscritores estão futuros
monárquicos como António Sardinhaö , Amadeu de
Vasconcelos, Henrique Trindade Coelho e Martinho Nobre de Melo.
Adesões à Carbonária de António
Maria da Silva e Machado Santos (Maio). Passam a comandar as respectivas
operações, fazendo a ligação entre a Alta Venda o o directório do PRP (Maio).
A legitimidade da bomba: na
Câmara dos Deputados, António José de Almeida considera que a bomba de
dinamite em revolução, e em certos casos, pode ser tão legítima, pelo menos,
como as granadas de artilharia, que não são mais do que bombas legais,
explosivos ao serviço da ordem. Nesse dia, homenageiam D. Manuel II vários
lentes de Coimbra, entregando uma mensagem subscrita por 37 deles (3 de
Junho).
Comício republicano em Lisboa,
com cerca de 60 000 pessoas. Sem incidentes (28 de Junho). Comício republicano
no Porto, presidido por Nunes da Ponte. Há intervenção da Guarda Municipal.
Bernardino Machado logo declara que o Partido Republicano é o único
conservador, ordeiro do País... (5 de Julho).
Os adiantadores. Jornal
Diário de Notícias publica a lista completa dos ministros que fizeram
adiantamentos ilegais. Entre os faltosos o próprio Augusto José da Cunha, que se
fizera republicano. Diz-se que a lista terá sido fornecida por José Luciano,
através de uma oportuna fuga de informação (6 de Julho).
Câmara dos Deputados vota amoedação de
prata para custear o monumento ao marquês de Pombal. Oposição do deputado
nacionalista Pinheiro Torres. Idêntica votação será feita para o monumento de
Joaquim António de Aguiar, no largo da Portagem, em Coimbra (22 de Julho).
Afonso Costa propõe que se demandem
criminalmente os ministros da Ditadura (28 de Julho).
Em Setembro, há vários sinais de
conflito político-religioso, depois de Miguel Bombarda, nos últimos dias de
Agosto, ter lançado a campanha anticlerical no parlamento. Judeus são agredidos
em Lisboa, depois do enterro de um israelita. Guerra Junqueiro, no Porto, é
atacado por usar chapéu quando se cruza com uma procissão. O arcebispo de
Mitilene propõe que se apresente no parlamento, um projecto para a construção de
um monumento à Imaculada Conceição, idêntico ao do Marquês de Pombal. Cem mil
fiéis reúnem-se no Sameiro. O Congresso do Partido Nacionalista é mobilizado
para a Covilhã.
Em Outubro, Sidónio Pais, na Oração de
Sapiência que profere em Coimbra, alinha pela batuta republicana semeada por
Bernardino Machado.
Republicanos vencem as eleições
municipais de Lisboa (1 de Novembro). Ferreira do Amaral marcou estas
eleições sem consultar Luciano nem Vilhena, dizendo que esperava fazer um
acordo com os republicanos para estes lhe deixarem eleger a minoria. Vilhena
há-de qualificar o acto como traição. Na verdade, depois de 1910, Amaral
acaba filiado no próprio partido de Afonso Costa, de quem será deputado e
senador. Mas muitos republicanos nunca lhe perdoarão o oportunismo adesivo e
continuarão a qualificar o primeiro director da Escola Colonial como o
assassino de 5 de Abril. Outros sucessores de Amaral neste último posto, de
semelhantes vira-casaquices se hão-de acalmacionar.
O novo rei visita o Porto em 8
de Novembro e Coimbra no dia 20 do mesmo mês. Regressa a Lisboa no dia 4 de
Dezembro, mas atravessa a cidade em carruagem fechada que circula a alta
velocidade, a conselho de Ferreira do Amaral (8 de Novembro).
Comício republicano no Porto (15 de
Novembro).
Eleições paroquiais.
Republicanos de Lisboa vencem em 32 das 42 freguesias. Repete-se a vitória
monárquica no Porto (29 de Novembro).
Júlio de Vilhena desencadeia
uma ofensiva contra Ferreira do Amaral, invocando não ter sido consultado para a
marcação de eleições municipais. É apoiado por Teixeira de Sousa, enquanto os
nacionalistas também assumem uma agressiva oposição (2 de Outubro). O formal
líder regenerador, em carta dirigida a D. Manuel II, retira apoio a Ferreira do
Amaral e declara ser candidato à chefia do governo. A essa pretensão opõem-se,
para além de José Luciano, o regenerador Campos Henriques, considerando que tal
via é deitar o poder ao regato (7 de Dezembro). Segundo Teixeira de
Sousa, José Luciano não cuidou de princípios
políticos, de programas do novo governo. Isso eram coisas de pequena monta. É
preciso que o governo desse garantias de que Alpoim não obteria um regedor e de
que o meu partido não poria o pé em ramo verde… é um governo contra homens e
inspirado em más vontades pessoais, e tanto bastaria para ser mal recebido e
vivamente combatido (7 de Dezembro). José Luciano diz não ter ficado
surpreendido com a atitude de Júlio de Vilhena, porque ando tão habituado aos
seus disparates que todos os dias espero um maior (7 de Dezembro).
Franquistas – Vasconcelos Porto
é confirmado como líder dos franquistas (12 de Dezembro).
Cartas Políticas – Sai o
primeiro número das Cartas Políticas de João Chagas, com a data de 10 de
Dezembro, Ao Rei D. Manuel aproveitando a ocasião da sua viagem ao norte,
onde proclama que V. M. é muito novo, mas para o mundo que veio encontrar é
velhíssimo. Tem dezanove anos e tem séculos. Veio tarde...o Portugal da senhora
D. Maria da Glória morreu; morreu com Herculano, com os Passos, com José Estevão
e os Ribeira de Sabrosa, mas outro nasceu, filho d’esse, que, herdando as suas
decepções, começou por fazer delas o cepticismo bonacheirão que deu o Zé Povinho
e acaba por as levar ao estado congestivo de revolta que deu o Buíça (12
de Dezembro).
Reunião do Conselho de Estado
(18 de Dezembro). A concentração dos partidos monárquicos foi uma
mentira. O que houve foi a concentração do medo e o medo realmente não tem
partido...O Amaral presidiu com relativa facilidade ao regime de simulacro de
que estou falando, não por ser alguém, mas precisamente por não ser -ninguém.
Governo nº 51 (26 de Dezembro
1908) Campos Henriques (108 dias). Apoio de dissidentes regeneradores (21
dos 63 deputados) e de lucianistas, gera a oposição de um bloco de vilhenistas e
dissidentes progressistas. Apenas é concretizado depois de D. Manuel II tentar
uma solução liderada por Veiga Beirão, Sebastião Teles e António de Azevedo.
Esta aliança entre os regeneradores de Campos Henriques, apoiados pelo
Notícias de Lisboa, e os progressistas de José Luciano, apoiados pelo
Correio da Noite, levou à constituição de um bloco entre os
regeneradores de Júlio de Vilhena, apoiados pelo Diário Popular, e os
dissidentes progressistas de José de Alpoim, movimentação que leva, aliás, à
queda do governo.
Presidenteö
acumula o reino. D. João de Alarcão na justiça. António Cabral, a quem chamam as
pernas de José Luciano, na marinha e ultramar. D. Luís de Castro
(1868-1928), 2º conde de Nova Goa, nas obras públicas. Sebastião Teles mantém-se
na guerra. Wenceslau de Lima nos estrangeiros.
O sobe e desce dos partidos –
Os partidos subindo ao poder, ou descendo do poder, como sobem, ou descem os
pratos de uma balança, onde verdadeiramente não havia já governos, mas
uma oligarquia (João Chagas).
& Agostinho, José (V): 348; Amaral, Augusto Ferreira do (A Acalmação de D. Manuel II, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1966); Brandão, Raul (I): 115, 116, 119, 120, 124, 229; (II): 123, 129, 207, 208; Cabral, António (O Agonizar da Monarquia): 303, 347; Chagas, João (1908, 1ª série, Cartas Políticas): 35, 39, 53; Ferro, António (D. Manuel II. O Desventurado, Lisboa, Bertrand, 1954); Gallis, Alfredo (II): 491-494, 499, 510, 511, 516, 517, 624, 625, 626; Oliveira, Lopes: 255, 256, 261, 269, 272, 273, 275, 278, 280, 283, 285, 287, 288, 289, 290, 311, 317, 321, 326, 330, 332, 333, 334, 337, 342, 344, 346, 347, 349, 355; Montalvor, Luís de /Oliveira, Lopes de (1935, II): 287-296; Pabón, Jesus: 93, 94, 95; Peres, Damião /Guedes, Marques (VII): 446, 447; Santos, António Ribeiro dos: 229; Serrão, Joaquim Veríssimo (X): 132, 135, 138, 139, 143, 148, 254; Sardica, José Miguel (1994); Serrão, Joel (1958): 72; Silva, António Maria da (Depoimento...): 155; Sousa, António Teixeira de (1911, II): 80, 81, 103, 145, 155; Valente, Vasco Pulido (1976): 85, 89, 90; Vilhena, Júlio de (II): 37, 38, 133, 162..
O drama – Tanto D. Carlos como
João Franco só podem ser entendidos, na sua acção política, depois de feito o
levantamento do respectivo perfil psicológico, sem os ódios habituais dos
vencedores e dos vencidos. E mais valem algumas páginas impressionistas de Raúl
Brandão sobre a verdade do que as montanhas de palavras arrependidas ou
justificadas que, sobre o tema, foram circuladas. Porque o drama que conduziu à
tragédia, levando ao clímax, não pode ser analisado pelas lentes dos
observadores de coisas rasterinhas.
Subterraneamente, temos a Maçonaria,
unida pelo prestígio do grão-mestre Sebastião Magalhães Lima (1851-1928) e
disponível para sair das sessões místicas das lojas, das actividades de
beneficência e de formação de quadros, dado já ser capaz de apoiar o
desenvolvimento sedicionista da Carbonária.
No Paço, surgem fracturas,
entre membros da família real e entre os próprios áulicos. D. Amélia e D. Maria
Pia, não escondem antipatias face a Franco. E os cortesãos, em vez de
constituírem um bloco, jogam apenas na defensiva.
Segue-se a tropa que continua
em crise. Apesar de ser um dos principais objectos do reformismo franquista,
graças às medidas tomadas por Vasconcelos Porto e Aires de Ornelas, que tiveram
a solidariedade dos quadros mais dinâmicos, hão-se ser também a principal causa
do 5 de Outubro, quando o afastamento de Porto e Ornelas, depois da queda de
Franco, leva à confusão, à deserção, ao imobilismo. Depois, de 1908, este vazio
de fidelidades, esta quebra da estratégia reformista, gera a desarticulação do
quadro de entusiasmo hierárquico.
Os republicanos vão aproveitar
a questão dos adiantamentos, logo em Novembro de 1906, visando
principalmente um ataque à figura do monarca. Mobilizam-se particularmente com a
questão da greve académica de 1907. E aproveitam magnificamente a oportunidade
conspiratória que lhes é oferecida pelos dissidentes progressistas em Janeiro de
1908. Claramente empenhados na via revolucionária e conspirativa, vão assumir
uma atitude maquiavélica. Há, com efeito, uma conseguida táctica e uma firme
estratégia dos mesmos. São eficazes os ataques pessoais, ainda que injustos,
tanto a D. Carlos como a João Franco. Porque conseguem levar que terceiros façam
o principal do jogo sujo. É o caso dos dissidentes progressistas, principalmente
na conspiração, mesmo sediciosa. Tal como os regeneradores, opositores a João
Franco, são eles que fazem os principais ataques ad hominem a D. Carlos,
a outros membros da família real e aos áulicos. Em segundo lugar, é habilíssima
a utilização pelos republicanos da greve académica, quando conseguem pôr ao seu
lado o melhor de uma geração escolar.
O regicídio é mera consequência
indirecta dessa estratégia. Pode ter sido eficaz, mas ensanguenta a futura vida
da República e suscita novos magnicídios. De tudo o que lemos, não consideramos
o assassínio do rei e do príncipe real como a execução de qualquer decisão vinda
dos republicanos, dos maçons e da dissidência progressista, enquanto grupos. Mas
tal não significa que os mesmos não padeçam de dolo eventual neste processo,
dado terem admitido, como hipótese, esta consequência, não se importando que a
mesma se concretizasse. Porque os regicidas devem ter actuado em regime de
autogestão, mas de uma autogestão gerada por aqueles que os mobilizam e armam
para outros fins.