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1956 |
PAIGC e MPLA, morte de Gulbenkian e tempo de não-alinhados |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
1956
Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955) Morre em 20 de
Julho o milionário arménio, residente em Portugal desde 1942. Cidadão otomano,
forma-se em engenharia em Londres e, durante a Segunda Guerra Mundial, vive em
França, sob o regime de Vichy, onde se torna amigo do nosso embaixador Caeiro da
Mata. É este que lhe indica como advogado Azeredo Perdigão e o leva a
instalar-se em Lisboa, no velho Hotel Aviz, onde tem como médico pessoal o
Professor Fernando da Fonseca. Passa a gostar do viver habitualmente do
regime de Salazar, de quem é admirador, nessas delícias da nossa retardada
belle époque. Já é na nossa capital, que redige, com a ajuda de Perdigão, um
segundo testamento, em 18 de Junho de 1953, a partir do qual vai surgir a
Fundação Calouste Gulbenkianö em 18 de Julho de
1956. Os estatutos da Fundação são directamente redigidos por Salazar, Marcello
Caetano e Azeredo Perdigão.
Questão colonial – Em Março, greves e manifestações
de trabalhadores em Angola, Moçambique e Guiné. Por acção de Amílcar Cabral,
surge em Bissau o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde,
onde também aparecem como fundadores Aristides Pereira, Luís Cabral, Júlio de
Almeida, Fernando Fortes e Elisée Turpin (19 de Setembro). O Movimento
Popular de Libertação de Angola é criado em Dezembro de 1956, depois de, em
Outubro de 1955, ter surgido o Partido Comunista Angolano. Tem como
principais dirigentes Mário Coelho Pinto de Andrade, Lúcio Lara e Viriato Cruz.
Em Dezembro desse mesmo ano, Agostinho Neto, regressado a Luanda, assume a
presidência do movimento. Por essa altura, ainda o futuro comunista Urbano
Tavares Rodrigues publica Jornadas no Oriente, obra dedicada a Sarmento
Rodrigues, onde se homenageia Aniceto do Rosário, o governador de Damão.
A legalização da repressão – Decreto-Lei de 12 de
Março, reforça o poder de intervenção da PIDE no âmbito das medidas provisórias
de segurança que podem implicar cerca de três anos de prisão, num diploma, ainda
elaborado pelo ministro Cavaleiro Ferreira. Advogados e jornalistas protestam
contra a censura e a acção da PIDE em representação dirigida ao Presidente da
República, solicitando também amnistia para os presos políticos, e liberdade de
pensamento e de reunião (3 de Julho).
A questão estudantil – Decreto nº 40 900 sobre
encerramento de associações de estudantes (12 de Dezembro). Surgem, desde logo,
manifestações estudantis contra o diploma, proposto por João de Almeida e
Gonçalves Rodrigues. É ministro da educação Leite Pinto, doente desde o Verão,
que era efectivamente substituído por Baltazar Rebelo de Sousa, o subsecretário
de Estado que tutelava a Mocidade Portuguesa, acumulando as funções de
comissário nacional de 1956 a1960, ao mesmo tempo que desenvolvia uma
importante campanha de luta contra a analfabetização, lançada pelo seu
antecessor, Henrique Veiga de Macedo e que tinha a dirigi-la José Hermano
Saraiva.
O diploma, depois de chamado à Assembleia Nacional para
ratificação, recebe as críticas dos deputados Daniel Barbosa e Almeida Garrett,
sendo ratificado com emendas em 16 de Janeiro. Convertido em proposta de lei do
governo, desce à Câmara Corporativa para parecer, mas não volta a ser discutido
na Assembleia Nacional. Na Câmara Corporativa, há um parecer de Guilherme Braga
da Cruz, apoiado por Júlio Dantas, Inocêncio Galvão Teles, Manuel Gomes da Silva
e José Pires Cardoso.
Partido Comunista defende uma solução pacífica
para o problema político português. Pedro Soares e Júlio Fogaça (1907-1980)
até advogam o entrismo, a luta na legalidade, principalmente nos
sindicatos existentes. Destaque também para a sexta reunião plenária do Comité
Central, onde as palavras de ordem são as de luta contra o sectarismo e
de desenvolvimento de um amplo trabalho de massas, preparando a viragem
do V Congresso do ano seguinte. Dia do Trabalhador dá origem a várias
manifestações (1 de Maio). Em Junho, nova onda de greves em Lisboa.
IV Congresso da União Nacional a que não comparecem
os monárquicos apoiantes do regime.
Humberto Delgado recebe em Washington um convite para
organizar um movimento visando o derrube do regime. Vem então a Lisboa, onde
contacta com um major conspirador (18 de Maio), regressando à capital
norte-americana em 23 de Novembro. Voltamos assim ao ambiente conspiratório dos
anos vinte e Delgado aparece cada vez mais como uma espécie de reedição de Gomes
da Costa, numa curiosa continuidade de perfis psicológicos militares, a que não
deve ser alheia a formação recebida, até porque vão surgir casos idênticos
depois de 1974.
Oposição republicana – Jantar de confraternização de
oposicionistas, com discurso de Carlos Cal Brandão (10 de Junho). Sessão
comemorativa da oposição no Teatro-Cine da Covilhã (5 de Outubro). Neste dia,
comemorações da implantação da república em Lisboa, onde houve estralejar de
foguetes, pela primeira vez desde 1928, com romagem ao cemitério do Alto de
São João e sessão no Centro António José de Almeida. Almoço de confraternização
de elementos da oposição democrática em Lisboa, onde se aprova a formação de
comissões eleitorais da oposição em todos os distritos, independentemente da
Comissão promotora do Voto, sendo formada uma comissão de honra para o
efeito (13 de Dezembro).
Frente Nacional Liberal e Democrática – Em Outubro, é
criada uma Frente Nacional Liberal e Democrática, por iniciativa de Nuno
Rodrigues dos Santos e chefiada pelo general Ferreira Martins, com o apoio de
Alberto Madureira. Opõem-se à linha oposicionista liderada por Mário de Azevedo
Gomes, apoiada por António Macedo e Carlos Cal Brandão.
Padre Américo – Morre o Padre Américo Monteiro de
Aguiar ö (1887-1956), fundador das Casas do Gaiato
e belíssimo escritor, com maravilhosas páginas de defesa da doutrina social da
Igreja Católica, nomeadamente em Pão dos Pobres. Do que eu vi em casa deles e
de como tratei seus filhos, 2 vols., Coimbra, 1941-1942, uma recolha de
textos publicados desde 1932 a 1939 em O Correio de Coimbra.
& Caetano, Marcello (1977): 478 ss.; Cardoso, Sá (1973): 180 ss.; Lagoa, Vera (1977): 71 ss.; Nogueira, Franco (IV): 406; Presos Políticos no Regime Fascista 1952-1960: 183 ss. (138 presos); Soares, Mário (1972/1974): 195; Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 78, 92, 93, 94, 95, 96, 97.
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: