1953

D

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

Citações

 

Da morte de Estaline ao fim da guerra da Coreia – O ano, em que se descobre a molécula DNA, é também marcado pela morte de Estaline (5 de Março) e pela posse do novo presidente norte-americano, Dwight Eisenhower (20 de Janeiro). Vai assistir-se ao fim da Guerra da Coreia (armistício de Pan Mun Jon, 27 de Julho), enquanto em Berlim Leste é reprimida violentamente uma revolta operária (16 e 17 de Junho). Na URSS, quando se anuncia a explosão da primeira bomba de hidrogéneo (20 de Agosto), começa em 7 de Setembro a era de Nikita Khruchtchev, mas, apesar de tudo, o primaz da Polónia, o cardeal Wyssinsky é encarcerado (26 de Setembro), depois de protestar contra as perseguições e a nacionalização dos bens da Igreja. O sueco Dag Hammarskjold ascende a secretário-geral da ONU (1 de Abril). Será reeleito em1957, vindo a falecer em1961, num acidente aéreo, no Congo. Entre nós, várias comemorações fazem-nos recordar que Salazar subiu ao poder há 25 anos, proclama-se que a Europa empobrece com as suas guerras e o seu socialismo e, a 27 de Abril, há sessão conjunta da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa, Te Deum na Igreja de São Domingos e visita de congratulação da Universidade de Coimbra ao seu filho dilecto que também está na base do Tratado de Amizade e Consulta com o Brasil, subscrito em 16 de Novembro, no ano em que entra em vigor a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (3 de Setembro).

A angústia dos homens entre ruínas – No plano das ideias, quando se reconhece a angústia do tempo presente e os deveres do espírito (Encontros de Genebra), eis que outros falam da esperança dos desesperados (Mounier), enquanto o fascista, heterodoxo e esoterista, Giulio Evola lança Gli Uomini e le Rovine, onde, defendendo o regresso ao organicismo até cita o nosso António Sardinha. Se uns procuram os elementos fundamentais da cultura portuguesa, como Jorge Dias, conforme comunicação apresentada a um colóquio realizado em Nashville em1950, aí publicada em1953 e só traduzida para português em1955, já outros continuam na pesquisa da alma dos povos, na senda de Renan, teorizando a compleição do patriotismo português (Joaquim de Carvalho), no preciso ano em que M. Dufrenne analisa o conceito sociológico de La Personnalité de Base. Neste ano, o mesmo Jorge Dias edita Rio de Onor. Comunitarismo Agro-Pastoril.

A nação una e o luso-tropicalismo – Morrem Fezas Vital e Hipólito Raposo, J. Silva Saraiva lança um estudo sobre O Pensamento Político de Salazar, enquanto António Sérgio escreve as chamadas Cartas do Terceiro Homem. Este seria diferente do homem do autoritarismo puro e do homem do libertarismo indisciplinado e não reformador, dado ser o Homem do Libertarismo autodisciplinado e reformador. O que deveria vir; o que nos convém que apareça. Destaque também para a peça de teatro de José Régio A Salvação do Mundo, e para o romance A Sibila, de Agustina Bessa Luís. No plano católico, dá-se a introdução do Graal em Portugal, movimento onde virá a militar a Engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo. Destaque, contudo, para Norton de Matos que em A Nação Una, ed. de Paulino Ferreira, com prefácio de Egas Moniz, onde defende a necessidade de se conservarem intactos, na posse da Nação, os territórios de Aquém e Além-mar, concluindo que se alguém passar ao vosso lado e vos segredar palavras de desânimo, procurando convencer-vos de que não podemos manter tão grande Império, expulsai-o do convívio da Nação. Porque a Nação é uma só, formada por territórios situados na Europa e noutros continentes. Já Gilberto Freyre edita Aventura e Rotina. Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e de acção, viagem realizada em1951, a convite do ministro do ultramar Sarmento Rodrigues. O escritor de Santo António de Apipucos reconhece que há em Portugal ódio político uma intransigência que separa principalmente os intelectuais da direita dos da esquerda. Nunca vi tanta inimizade entre intelectuais. Entretanto, Pedro Teotónio Pereira passa para embaixador em Londres, largando Washington.

 
 
 
 
 

À volta do mundo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ideias

 

Livros:

 
 
 
 
1953

Do Congresso da JUC ao massacre de Batepá

Da morte de Estaline ao fim da guerra da Coreia ä Maremoto na Holanda ä Revolta operária em Berlim ä Execução dos Rosenberg ä Bomba de hidrogéneo soviética

A angústia dos homens entre ruínas

M Greves (Maio e Junho) ä Explosão de Braço de Prata

µ Comissão Promotora do Voto tenta organizar a oposição ä Ramada Curto abandona os socialistas da SPIO ä Partido Cristão-Democrático ä JUC ä Partido de Luta Unida dos Africanos de Angola/Esboça-se uma oposição nacionalista que tenta candidatar-se em Aveiro ä Anuncia-se a criação de um Partido Cristão Democrático ä Causa Monárquica apela ao voto na UN ä Oposição em Lisboa, Porto e Aveiro

1 e 58 (Novembro)

 


1953

Da morte de Estaline ao fim da Guerra da Coreia

Citações:

Jean Wahl, sobre a utilidade da Europa

Morin, sobre o estalinismo

Leo Strauss sobre o ideal

Joaquim de Carvalho, sobre a alma dos povos

Livros:

Gli Uomini e le Rovine

Natural Right and History

Eros and Civilization

Mensário1953

 

Janeiro Fevereiro Março
Abril Maio Junho
Julho Agosto Setembro
Outubro Novembro Dezembro

 

Janeiro
O estalinismo e a teoria da conspiração

Fevereiro
Norte-americanos querem um exército europeu

Março
A morte de Estaline

Abril
O degelo mostra os primeiros sinais do novo tempo

Maio
Gaullistas contra o exército europeu

Junho
Entre a execução dos Rosenberg e a revolta de Berlim

Julho
De Poujade ao assalto do quartel de Moncada

Agosto
Soviéticos termonucleares

Setembro
Começa a era Khruchtchev

Outubro
Entre a procura do espírito europeu e o derrube de Mossadegh

Novembro
De Gaulle denuncia o inspirador da Europa unida

Dezembro
Dulles pressiona franceses e Beria é liquidado

À volta do mundo

URSS

Cuba

O Irão de Mossadegh

Coreia do Norte


 

 

 

Jean Wahl

Não creio na entidade da Europa, e censuro-me por vezes por isso. Creio que a Europa é uma pseudo-ideia, que a Europa não pode viver sem os outros continentes e que se trata do continente mais difícil de construir. Talvez só se possa construir quando o mundo estiver construído também

Edgar Morin

No estalinismo deu-se um conflito entre o aparelho e a sua própria polícia: esta devia necessariamente ser o instrumento total da repressão total, mas, agindo assim, tornava-se um super-aparelho todo-poderoso que ameaçava o próprio aparelho. Daí a depuração constante dos chefes de polícia, Iagoda, Yejov, até à mais recente de todas, a de Béria. A desestalinização marca a derrota definitiva do super-aparelho policial, mas ao preço de uma degradação da omnipotência do aparelho, de uma primeira partilha do poder com o exército e os técnicos

 

Leo Strauss

Há no homem qualquer coisa que não está sujeita à sua sociedade e por conseguinte que somos capazes, e portanto obrigados, a procurar um padrão que nos permita julgar o ideal da nossa sociedade ou de qualquer outra


Joaquim de Carvalho

A História dá-nos assim, simultaneamente, o testemunho real e as dimensões existenciais da compleição da alma dos povos, da capacitação, qualidades e defeitos que a constituem, da hierarquia de valores que a singularizam, das tradições que a mantêm, das aspirações que a alentam e das vicissitudes dos ideais que a orientam

Edgar Morin

No estalinismo deu-se um conflito entre o aparelho e a sua própria polícia: esta devia necessariamente ser o instrumento total da repressão total, mas, agindo assim, tornava-se um super-aparelho todo-poderoso que ameaçava o próprio aparelho. Daí a depuração constante dos chefes de polícia, Iagoda, Yejov, até à mais recente de todas, a de Béria. A desestalinização marca a derrota definitiva do super-aparelho policial, mas ao preço de uma degradação da omnipotência do aparelho, de uma primeira partilha do poder com o exército e os técnicos

Gli Uomini e le Rovine

Obra de Giulio Evola, onde ataca o Estado Moderno, defendendo um Estado Orgânico, conforme as teses de Vico e Fustel de Coulanges, chegando a citar António Sardinha. Faz remontar a transcendência do princípio do Estado à ideia romana de imperium, de poder sagrado, ligado ao culto das divindades viris. O Estado é assim uma entidade masculina que, relativamente à pátria e à nação, deve ter uma relação semlhante à do homem com a mulher. Considera que a democracia, o cesarismo, a tirania e a ditadura são recursos ao demos, quando o chefe político, perdendo as relações com o alto, com o sagrado, foi obrigado aa tirara a sua legitimidade do baixo, do povo. O Estado não é um reflexo da sociedade, mas um agente que transforma e estrutura a sociedade. Assume-se contra a dimensão igualitária, em nome da elite. (cfr. trad. fr. Les Hommes au Milieu des Ruines, Sept Couleurs, 1972).

Natural Right and History

Obra de Leo Strauss onde se faz um apelo no sentido do regresso ao direito natural e à lei universal do justo e do injusto, um padrão que não serviria apenas para aferir da validade do direito estabelecido, posto, positivo, mas algo de mais global, que também seria mais elevado que o ideal mutável da nossa sociedade, dado que há no homem qualquer coisa que não está sujeita à sua sociedade e por conseguinte que somos capazes, e portanto obrigados, a procurar um padrão que nos permita julgar o ideal da nossa sociedade ou de qualquer outra. O padrão deveria ser o conceito socrático de natureza, a coisa na sua inteireza ou perfeição. Um padrão que até se não identificaria com a ideia de ser bom aquilo que é antigo, dado que este tipo de natureza até é sempre mais antigo do que aquilo que foi estabelecido pelos fundadores de uma determinada comunidade, prendendo-se com a própria ordem eterna. Neste sentido, o direito natural seria sempre equivalente à procura do melhor regime, contrariando certa tendência da modernidade, de extracção maquiavélica, que considerando a realização desse melhor regime como altamente improvável, tratou de baixar os níveis e de considerar que o melhor regime poderia ser realizado em qualquer parte.

Eros and Civilization

Obra de Herbert Marcuse de 1953, onde, retomando-se as perspectivas de Freud, se considera que na origem da história da humanidade há sempre um pai primitivo, transformado em déspota absoluto, que impõe a sua dominação sobre os restantes membros da horda, proibindo a utilização da mulher e monopolizando o direito à posse.

Mensário1953

Janeiro
O estalinismo e a teoria da conspiração

Fevereiro
Norte-americanos querem um exército europeu

Março
A morte de Estaline

Abril
O degelo mostra os primeiros sinais do novo tempo

Maio
Gaullistas contra o exército europeu

Junho
Entre a execução dos Rosenberg e a revolta de Berlim

Julho
De Poujade ao assalto do quartel de Moncada

Agosto
Soviéticos termonucleares

Setembro
Começa a era Khruchtchev

Outubro
Entre a procura do espírito europeu e o derrube de Mossadegh

Novembro
De Gaulle denuncia o inspirador da Europa unida

Dezembro
Dulles pressiona franceses e Beria é liquidado

URSS

Morte de Estaline (5 de Março)

Malenkov, em 6 de Março, a ser nomeado presidente do Conselho de Ministros, acumulando com o cargo de primeiro secretário do partido, e com Béria, que mantinha o Ministério do Interior, a assumir a vice-presidência.

} Mas, quinze dias depois, a 21 de Março, eis que se anuncia um novo secretário do Comité Central do PCUS: Nikita Sergueievitch Khruchtchev (1894-1971). Tratava-se de um engenheiro que fora responsável pela construção do metropolitano de Moscovo, primeiro secretário do partido na Ucrânia, de 1938 a 1940, um condecoradíssimo herói da resistência de Estalinegrado, donde, de 1949 a1953, passara a 1º secretário do partido em Moscovo.

} Amnistia Em 28 de Março era publicado um decreto de amnistia, onde eram libertados todos os que tinham sido condenados a menos de cinco anos de prisão, ao mesmo tempo que se reduzia para metade a pena de todos os outros. Anunciava-se também que nova legislação penal iria suprimir a responsabilidade criminal para os delitos económicos.

} Começa a desestalinização; reabilitados os conspiradores da bata branca (6 de Abril) Surpreendentemente, em 4 de Abril, o Pravda anunciava que a conjura das batas brancas tinha sido fabricada pela polícia política e que as confissões tinham sido arrancadas sob tortura. A viradeira estava a começar.

} Colegialidade Não tarda que os órgãos de propaganda do regime, a partir de 16 de Abril, comecem a falar num novo princípio: o da colegialidade.

Detenção de Béria

(26 de Junho) Em 10 de Julho anunciava-se a prisão de Béria. E mais não se dizia. Apenas em 23 Dezembro de 1953 se explicava que o mesmo Béria fora preso no dia 26 de Junho e executado no mesmo dia, depois de um processo secreto. Lavrenti Pavlovitch Béria (1899-1953) destacara-se como chefe da Tcheka georgiana. Chamado a Moscovo em 1938 pelo seu patrício Estaline, vai-lhe caber o papel de controlador da repressão na fase mais sanguinária do totalitarismo estalinista. Como refere Egar Morin, era o conflito entre o aparelho e a sua própria polícia: esta devia necessariamente ser o instrumento total da repressão total, mas, agindo assim, tornava-se um superaparelho todo-poderoso que ameaçava o próprio aparelho. Daí a depuração constante dos chefes de polícia, Iagoda, Yejov, até à mais recente de todas, a de Béria. A desestalinização marca a derrota definitiva do superaparelho policial, mas ao preço de uma degradação da omnipotência do aparelho, de uma primeira partilha do poder com o exército e os técnicos.

Khruchtchev

Sobe ao poder Nikita Khruchtchev como primeiro secretário do CC do PCUS (7 de Setembro) A rápida ascensão de Khruchtchev significou, sobretudo, a vitória do aparelho do partido sobre o aparelho militar e policial. Com efeito, com Estaline, depois da repressão da segunda metade dos anos trinta e, principalmente, por efeito da guerra, o partido deixara de constituir o vértice do aparelho de poder, dado que o pai dos povos preferira colocar, na sua directa assessoria, o aparelho militar e o aparelho policial.

} Liquidação de Lavrenti Béria (23 de Dezembro)

Cuba

Um grupo de trinta intelectuais, liderados pelo advogado Fidel de Castro, tenta assaltar um quartel em Moncada (26 de Julho de 1953),

Esta acção ainda é qualificada pelos comunistas locais logo como aventureirismo.

Coreia do Norte

Na República Popular da Coreia do Norte, Kim-Il Sung vai promover, a partir de 1953, uma série de purgas, criando um sistema totalitário marcado pela personalização do poder

Nos anos sessenta o regime assume a chamada ideologia zugue, marcada pela tríade independência política, autodefesa e auto-suficiência, que tanto lhe permitiu tornar-se numa importante potência militar como levar o respectivo povo a vergonhosas crises de fome.

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: