1955

Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

  

Destaques:

Conferência de Messina
Conferência de Bandung
Movimento poujadista em França
Pacto de Varsóvia
Morte de Teilhard de Chardin
Conferência de Genebra estabelece a détente
Portugal admitido na ONU
Cessa o regime de ocupação da RFA
Juscelino Kubitshek eleito presidente
Integração do Sarre na RFA
Independência de Marrocos
Criada a Bandeira Europeia das doze estrelas

Citações:

Conferência de Messina

Saint-Simon, sobre a Europa

À volta do mundo:

Chardin e a complexidade

Bloco soviético

Senghor e Bandung

UEO

Teitgen contra a americanização da Europa

Europa:

Obras publicadas

O pessimismo europeu

Ideias: de Teilhard ao fim das ideologias

Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung

Peter Blau

Portugal e os povos mudos do mundo

Teilhard de Chardin

A détente, ou o impasse

Tempo de encruzilhada

A ideia de construção europeia

O relatório Spaak

Conferência de Veneza

Conferência diplomática de Bruxelas

Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung – O ano vê nascer o Pacto de Varsóvia (14 de Maio), ao mesmo tempo que Juan-Domingo Perón é afastado do poder na Argentina, enquanto se realizam as Conferências de Bandung (18 a 26 de Abril), base do movimento terceiro-mundista, e de Messina (Junho), fundamento da CEE. Desta última vai sair um comité presidido por Paul-Henri Spaak, que se reúne em Val-Duchesse, de Julho de 1955 a Abril de 1956, base do Tratado de Roma. Portugal e a Espanha são admitidos na ONU (14 de Dezembro). Morrem Pierre Teilhard Chardin, Ortega y Gasset e Albert Einstein e, em França, desenvolve-se o movimento poujadista que atinge o seu clímax quando declara greve aos impostos (25 de Janeiro). No ano em que Churchill se demite da chefia do governo britânico, dá-se uma aproximação entre a URSS e a Jugoslávia, enquanto os dois Estados alemães e a Áustria atingem a soberania. Entretanto, o Comité de Ministros do Conselho da Europa (8 de Dezembro) decide adoptar como emblema da Europa uma bandeira azul com doze estrelas amarelas, número-símbolo da plenitude. É o ano do rearmamento alemão nos quadros da NATO, conforme a chamada doutrina Hallstein, cessando o regime de ocupação, com a entrada em vigor da UEO (9 de Maio). A República Federal da Alemanha pede, nesse mesmo dia, a adesão formal à NATO e Adenauer visita Moscovo, estabelecendo relações diplomáticas com a URSS (9 a 13 de Setembro), a que se segue o repatriamento dos últimos soldados alemães (7 de Outubro), pouco antes do Sarre, em referendo, optar pela integração na mesma RFA (23 de Outubro). Já a RDA também adquire formal soberania (20 de Setembro), após a mesma ter sido devolvida à Áustria pela URSS (19 de Maio), a troco da neutralidade deste Estado. Entretanto, Jean Monnet decide terminar as suas funções como presidente da Alta Autoridade da CECA (20 de Fevereiro), mas a respectiva substituição é adiada por cinco meses, até à nomeação de René Mayer (1 de Junho) enquanto o principal inspirador do projecto europeu anuncia a criação de um Comité d’Action pour les Etats Unis de l’Europe (13 de Outubro) que tem a sua primeira reunião em 18 de Janeiro seguinte. No âmbito das relações Leste-Oeste, confirma-se o desanuviamento, começando a falar-se de détente, o que é confirmado pela Conferência dos Quatro Grandes em Moscovo (18 a 23 de Julho), enquanto a Turquia, o Iraque, o Irão, o Paquistão, o Reino Unido e os Estados Unidos se congregam numa aliança, através do Pacto de Bagdad (01 de Julho).

Portugal e os povos mudos do mundo. Não é por acaso que, no ano em que Portugal é autorizado a aderir à ONU ocorre a conferência dos povos mudos do mundo e que tudo acontece seis anos antes do começo da nossa guerra colonial e dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Nesses confusos tempos, a questão colonial ainda é vista entre nós como mero conflito diplomático em torno da questão do nosso formal Estado da Índia, não se aproveitando um tempo de pausa que poderia propiciar uma pacífica via política para a solução da nossa dimensão africana, antes das tragédias que se avizinhavam e que já se experimentavam noutros locais civilizacionais. Mas as nossas elites universitárias ainda não se tinham dedicado ao estudo científico das relações internacionais até porque quase todos continuavam a confundir o conceito de ciência com os delírios epistemológicos de Auguste Comte. Daí que as parangonas jornalísticas registassem com mais facilidade a visita do presidente do Brasil, Café Filho (22 de Abril) e poucos tivessem notado o falecimento de Calouste Gulbenkian (20 de Julho).

De Teilhard ao fim das ideologias – No ano da publicação do Fenómeno Humano de Teilhard de Chardin (1881), os Encontros de Genebra perguntam se está a cultura em perigo?, enquanto Aron fala no fim das ideologias, num tempo de ópio dos intelectuais, também assinalado pelo artigo de Edward Shils, sobre The End of Ideology?, em Novembro, na revista Encounter. Já Hans Kelsen publica Foundations of Democracy, retomando obra de 1929, Vom Wesen und Wert der Demokratie. A tropicologia é objecto de duas importantes obras antropológicas, com Sociologie des Brazzavilles Noires, de Georges Balandier, e Tristes Tropiques, de Claude Lévi-Strauss. Bertrand de Jouvenel publica De la Souverainité, na procura do bem político, e Herbert Marcuse, em Eros and Civilization, faz uma síntese do neo-marxismo com o freudianismo. Mas cultura ocidental ainda não tinha absorvido as teorias da complexidade crescente do heterodoxo jesuíta, que muitos reduziam a um tolo que apenas permitia a emergência daqueles cristãos progressistas que queriam dialogar com o marxismo. Nem sequer ainda tinha surgido uma epistemologia capaz de alargar-se à teoria da relatividade daquele físico alemão de origens judaicas, que, apesar de se ter naturalizado norte-americano em 1940, chegou a ser convidado para presidente do Estado de Israel. A teoria da relatividade, baseada num simples artigo de três páginas, publicado em Setembro de 1905, consagra a fórmula mais importante do século XX: E=mc2, segundo a qual a energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. A energia do movimento pode mudar a massa dos objectos, a massa pode tornar-se energia, os objectos podem mudar de tamanho e de massa, tudo dependendo da rapidez da sua deslocação. Esta alteração daquilo que pensávamos ser as circunstâncias do tempo e do lugar não permitiu apenas a energia nuclear e essa arma absoluta chamada bomba atómica. Passou a exigir um novo conceito de ciência para além dos estreitos limites do positivismo, do funcionalismo e daquilo que irá ser, a partir de 1956, o sistemismo. Entre nós, as Lições de Direito Constitucional e Ciência Política de Marcello Caetano têm uma segunda edição, passando a intitular-se Ciência Política e Direito Constitucional, na senda de Maurice Duverger e das suas Institutions Politiques et Droit Constitutionnel.

   
1955

Entre Marcello e Santos Costa e Conferência de Bandung

Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung ä Rearmamento alemão no quadro da NATO ä Reúne o Comité Spaak ä Movimento poujadista em França ä Morte de Teilhard de Chardin ä Conferência de Genebra consagra a détente

Portugal e os povos mudos do mundo

De Teilhard ao fim das ideologias

µ Grupo de Santos Costa/ Grupo da Choupana ä I Congresso da JOC de 1955/ Resistência Republicana e Socialista ä Partido Comunista Angolano

M Prisões ä Greves

¤ Remodelação em 7 de Julho

 


1955
Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung
 

Ver Portugal

Conferência de Messina

Chegou o momento de se passar para uma nova etapa na via da construção europeia e que esta deve ser realizada primordialmente no domínio económico, considerando que é preciso prosseguir o desenvolvimento de uma Europa unida pelo desenvolvimento de instituições comuns, a fusão progressiva das economias nacionais, a criação de um Mercado Comum e a harmonização progressiva sas respectivas políticas sociais, proclamando-se que se desenvolverão esforços para a criação de uma Europa unida, de modo a permitir à Europa continuar a conservar o lugar que ocupa no mundo, reconquistar a sua influência e o seu poder de irradiação, e para aumentar, de maneira permanente o nível de vida da sua população

Saint-Simon, em 1814

A Europa teria a melhor organização possível, se todas as nações que ela encerra, sendo governadas, cada uma por um parlamento, reconhecessem a supremacia de um parlamento geral, colocado acima de todos os governos nacionais, e investido do poder de julgar as suas contendas

Teilhard de Chardin e a complexidade:

Na própria medida em que se encontrem reunidos uns contra os outros, os elementos pensantes que todos nós somos multiplicam incontestavelmente, por um mecanismo de inter-reflexão, o seu poder de reflexão individual.

Senghor

Desde o renascimento não houve outro acontecimento que revestisse a importância histórica do terramoto de Bandung, dado ter-se dado à escala planetária a tomada de consciência pelos povos de cor da sua eminente dignidade. E a morte do complexo de inferioridade

Pierre-Henri Teitgen

Vamos ter um exército alemão, um general americano e um controlador britânico

 

Jean Monnet, no anúncio de constituição do Comité d'Action pour les États Unis de l'Europe, de 13 de Outubr0

Unidade de acção das organizações que dele são membros para se alcançar, através de realizações concretas, os Estados Unidos da Europa... fazer da resolução de Messina de 2 de Junho uma verdadeira etapa para os Estados Unidos da Europa... Uma simples cooperação entre os governos não parece ser suficiente. É indispensável que os Estados deleguem alguns dos seus poderes em instituições federais europeias

 

 

Síntese:

Do Pacto de Varsóvia à Conferência de Bandung

O ano vê nascer o Pacto de Varsóvia (14 de Maio), ao mesmo tempo que Juan-Domingo Perón é afastado do poder na Argentina, enquanto se realizam as Conferências de Bandung (18 a 26 de Abril), base do movimento terceiro-mundista, e de Messina (Junho), fundamento da CEE. Desta última vai sair um comité presidido por Paul-Henri Spaak, que se reúne em Val-Duchesse, de Julho de 1955 a Abril de 1956, base do Tratado de Roma. Portugal e a Espanha são admitidos na ONU (14 de Dezembro). Morrem Pierre Teilhard Chardin, Ortega y Gasset e Albert Einstein e, em França, desenvolve-se o movimento poujadista que atinge o seu clímax quando declara greve aos impostos (25 de Janeiro). No ano em que Churchill se demite da chefia do governo britânico, dá-se uma aproximação entre a URSS e a Jugoslávia, enquanto os dois Estados alemães e a Áustria atingem a soberania. Entretanto, o Comité de Ministros do Conselho da Europa (8 de Dezembro) decide adoptar como emblema da Europa uma bandeira azul com doze estrelas amarelas, número-símbolo da plenitude. É o ano do rearmamento alemão nos quadros da NATO, conforme a chamada doutrina Hallstein, cessando o regime de ocupação, com a entrada em vigor da UEO (9 de Maio). A República Federal da Alemanha pede, nesse mesmo dia, a adesão formal à NATO e Adenauer visita Moscovo, estabelecendo relações diplomáticas com a URSS (9 a 13 de Setembro), a que se segue o repatriamento dos últimos soldados alemães (7 de Outubro), pouco antes do Sarre, em referendo, optar pela integração na mesma RFA (23 de Outubro). Já a RDA também adquire formal soberania (20 de Setembro), após a mesma ter sido devolvida à Áustria pela URSS (19 de Maio), a troco da neutralidade deste Estado. Entretanto, Jean Monnet decide terminar as suas funções como presidente da Alta Autoridade da CECA (20 de Fevereiro), mas a respectiva substituição é adiada por cinco meses, até à nomeação de René Mayer (1 de Junho) enquanto o principal inspirador do projecto europeu anuncia a criação de um Comité d’Action pour les Etats Unis de l’Europe (13 de Outubro) que tem a sua primeira reunião em 18 de Janeiro seguinte. No âmbito das relações Leste-Oeste, confirma-se o desanuviamento, começando a falar-se de détente, o que é confirmado pela Conferência dos Quatro Grandes em Moscovo (18 a 23 de Julho), enquanto a Turquia, o Iraque, o Irão, o Paquistão, o Reino Unido e os Estados Unidos se congregam numa aliança, através do Pacto de Bagdad (01 de Julho).

Portugal e os povos mudos do mundo

Não é por acaso  que, no ano em que Portugal é autorizado a aderir à ONU ocorre a conferência dos povos mudos do mundo e que tudo acontece seis anos antes do começo da nossa guerra colonial e dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Nesses confusos tempos, a questão colonial ainda é vista entre nós como mero conflito diplomático em torno da questão do nosso formal Estado da Índia, não se aproveitando um tempo de pausa que poderia propiciar uma pacífica via política para a solução da nossa dimensão africana, antes das tragédias que se avizinhavam e que já se experimentavam noutros locais civilizacionais. Mas as nossas elites universitárias ainda não se tinham dedicado ao estudo científico das relações internacionais até porque quase todos continuavam a confundir o conceito de ciência com os delírios epistemológicos de Auguste Comte. Daí que as parangonas jornalísticas registassem com mais facilidade a visita do presidente do Brasil, Café Filho (22 de Abril) e poucos tivessem notado o falecimento de Calouste Gulbenkian (20 de Julho).

Portugal e a Espanha são admitidos na ONU (14 de Dezembro de 1955), morrem Pierre Teilhard Chardin (10 de Abril de 1955), Ortega y Gasset e Albert Einstein (1879-1955) e em França desenvolve-se o movimento poujadista que declara greve aos impostos (25 de Janeiro de 1955). No ano em que Churchill se demite do governo, dá-se uma aproximação entre a URSS e a Jugoslávia, a República Federal da Alemanha e a Áustria retomam a soberania e Perón é afastado do poder, na Argentina. Entretanto, o Comité de Ministros do Conselho da Europa (8 de Dezembro de 1955) decide adoptar como emblema da Europa uma bandeira azul com doze estrelas amarelas, número-símbolo da plenitude.

É o ano do rearmamento alemão nos quadros da NATO, conforme a chamada doutrina Hallstein, cessando o regime de ocupação, sendo restabelecida a soberania, com a entrada em vigor da UEO (9 de Maio de 1955). A  República Federal da Alemanha pede a adesão formal à NATO (9 de Maio de 1955) e Adenauer visita Moscovo, estabelecendo relações diplomáticas com a URSS (9 a 13 de Setembro de 1955), a que se segue o repatriamento dos últimos soldados alemães (7 de Outubro de 1955), pouco antes do Sarre, em referendo, optar pela integração na mesma República Federal da Alemanha (23 de Outubro de 1955). Já a RDA adquire formal soberania (20 de Setembro de 1955), depois da mesma ter sido devolvida à Áustria pela URSS (19 de Maio de 1955), a troco da neutralidade deste Estado.

Entretanto, Jean Monnet decide terminar as suas funções como presidente da Alta Autoridade da CECA (20 de Fevereiro de 1955), mas a respectiva substituição é adiada por cinco meses,  até à nomeação de René Mayer (1 de Junho de 1955) enquanto o principal inspirador do projecto europeu anuncia a criação de um Comité d’Action pour lés Etats Unis de l’Europe (13 de Outubro de 1955) que tem a sua primeira reunião em 18 de Janeiro de 1956.

No âmbito das relações Leste-Oeste, confirma-se o desanuviamento, começando a falar-se de détente, o que é confirmado pela Conferência dos Quatro Grandes em Moscovo (18 a 23 de Julho de 1955), enquanto a Turquia, o Iraque, o Itão, o Paquistão, o Reino Unido e os Estados Unidos se congregam numa aliança, através do Pacto de Bagdad (1 de Julho de 1955).

A détente, ou o impasse

As expressões détente e coexistência pacífica começam a preponderar em1955, quando o degelo khruchteviano permite uma distensão no processo da guerra fria. Como então se dizia, se entre o Leste e o Oeste não se gerara ainda um modus vivendi, sempre de estabelecera, pelo menos, um modus non moriendi. Em 23 de Julho de 1955, com o encontro dos Quatro Grandes em Genebra surge um certo desanuviamento na tensão Leste-Oeste. Já em 19 de Maio de a URSS havia restituído a soberania à Áustria. Contudo, apesar da acalmia nas relações entre os dois blocos, eis que emergia o terceiro-mundismo, principalmente a partir da Conferência de Bandung, também de 1955.

 

 

 

Tempo de encruzilhada

 

É neste ambiente decadentista que se desencadeia o processo que vai levar ao Tratado de Roma, com a Conferência de Messina, reunida em Junho de 1955, onde se constituiu o comité inter-governamental de peritos presidido por Paul-Henri Spaak, de cujo labor resultará a Conferência de Veneza de 1956 e a consequente instituição do mercado comum.

Nos primeiros dias de Junho de 1955, reúne na Sicília, em Messina, uma conferência dos ministros dos estrangeiros dos Seis: o italiano Gaetano Martino, o luxemburguês Joseph Beck, o francês Antoine Pinay, o alemão Walter Hallstein, o holandês Willem Beyen e o belga Paul-Henri Spaak. Estava-se num tempo de encruzilhada quanto à construção europeia. Se o governo francês, então presidido por Edgar Faure, incluindo gaullistas, parece mais inclinado à mera constituição de novas comunidades sectoriais, à semelhança da CECA; já os governos da República Federal da Alemanha e do Benelux, parecem, parecem mais apostados no desenvolvimento do modelo das uniões aduaneiras (Toulemon, p. 26).

A ideia de construção europeia

No entanto, a Conferência de Messina vem dar novo impulso à ideia de Europa Unida, insistindo na expressão construção europeia que assim substituía a de integração.  Isto é, os Seis vêm considerar já não serem bastantes as integrações económicas sectoriais, ao estilo da pool do carvão e do aço, exigindo-se uma fusão do conjunto das economias nacionais.

Proclamam assim que chegara o momento de se passar para uma nova etapa na via da construção europeia e que esta deve ser realizada primordialmente no domínio económico, considerando que é preciso prosseguir o desenvolvimento de uma Europa unida pelo desenvolvimento de instituições comuns, a fusão progressiva das economias nacionais, a criação de um Mercado Comum e a harmonização progressiva sas respectivas políticas sociais, proclamando-se que se desenvolverão esforços  para a criação de uma Europa unida, de modo a permitir à Europa continuar a conservar o lugar que ocupa no mundo, reconquistar a sua influência e o seu poder de irradiação, e para aumentar, de maneira permanente o nível de vida da sua população. Nestes termos, consideram a necessidade de construção de um Mercado Comum Europeu, isento de direitos  alfandegários e de qualquer restrição quantitativa, mas por etapas.

Na mesma conferência, face à vontade de não recondução de Jean Monnet, era nomeado para a presidência da Alta-Autoridade o antigo presidente do conselho francês René Mayer. Foi também decidida a criação de um comité intergovernamental de peritos, encarregado de estudar a criação de uma união económica geral, bem como de uma união no domínio nuclear. É a partir de então, como rezam as crónicas oficiosas da história comunitária, que a Europa arranca, que se dá o relance.

O relatório Spaak

O comité vai ser presidido por Paul-Henri Spaak, contando, entre os principais peritos, os franceses Pierre Uri, antigo colaborador de Monnet; Félix Gaillard, futuro presidente do conselho; bem como o alemão Hans von der Groeben (Toulemon, p. 27). Reunir-se-á em Val-Duchesse de Julho de 1955 a Abril de 1956 e, para além dos representantes dos seis, é convidado a participar um perito britânico, com o estatuto de observador. O resultado destes estudos foi reunido num  documento que ficou conhecido como o relatório Spaak .

Conforme pode ler-se no mesmo, o objectivo de um mercado comum europeu deverá ser a criação de uma vasta área com economia política comum que constituirá uma poderosa unidade produtiva e permitirá uma firme expansão, um aumento de estabilidade, uma mais rápida subida do nível de vida e o desenvolvimento de relações harmoniosas entre os Estados membros (Sampson, p. 60).

Conferência de Veneza

É já em 29 de Maio de 1956 que uma conferência dos ministros dos negócios estrangeiros da CECA, realizada em Veneza, aprova o relatório Spaak, decidindo abrir negociações inter-governamentais, para as quais vão ser convidados a participar, para além dos seis, outros países europeus. Conforme reconhecia Hallstein, a genialidade do método era que tomou um grupo de pessoas  que se tinham confinado a ideias gerais e transformou os seres humanos em delegações; depois, eles souberam resistir a pressões nacionais a fim de preservarem os seus conceitos internacionais (Id., ibid.).

Conferência diplomática de Bruxelas

Decidida a convocação de uma conferência diplomática para a preparação do aprofundamento da integração europeia, que, se reuniu em Bruxelas a partir de 26 de Junho, concluindo os seus trabalhos nos começos de Março de 1957.

Ideias: de Teilhard ao fim das ideologias

No ano da publicação do Fenómeno Humano de Teilhard de Chardin (1881), os Encontros de Genebra perguntam se está a cultura em perigo?, enquanto Aron fala no fim das ideologias, num tempo de ópio dos intelectuais, também assinalado pelo artigo de Edward Shils, sobre The End of Ideology?, em Novembro, na revista Encounter. Já Hans Kelsen publica Foundations of Democracy, retomando obra de 1929, Vom Wesen und Wert der Demokratie. A tropicologia é objecto de duas importantes obras antropológicas, com Sociologie des Brazzavilles Noires, de Georges Balandier, e Tristes Tropiques, de Claude Lévi-Strauss. Bertrand de Jouvenel publica De la Souverainité, na procura do bem político, e Herbert Marcuse, em Eros and Civilization, faz uma síntese do neo-marxismo com o freudianismo. Mas cultura ocidental ainda não tinha absorvido as teorias da complexidade crescente do heterodoxo jesuíta, que muitos reduziam a um tolo que apenas permitia a emergência daqueles cristãos progressistas que queriam dialogar com o marxismo. Nem sequer ainda tinha surgido uma epistemologia capaz de alargar-se à teoria da relatividade daquele físico alemão de origens judaicas, que, apesar de se ter naturalizado norte-americano em 1940, chegou a ser convidado para presidente do Estado de Israel. A teoria da relatividade, baseada num simples artigo de três páginas, publicado em Setembro de 1905, consagra a fórmula mais importante do século XX: E=mc2, segundo a qual a energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. A energia do movimento pode mudar a massa dos objectos, a massa pode tornar-se energia, os objectos podem mudar de tamanho e de massa, tudo dependendo da rapidez da sua deslocação. Esta alteração daquilo que pensávamos ser as circunstâncias do tempo e do lugar não permitiu apenas a energia nuclear e essa arma absoluta chamada bomba atómica. Passou a exigir um novo conceito de ciência para além dos estreitos limites do positivismo, do funcionalismo e daquilo que irá ser, a partir de 1956, o sistemismo. Entre nós, as Lições de Direito Constitucional e Ciência Política de Marcello Caetano têm uma segunda edição, passando a intitular-se Ciência Política e Direito Constitucional, na senda de Maurice Duverger e das suas Institutions Politiques et Droit Constitutionnel.

 

 

Bloco soviético

URSS devolve à Finlândia a base de Prokkala

Tratado de cooperação científica sino-soviético

URSS põe fim ao estado de guerra com a Alemanha (25 de Janeiro)

Bulganine sucede a Malenkov na presidência do governo da URSS (8 de Fevereiro) Ganham, com este afastamento, tanto o ministro da Defesa, Jukov, como o presidente do Conselho de Ministros, Nikolai Bulganine (1895-1075).

Demissão de Imre Nagy na Hungria (18 de Abril)

Pacto de Varsóvia, entre a URSS, a Albânia, a Bulgária, a Checoslováquia, a Hungria, a Polónia e a Roménia (14 de Maio) Na frente da Guerra Fria, os soviéticos são, entretanto, sujeitos a importantes desafios. Em Junho de 1953 acontecera a revolta operária de Berlim. Em Junho de 1956 vai dar-se a sublevação de Poznam. Em 24 de Outubro de 1956 é a vez da revolta popular da Hungria. Assim, visando uma coordenação mais estreita dos países de Leste, suscitada, sobretudo, pela entrada da República Federal da Alemanha na NATO, surge em Maio de 1955, como resposta do Leste, o Pacto de Varsóvia.

URSS restitui a soberania à Áustria pelo chamado Tratado de Estado (19 de Maio)

Khruchtchev e Bulganine visitam Belgrado (26 de Maio)

Encontro cimeiro dos chamados quatro grandes em Genebra com Eisenhower, Bulganine, Eden e Faure, revela um certo desanuviamento; surge nos media, pela primeira vez, a palavra détente(18-23 de Julho)

No Rio de Janeiro era constituída uma Confederação Anticomunista Interamericana participada por vinte países(27 de Agosto)

Entrada em funcionamento da UEO

Em 5 de Maio de 1955, a UEO entrava em funcionamento. Mas logo a seguir, uma das suas tarefas que era dar ao Sarre um status europeu, vai malograr-se quando a população daquele que se assumia como o reino intermédio entra a Europa latina e a teutónica, em 23 de Outubro de 1955, através de um referendo recusou o modelo, preferindo uma integração na República Federal da Alemanha(Beloff, p. 239).

Desfeita a gestão do Sarre a nova organização vai viver em regime de banho maria servindo fundamentalmente como porta das relações entre a CEE e o Reino Unido.

Contudo a UEO, perante o desafio global, não vai passar de uma espécie de bela adormecida, entalada entre a eficácia armamentista do atlantismo e o economicismo comunitário. Nem sequer pôde assumir-se como o pilar europeu da Aliança Atlântica, cabendo-lhe tarefas menores, aliás marcadas por sucessivos insucessos, como, por exemplo, no caso do Sarre, cuja população no referendo de 23 de Outubro de 1955, recusou um estatuto europeu, preferindo a integração na República Federal da Alemanha.

A única função digna de notoriedade da organização, foi a de servir como plataforma de ligação entre o Reino Unido e as instituições da integração europeia.

O pessimismo europeu

Aliás, era tal o pessimismo que marcava as hostes europeístas que um deles, o democrata-cristão francês Pierre-Henri Teitgen chegou a declarar que vamos ter um exército alemão, um general americano e um controlador britânico. Os europeus temem a politização porque não querem pagar a factura da defesa. Transferem para o novo centro pedaços da soberania económica, mas, sobretudo as médias potências, continuam a reservar para o mais estrito soberanismo a política externa e a política de defesa. A entidade europeia, assim, não pode assumir-se como uma verdadeira polis.

 

Peter M. Blau

Corrige os extremismos psicologistas e individualistas da teoria da troca social ou do intercâmbio, assumindo o normativismo. Considera que a obrigação dese obedecer a ordens de uma autoridade legítima deriva de uma obrigação inculcada por agentes socializadores. Admite assim um consenso normativo e que as eleições individuais podem até reforçar o consenso. Porque os processos sociais transformam as racionalizações individuais em valores comuns.

· The Dynamics of Bureaucracy, Chicago, The University of Chicago Press,1955.

 

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955)

Padre jesuíta francês, desde 1905. Parte para o Egipto em 1908. Trabalha no laboratório de Paleontologia do Museu de Paris. Em 1918 passa a professor de geologia do Instituto Católico de Paris. Doutor em ciências desde 1922. Parte em 1923 para a China, donde apenas regressa em1945. Em 1926, os superiores jesuítas ordenam-lhe que abandone o ensino no Instituto Católico de Paris. Descobre em 1929 o Sinanthropus. Tenta reconciliar o cristianismo com a ciência, mas as suas obras não são autorizadas pelo Vaticano. Em 1933 é negado o imprimatur a Le Milieu Divine. Em 1938 a L'Enérgie Humaine. Em 1944, Roma proíbe Le Phénomène Humaine, para lá enviado em 1941. Instalado em França de 1946 a 1951, não obtém das autoridades eclesiásticas autorização para poder candidatar-se ao Collège de France, em1948.. Retira-se então para Nova Iorque, onde se instala desde 1951. Um decreto do Santo Ofício de 6 de Dezembro de 1957 determina que os seus livros devem ser retirados das bibliotecas dos seminários e instituições religiosas e não devem ser vendidos em livrarias católicas. Em1962, ainda o Santo Ofício condenava as respectivas teorias. Só em1981 é que o Vaticano as deixou de considerar como heterodoxas.

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 30-04-2009