2000
 

Maio

Prisão de Suharto e federação europeia

 

Putin toma posse como presidente da Rússia (7 de Maio)

Reeleito Alberto Fujimori no Peru (28 de Maio).

Indonésia: preso Suharto (29 de Maio)

Discurso de Joschka Fischer na universidade Humboldt propõe que é tempo de passar da confederação actual à federação, invocando Robert Schuman (12 de Maio)

Cimeira entre EUA e EU em Lisboa (30 de Maio)

Segunda visita de João Paulo II a Portugal, para a beatificação dos pastorinhos de Fátima (13 de Maio). No dia 26 o Vaticano revela o chamado terceiro segredo de Fátima.

 

Fátima – As chamadas aparições de Fátima ocorreram sucessivamente em 13 de Maio, 13 de Junho, 13 de Julho, 19 de Agosto, 13 de Setembro e 13 de Outubro do ano de 1917. A 13 de Julho (30 de Junho do calendário russo de então), a aparição terá dito: se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados. O Santo Padre terá muito que sofrer. Várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á à Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de Paz ... as reticências constituem o já desvendado segredo. Recorde-se que em 31 de Outubro de 1942, o Papa Pio XII, fez essa consagração à Rússia, proclamando: aos povos pelo erro e pela discórdia separados, nomeadamente àqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não sustentasse a vossa Veneranda Ícone (talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor. Acrescente-se que o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, em1951, proclamou o seguinte: Fátima, Altar do Mundo, opõe-se a Moscovo, capital do Reino do Anti-Cristo. Não é só coincidência das datas que tal sugere, é, sobretudo, oposição dos espíritos. Sublinhe-se, contudo, que o cristianismo russo não é católico, apostólico, romano e que em 13 de Julho de 1917 os bolchevistas ainda não estavam no poder. Mais: Portugal, nesse mesmo período de 1917, vivia um processo particularmente traumático de fome, peste e guerra. Em 26 de Janeiro, partia para França o primeiro contingente do Corpo Expedicionário Português. Em Maio atingia-se o ponto alto da crise das subsistências, ocorrendo em 12 de Maio, em Lisboa, a chamada revolta dos abastecimentos. Ao mesmo tempo, dava-se um violento confronto entre o Estado republicano e a Igreja Católica, chegando a ser afastados das respectivas dioceses o bispo do Porto e o cardeal patriarca de Lisboa. O ano vai, aliás, terminar com a ascensão de Sidónio Pais ao poder, na sequência da revolta de 7 de Dezembro. E com o sidonismo vai dar-se um abrandamento da participação portuguesa na Grande Guerra e uma diminuição da tensão entre o Estado e a Igreja. Isto é, o bolchevismo esteve para a Rússia, assim como o sidonismo esteve para Portugal. A diferença talvez esteja entre o Mausoléu de Lenine e a Basílica de Fátima, sinais de pedra semeados na mesma altura, um em nome da Estrela Vermelha, outra consagrando Nossa Senhora de Fátima. Tal como a beatificação de Jacinta e Francisco se aproxima da beatificação do Condestável Nun’Álvares, com o agnóstico Jorge Sampaio a ser tão institucionalmente simpático quanto o foi o seu venerando antecessor no cargo e no espírito, António José de Almeida, já que o crente Almirante Tomás apenas teve direito a presidir à procissão marítima que transportou o coração do maçon D. Pedro IV. Importa, contudo, ser cuidadoso. As explicações pretensamente racionalistas, filhas da cepa físico-matemática, que tentam interpretar a história, mesmo que prenhes de hiper-informação, não conseguem ter a humildade de reconhecer mistérios, segredos e milagres. Ora acontece que as consequências sociais e políticas parecem não alinhar com todos aqueles que pretendem explicar por causa-efeito o que talvez só possa ser compreendido pelos fins que vêm depois do Fim. Mais: os mitos do desenvolvimento e do progresso, que vão impregnando a história dos vencedores têm impedido que as culturas vencidas da vida da nossa Europa possam participar na luta pela mesma vida com a autenticidade do direito à diferença. Estão nestas condições tanto os latinos e os povos de tradição católica, como os eslavos e os povos de tradição ortodoxa, afinal, os mais directos herdeiros dos Impérios Romanos extintos em 476 e 1453. Só podemos pedir à Rússia que se religue à Europa, se dermos à Europa uma dimensão onde possa caber a diferença eslava, ortodoxa e russa. Tal como Portugal apenas poderá ser europeu, se for europeu em Portugal e a partir de Portugal. Os chamados nacionalismos, essas brasas não apagadas que as cinzas dos vários e ineficazes tratados de paz fingiram apagar e que ocasionais sopros dos ventos da história estão a avivar sangrentamente, constituem os tais demónios das paixões identitárias, indomáveis pelas ditaduras racionalistas das boas intenções, muito constitucionalmente demo-liberalistas, muito mercadologicamente capitalistas, ou muito ecologisticamente pós-ideológicas, mas quase sempre hipócritas, porque não conseguem viver nem pensar como dizem pensar. Os antiquados segredos de cozinha dos livros de receitas estrategistas bem como os dicionários da opinião comum que continuam a conformar os opinion makers da nossa aldeia global da informação simultânea, perdidos nas notas de pé de página da hiper-informação, ou subjugados por categorias abstractas e por unidimensionais conceitos operacionais, continuam a confundir as árvores com a floresta, parecendo incapazes de uma compreensiva leitura dos sinais dos tempos. Talvez valha a pena procurar, com realismo, a alma dos povos, mesmo que as sendas de tal perspectiva possam ter que atravessar as areias movediças e os desfiladeiros do mítico e da profecia. Porque todas as revoluções são sempre pós-revolucionárias. Porque o real é apenas a simples relação entre o que foi imaginado e aquilo que é possível dizer. Eis que fica sempre o largo espaço do indizível, a tal zona inapreensível pelos instrumentos da razão a que só o imaginário do simbólico nos pode fazer aceder. Porque, como diz S. Paulo, na Epístola aos Coríntios 1), em parte conhecemos e em parte profetizamos e o que profetiza é maior do que o que fala em outras línguas. Assim, todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam e todos sejam consolados. Só quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido; agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face.

 

 

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©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: