1958

O ano Delgado

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

A campanha de Delgado – Sessão no Café Chave de Ouro, onde o candidato declara: obviamente demiti-lo-ei (referindo-se ao seu procedimento relativamente ao Presidente do Conselho, no caso de uma vitória eleitoral). Mobiliza, no Porto, cerca de 200 000 pessoas na Praça Carlos Alberto (14 de Maio). Regressa a Lisboa, depois de visitar a Póvoa do Varzim, e na capital, a polícia dispara sobre a multidão (16 de Maio), seguindo-se comício no Liceu Camões (18 de Maio).

Sou liberal – Sou liberal e como liberal me dirijo a todos os portugueses que desejem a sua pátria libertada (Humberto Delgado).

Contra a ditadura policial – Condeno o híbrido sistema político tirânico e vingativo que está a arrastar-nos para a pior catástrofe da nossa história... a idolatria da autoridade, o materialismo da obediência passiva... tendo começado por ser uma ditadura administrativa, manhosamente se transformou em ditadura policial, contrária ao destino moral e pessoal do homem... O Estado Novo tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres... para me declarar monárquico não peço licença ao rei nem aos bobos da Corte (Luís de Almeida Braga).

O Chefe de Estado não se discute – Considero que o Chefe de Estado não pode ser discutido nem discutir, pois tem de ser respeitado (Américo Tomás)

Retirada de Cunha Leal e Arlindo Vicente – Cunha Leal comunica nos microfones do Rádio Clube Português que retira o seu projecto de candidatura, apoiando Humberto Delgado. Anunciada também a retirada de Arlindo Vicente, depois do acordo feito em Cacilhas com Delgado (noite de 29 para 30 de Maio). Cunha Leal havia sido proposto pelos membros da comissão informal que liderara o processo da campanha eleitoral da oposição do ano anterior, com destaque para Cruz Ferreira, Manuel Sertório, Manuel João da Palma Carlo e Constantino Fernandes. A proposta tem o imediato apoio dos comunistas bem como de Nuno Rodrigues dos Santos que, por esta razão, entra em conflito com o Directório Democrato-Social.

Os verdadeiros nacionalistas – Um governo autoritário, que vive à custa do silêncio dos adversários e nega os direitos do cidadão... pode impor-se num país de escravos, nunca a um povo que teve de lutar com extremos de bravura para fundar a sua independência e expandir-se no mundo. Nada de um português do velho cerne pode perdoar do que reduzirem-nos à condição de menor. É deste fundo de oito séculos de Nação que os portugueses aclamam o candidato independente. E por uma razão apenas: porque ele lhes prometeu, por forma heróica, as liberdades a que tem direito. Os verdadeiros nacionalistas são os partidários do general Humberto Delgado (Jaime Cortesão)

Intentona – Estaria marcada para 2 de Junho uma revolta militar, coordenada por Delgado, mas o general, desde o dia 31 de Maio, sabia que ela tinha sido desmobilizada.

Presidente não tem programa – Não tem a União Nacional nem tem o seu candidato de apresentar um programa e a respeito dele abrir um debate inoportuno e desprovido de sentido... O candidato a Presidente da República só pode ter um programa: cumprir a Constituição e as obrigações que derivam da sua letra e do seu espírito, na obediência aos princípios que nela se consignam e na fidelidade do imperativo do bem comum que as Forças Armadas proclamaram em 28 de Maio de 1926 (Comunicado da União Nacional, sobre a candidatura de Américo Tomás)

Eleições (8 de Junho). A oposição é impedida de fiscalizar as mesas de voto. O Supremo Tribunal de Justiça proclama os resultados do sufrágio: 75% para Tomás, 23% para Delgado... Salazar desabafa para colaboradores: se a campanha de Delgado se tivesse prolongado por mais um ou dois meses, ele tinha ganho as eleições (Setembro).

Um processo subversivo – A campanha das oposições não foi propriamente de propaganda do candidato à Presidência da República, mas o desenvolvimento de um processo subversivo (Salazar).

Os inimigos da inteligência – O regime do Estado Novo é um permanente inimigo da inteligência nacional... as ditaduras, por muito que durem, são um regime sem futuro, defendendo um regime de pão e liberdade para todos (Ferreira de Castro).

Protestos contra a burla – Humberto Delgado decide criar o Movimento Nacional Independente (18 de Junho). A reunião decorre na casa de António Sérgio, participando os representantes nacionais e locais da candidatura. O movimento assume-se como organização civil de indivíduos e não de grupos, repetindo programa da candidatura de Delgado e declarando opor-se a todas as concepções totalitárias e à inclusão na sua organização de qualquer grupo, seita ou partido. Greve de protesto contra a chamada burla eleitoral iniciada no Couço e mobilizando rurais (23 de Junho). Dura cerca de 8 dias. A GNR cerca a vila e leva a cabo várias detenções.

Católicos em rebeldia – Carta do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes a António de Oliveira Salazar, onde se tecem duras críticas à falta de autenticidade corporativista e social-cristã do regime (13 de Junho). A missiva levará, depois, o prelado ao exílio, donde só regressa com Marcello Caetano. O Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, entra em conflito directo com Salazar e chama-lhe chefe manhoso e terrível (Setembro). Também em Maio, há uma carta dirigida por um grupo de católicos ao jornal Novidades, onde se critica o apoio dado por este órgão oficioso da Igreja Católica ao Estado Novo. Subscrita por personalidades que depois se vão destacar como militantes do PS (João Gomes, Manuel Serra, Nuno Portas), do MDP (Mário Murteira e Francisco Pereira de Moura) e do MES (Nuno Teotónio

 

Vasco Lopes Alvesö sucede a Raúl Ventura no ultramar, com este desgastado por uma polémica com Francisco da Cunha Leal, desde Maio, apesar de ter o apoio de Adriano Moreira; Ferreira Dias na economia; Pires Cardoso no interior; Henrique Martins de Carvalho na saúde (até 4 de Dezembro de 1962). Carlos Gomes da Silva Ribeiro nas comunicações; Marcelo Matias nos estrangeiros. Mantêm-se Pinto Barbosa, nas finanças, bem como Antunes Varela, na justiça, Veiga de Macedo, nas corporações, e Arantes e Oliveira, nas obras públicas. Baltazar Rebelo de Sousa é o único marcelista a ficar no governo, mas com a morte na alma, segundo palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, para quem Salazar não tem sucessor, o regime é dele e para ele, não sai porque sabe que não pode sair, só que não pode sair, se sair o seu regime desmorona-se, porque é seu e só seu, e sabe disso.

Em 6 de Dezembro surge a XII comissão executiva da União Nacional, presidida por Castro Fernandes, com Costa Brochado, António Pinto Mesquita e Henrique Tenreiro, cabendo a este último o controlo do Diário da Manhã. Integram também a equipa Rogério Vargas Moniz e José Idalino da Costa Brochado. E Salazar comete a heresia de dar um segundo aumento aos funcionários públicos da década (17 de Dezembro).

Incidentes, prisões e intentonas – Agitação em Beja, com a morte de um operário (30 de Julho). Em 26 de Setembro é preso um escriturário dos Hospitais Civis de Lisboa, Carlos Paredes (1925-2004), o genial guitarrista, condenado e libertado em 1959, desde sempre activista do PCP. Incidentes em Lisboa junto à estátua de António José de Almeida: polícia ataca manifestantes com gás lacrimogéneo. Delgado participa na manifestação com Arlindo Vicente, António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes (5 de Outubro). Nota oficiosa do Governo anuncia que não autoriza o deputado trabalhista britânico Aneurin Bevan a visitar Portugal, a fim de realizar uma conferência, para que teria sido convidado pela oposição (11 de Novembro). A comissão de recepção, constituída por Humberto Delgado, Francisco Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, Mário de Azevedo Gomes e António Sérgio, depois de protestar formalmente, acaba toda ela detida (22 de Novembro). Também Henrique Galvão se encontra preso no Hospital Santa Maria (Setembro). Chega a ser planeada uma intentona delgadista, com Manuel Serra e o capitão Almeida Santos, sendo marcada para o efeito a data de 28 de Dezembro. Prisão de dirigentes comunistas como Jaime Serra e Pedro Soares. Refira-se que em1958 e 1959 são presos 40 funcionários deste partido e assaltadas vinte casas clandestinas, com destruição de tipografias.

 

& Alves, José Felicidade: 14, 19; Caetano, Marcello (1977): 466, 546, 550, 569, 576, 584; Cardoso, Sá (1973): 185 ss.; Costa, Ramiro da (II): 132; Cruz, Manuel Braga da (1998): 114; Delgado, Humberto: 87, 99, 100, 103, 105, 106, 107, 109, 135, 137, 138, 139; Melo, Gonçalo de Sampaio e Melo (1984): 43; Nogueira, Franco (IV): 14, 493; (HP): 97; Pinto, Jaime Nogueira (I,1976): 60; Presos Políticos no Regime Fascista 1952-1960: 229 ss. (559 presos); Soares, Mário (1972/1974): 243; Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 112 ss., 117, 119; Tomás, Américo (III): 17. Foi Outubro de 1958 que iniciámos a nossa vida escolar, na escola primária mista de Casconha, freguesia de Cernache, tendo como professora uma senhora D. Clotilde, que nos ensinou a ler, escrever e contar e nos dava algumas reguadas. Na parede da sala de aula, lá estavam os retratos de Salazar e de Craveiro Lopes, antes de chegar o de Américo Tomás, e sob esta vigilância paternal, lá começámos o a,e,i,o,u e a tabuada, depois de vermos os cartazes com as caras dos candidatos nas paredes da terra e de ouvirmos o senhor Prior, na missa, a anunciar muito objectivamente os resultados eleitorais. Os miúdos iam dizendo em quem os pais votaram, surgindo uma espécie de facções à maneira do clubismo desportivo, sem qualquer espécie de tensão ou medo. O meu pai nunca me disse em quem votou. Só em1974 me revelou que tinha votado em Delgado. Lembro-me perfeitamente de ter ouvido que o papa havia morrido, quando eu não sabia ainda bem quem era o papa.

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: