1958

Da eleição de João XXIII ao regresso de Charles de Gaulle

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Da eleição de João XXIII ao regresso de Charles de Gaulle –No ano da morte de Fernando Campos, Armando Marques Guedes e Joaquim de Carvalho, destaque para o livro de poesia de Alexandre O’Neil, No Reino da Dinamarca, e para a primeira edição dos Princípios de Doutrina Social, de Adérito Sedas Nunes, prefaciados pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, quando Álvaro Ribeiro publica Escola Formal e surge o romance de Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam. Já José Júlio Gonçalves analisa O Mundo Árabo-Islâmico e Jorge Dias coordena o lançamento do Colóquio sobre a Metodologia das Ciências Sociais. Martinho Nobre de Melo assume a direcção do jornal Diário Popular, funções onde se mantém até1974. Na Faculdade de Direito de Lisboa, António Truyol y Serra publica Génèse et Fondements Spirituels de l’Idée d’une Communauté Universelle. Neste ano, quando 160 milhões de pessoas se irmanam num mercado comum, como seis povos, uma família, para o bem de todos, conforme o slogan de lançamento do processo do mercado comum, sobe ao pontificado, o patriarca de Veneza desde 1953 Ângelo Roncalli, com o nome de João XXIII (28 de Outubro), depois da morte de Pio XII, papa desde 1939. Enquanto se realiza em Bruxelas uma Exposição Universal sob o signo do átomo, cria-se a NASA (27 de Julho), dá-se um golpe nasseriano no Iraque (14 de Julho) e, na China maoísta, instauram-se as comunas populares (29 de Agosto), iniciando-se o grande salto em frente. Já a Europa ainda tem que resolver os seus contenciosos coloniais, com a França a viver dramaticamente a crise argelina. Com a entrada em vigor do Tratado de Roma, configuram-se três comunidades europeias, cada qual com a sua comissão, apesar de haver um só Tribunal de Justiça (instalado em 07-10-1958, sob a presidência do holandês Andreas Mathias Donner) e se instituir uma única assembleia. A Alta Autoridade da CECA passa a ser presidida pelo belga P. Finet. Para a comissão da CEE é designado o alemão Walter Hallstein, acompanhado, entre outros, pelo belga Jean Rey, pelo francês Robert Marjolin e pelo holandês Sicco Mansholt. Para a comissão da CEEA, é designado o francês Louis Armand. Já para a Assembleia comum, é eleito Robert Schuman (19 de Março) e a instituição passa a designar-se Assembleia Parlamentar Europeia (20 de Março), com os deputados a constituírem grupos políticos, deixando de serem congregados por país de origem (13 de Maio). Não tarda que adopta uma resolução (27 de Junho), onde se proclama que as três comunidades europeias surgem de uma só ideia politica e constituem três elementos de uma construção unitária. Daí se ter rejeitado a zona de comércio livres proposta pela OECE (15 de Dezembro). Entretanto, é convocada para Stresa uma conferência agrícola (3 a 11 de Julho), preparando-se aquilo que será a política agrícola comum, enquanto se constitui o COPA (06 de Setembro), o Comité de Organizações Profissionais da CEE. Finalmente, refira-se a entrada em vigor do Acordo Monetário Europeu (29 de Dezembro) que substitui a União Europeia de Pagamentos. Entretanto, o socialista belga e secretário-geral da NATO, Paul-Henri Spaak, visita Lisboa, em 30 de Outubro, e declara que a ameaça comunista é hoje mãos africana do que europeia e talvez mais económica e social do que militar.

Da condição humana aos donos do poder – Vive-se a era da affluent society (John Kenneth Galbraith,1958), que continua a angustiar a human condition (Arendt,1958), quando os Encontros Internacionais de Genebra reflectem sobre o homem e o átomo e José Luís Aranguren (1909-1996) publica a sua Ética. No Brasil, Raymundo Faoro publica a sua primeira versão de Donos do Poder, onde, utilizando categorias weberianas, analisa a formação do patronato político brasileiro. Jean Meynaud analisa Les Groupes de Préssion en France. Claude Lévi-Strauss publica Anthropologie Structurale, Milovan Djilas analisa Land Witghout Justice e Dean Acheson destaca-se com Power and Diplomacy. Estamos num tempo em que Eric Voeglin publica o terceiro volume de Order and History, onde analisa o pensamento de Platão e Aristóteles e Isahia Berlin, professor em Oxford desde 1957, se destaca com Two Concepts of Liberty. Michael Young em The Rise of Meritocracy, defende a necessidade de um modelo dito de meritocracia, do governo daqueles que têm mérito, numa sociedade onde o poder é exercido pelos melhores, por aqueles que têm mais talento ou melhor preparação e que o obtêm pela competição e pela selecção, não pela herança ou pela mera pertença a uma determinada classe, mas antes como consequência do princípio da igualdade de oportunidades. Destaque para a análise The Uniting Europe, de Ernst B. Haas, subtitulada Political, Social and Economical Forces.1950-1957 e para The Affluent Society, de Galbraith, obra onde, analisando-se a evolução norte-americana, se considera que se atingiu uma era da opulência, um estádio de desenvolvimento económico onde o objectivo já não deve ser o da produção de mais bens de consumo, mas antes o do aperfeiçoamento dos serviços públicos.

Dos Princípios de Doutrina Social à Metodologia das Ciências Sociais – Já em Portugal, no ano da morte de Fernando Campos, Armando Marques Guedes e Joaquim de Carvalho, destaque para o livro de poesia de Alexandre O’Neil, No Reino da Dinamarca e para a primeira edição dos Princípios de Doutrina Social, de Adérito Sedas Nunes, prefaciados pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, quando Álvaro Ribeiro publica Escola Formal e surge o romance de Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam. Já José Júlio Gonçalves analisa O Mundo Árabo-Islâmico e Jorge Dias coordena o lançamento do Colóquio sobre a Metodologia das Ciências Sociais. Na Faculdade de Direito de Lisboa, António Truyol y Serra publica Génèse et Fondements Spirituels de l’Idée d’une Communauté Universelle, enquanto o seu compatriota Pablo Lucas Verdú lança, em Barcelona Introducción al Derecho Político.

   
1958

O ano Delgado

Da eleição de João XXIII ao regresso de Charles de Gaulle ä Golpe pró-nasseriano no Iraque ä Comunas populares na China ä Exposição Universal de Bruxelas ä Criação da NASA

Da condição humana aos donos do poder

Dos Princípios de Doutrina Social à Metodologia das Ciências Sociais Eleições

Carta do Bispo do Porto (13 de Julho)

M Greve (Junho) ä Agitação dos militares craveiristas (Agosto) ä Críticas de D. Sebastião Garcia Resende (Setembro) ä Incidentes em Lisboa (5 de Outubro) ä Incidente Aneurin Bevan ä Prisão de dirigentes comunistas ä Intentona delgadista ä Campanha eleitoral intensa, com a candidatura mobilizadora de Humberto Delgado. Chega a lançar-se, com o apoio dos comunistas, a candidatura de Arlindo Vicente, que desiste em favor de Delgado.

1 ep (Junho). Vitória do candidato da União Nacional, Américo Tomás

µ Delgado cria o Movimento Nacional Independente ä Cartas abertas de católicos críticos ä UPA

¤ Em 14 de Agosto: saem do governo Santos Costa e Marcello Caetano; O primeiro é substituído na defesa por Júlio Botelho Moniz; O segundo é substituído por Pedro Teotónio Pereira (que só toma posse a 9 de Setembro); Almeida Fernandes no exército; Mendonça Dias na marinha; Lopes Alves substitui Raúl Ventura no ultramar; Ferreira Dias substitui Ulisses Cortês na economia; Pires Cardoso no interior; Henrique Martins de Carvalho assume a pasta da saúde (até 4 de Dezembro de 1962). Carlos Gomes da Silva Ribeiro nas comunicações; Marcelo Matias nos estrangeiros. Mantêm-se Pinto Barbosa, nas finanças, bem como Antunes Varela, na justiça, Veiga de Macedo, nas corporações, e Arantes e Oliveira nas obras públicas.

 

 

 


1958
 

 

1958
Da eleição de João XXIII ao regresso de Charles De Gaulle

De Gaulle regressa ao poder

Golpe pró-nasseriano no Iraque

Novo papa: João XXIII

Comunas populares na China

Entra em vigor o Tratado de Roma

Egipto e Síria instituem a República Árabe Unida

Gande Salto em Frente na China

Independência de Singapura

Criação da NASA

Referendo institui a V República em França

Coudenhove Kalergi, em 1924

A questão europeia é esta: será possível que, na pequena quase-ilha europeia, vinte e cinco Estados vivam lado a lado na anarquia internacional, sem que um tal estado de coisas conduza à mais terrível catástrofe política, económica e cultural? O futuro da Europa depende da resposta que seja dada a esta pergunta. Está portanto nas mãos dos Europeus. Vivendo em Estados democráticos, somos todos responsáveis pela política dos nossos Governos. Não temos o direito de nos limitar à crítica, temos o dever de contribuir para a elaboração dos nossos destinos políticos. Não podemos cansarmo-nos de repetir esta verdade simples: uma Europa dividida conduz à guerra, à agressão, à miséria, uma Europa unida conduz à paz, à prosperidade

Temos a convicção que a cooperação estreita entre a RFA e a França é o fundamento de qualquer obra construtiva na Europa. Pensamos que esta cooperção deve ser organizada e, ao mesmo tempo, incluir as outras nações da Europa ocidental com as quais os dois países têm laços estreitos

(Declaração conjunta de Adenauer e De Gaulle).

Carta de Jean Monnet a Adenauer

Temporariamente, na situação actual, e para estas novas questões, penso que a cooperação é uma etapa necessária. Ela representará um progresso, sobretudo se o conjunto europeu, comunidades integradas e organização da cooperação - embora diferentes - forem incluídas num mesmo conjunto, uma "confederação europeia"

 

No ano de 1958, quando 160 milhões de pessoas se irmanam num mercado comum, seis povos, uma família, para o bem de todos, conforme o slogan de lançamento do processo, sobe ao solo pontifício, o patriarca de Veneza desde 1953 Ângelo Roncalli (1881-1963), com o nome de João XXIII (28 de Outubro de 1958), depois da morte de Pio XII, papa desde 1939. Enquanto se realiza em Bruxelas uma Exposição Universal sob o signo do átomo, cria-se a NASA (27 de Julho de 1958), dá-se um golpe nasseriano no Iraque (14 de Julho de 1958), instauram-se as comunas populares (29 de Agosto de 1958) e inicia-se o grande salto em frente na China maoísta, enquanto a Europa ainda tem que resolver os seus contenciosos coloniais, com a França a viver dramaticamente a crise argelina.

Da condição humana aos donos do poder

Vive-se a era da affluent society (John Kenneth Galbraith, 1958), que continua a angustiar a human condition (Arendt,1958), quando os Encontros Internacionais de Genebra reflectem sobre o homem e o átomo e José Luís Aranguren (1909-1996) publica a sua Ética. No Brasil, Raymundo Faoro publica a sua primeira versão de Donos do Poder, onde, utilizando categorias weberianas, analisa a formação do patronato político brasileiro. Jean Meynaud analisa Les Groupes de Préssion en France. Claude Lévi-Strauss publica Anthropologie Structurale, Milovan Djilas analisa Land Witghout Justice e Dean Acheson destaca-se com Power and Diplomacy. Estamos num tempo em que Eric Voeglin publica o terceiro volume de Order and History, onde analisa o pensamento de Platão e Aristóteles e Isahia Berlin, professor em Oxford desde 1957, se destaca com Two Concepts of Liberty. Michael Young em The Rise of Meritocracy, defende a necessidade de um modelo dito de meritocracia, do governo daqueles que têm mérito, numa sociedade onde o poder é exercido pelos melhores, por aqueles que têm mais talento ou melhor preparação e que o obtêm pela competição e pela selecção, não pela herança ou pela mera pertença a uma determinada classe, mas antes como consequência do princípio da igualdade de oportunidades. Destaque para a análise The Uniting Europe, de Ernst B. Haas, subtitulada Political, Social and Economical Forces.1950-1957 e para The Affluent Society, de Galbraith, obra onde, analisando-se a evolução norte-americana, se considera que se atingiu uma era da opulência, um estádio de desenvolvimento económico onde o objectivo já não deve ser o da produção de mais bens de consumo, mas antes o do aperfeiçoamento dos serviços públicos.

I Conferência de Solidariedade Afro-Asiática do Cairo

Depois, entre 27 de Dezembro de 1957 e 1 de Janeiro de 1958, surge a I Conferência de Solidariedade Afro-Asiática do Cairo, já com a participação soviética, através das repúblicas asiáticas da União, onde se vai proclamar o anticolonialismo, como principal ponto de referência do antiocidentalismo. Diga-se, a este respeito, que a reunião do Cairo ainda foi marcada por certa indecisão, dado ter predominado um sentimento de raiva contra o desembarque franco-britânico no Suez e a postura francesa na crise argelina. Veja-se, por exemplo, o discurso do presidente da conferência, Anwar al Sadat que, expressamente proclama: nós, egípcios, acreditamos no neutralismo e no não-alinhamento. Acreditamos que, adoptando esta atitude, contribuímos para a aproximação entre os dois blocos e criamos uma vasta área de paz que se imporá pouco a pouco a todo o mundo.

Europa

Com a entrada em vigor do Tratado de Roma, configuram-se três comunidades europeias, cada qual com a sua comissão, apesar de haver um só Tribunal de Justiça (instalado em 07 de Outubro de 1958, sob a presidência do holandês Andreas Mathias Donner) e se instituir uma única assembleia.

A Alta Autoridade da CECA passa a ser presidida pelo belga P. Finet. Para a comissão da CEE é designado o alemão Walter Hallstein, acompanhado, entre outros, pelo belga Jean Rey, pelo francês Robert Marjolin e pelo holandês Sicco Mansholt. Para a comissão da CEEA, é designado o francês Louis Armand (1905-1971). Já para a Assembleia comum, é eleito Robert Schuman (19 de Março de 1958) e a instituição passa a designar-se Assembleia Parlamentar Europeia (20 de Março de 1958), com os deputados a constituírem grupos políticos, deixando de agrupar-se por país de origem (13 de Maio de 1958).

Não tarde que adopta uma resolução (27 de Junho de 1958), onde se proclama que as três comunidades europeias surgiram de uma só ideia politica e constituem três elementos de uma construção unitária. Daí se ter rejeitado a zona de comércio livres proposta pela OECE (15 de Dezembro de 1958). Entretanto é convocada para Stresa uma conferência agrícola (3 a 11 de Julho de 1958), preparando-se aquilo que será a política agrícola comum, enquanto se constitui o COPA (6 de Setembro de 1958), o Comité de Organizações Profissionais da CEE. Finalmente, refira-se a entrada em vigor do Acordo Monetário Europeu (29 de Dezembro de 1958) que substitui a União Europeia de Pagamentos.

Europa

A questão britânica

Como primeira táctica, tenta um directório franco-britânico para, a partir da NATO, controlar o processo do projecto europeu. Mas, face à frontal recEstados Unidos norte-americana, apoiada pelos britânicos, não tarda que relembre antigas afrontas daqueles que vai zurzindo como os anglo-saxons, exactamente os mesmos que o não deixaram tomar assento em Yalta.

Face ao fracasso o Presidente da República francês ainda tenta a aproximação ao Reino Unido, visando a construção de um directório franco-britânico que servisse de pilar a este desejo europeísta.

Logo em 17 de Setembro de 1958, Charles de Gaulle elabora um memorando que endereça tanto ao primeiro-ministro britânico, MacMillan, como ao presidente norte-americano, Eisenhower, onde propõe que a NATO passe a ser dirigida pelas três principais potências, que à escala política e estratégica mundial seja instituída uma organização compreendendo: os Estados Unidos, a Grã Bretanha e a França GROSSER, pp. 241-242

A resposta norte-americana não se faz tardar (20 de Outubro de 1958) não se poderia adoptar um sistema que daria asos nossos outros aliados ou a outros países do mundo livre a impressão que decisões fundamentais, susceptíveis de afectar os seus próprios interesses vitais são tomadas sem a respectiva participação GROSSER, p. 243

Assim, trata de vetar a adesão do Reino Unido à CEE, primeiro em1963 e, depois, em1967, acusando britânicos de, depois de não terem conseguido impedir o nascimento da comunidade, projectarem agora paralisá-la a partir de dentro DE Gaulle, p. 179. Uma desconfiança directamente proporcional à experimentada pelos governos de Londres que, pela voz de Macmillan, consideravam que o Mercado Comum é o bloqueio continental e a Inglaterra não o aceita!

Europa

Depois, ensaia, com êxito inicial, uma aproximação à República Federal da Alemanha, pelo diálogo com Konrad Adenauer. E, com ele, institui uma cooperação estreita que passará a ser um dos fundamentais pilares do projecto europeu.

Foi em 14 e 15 de Setembro de 1958, dois dias antes do memornado que De Gaulle recebeu na sua casa de La Boisserie, em Colombey-les-deux-Églises, o chanceler alemão. Como ele conta na suas Memórias da Esperança, convinha dar um carácter excepcional ao encontro e... para a conversação histórica entre um velho francês e um muito velho alemão, em nome dos dois povos respectivos, o ambiente de uma mansão familiar terá maior significado do que o que teria o cenário de um palácio CHARLES DE Gaulle, Memórias da Esperança, p. 166

De Gaulle insurgia-se contra a Europa como construção apátrida (Id. p. 169) e Konrad Adenauer terá concordado com ele quanto ao princípio de não confundir as políticas respectivas dos dois países, como haviam pretendido os teóricos da CECA, do Eurátomo e da CED, mas, pelo contrário, de reconhecer que as situações são muito diferentes e de construir sobre essa realidade Id., p. 168.

O comunicado final é explícito: temos a convicção que a cooperação estreita entre a República Federal da Alemanha e a França é o fundamento de qualquer obra construtiva na Europa. Pensamos que esta cooperção deve ser organizada e, ao mesmo tempo, incluir as outras nações da Europa ocidental com as quais os dois países têm laços estreitos Id. pp. 87-88. A partir daí e até1962 os dois homens de Estado vão encontrar-se mais quinze vezes.

Monnet, Adenauer e De Gaulle

O próprio Monnet acaba por aceitar esta intermediação da cooperação, como etapa necessária. Não só escreve a Konrad Adenauer aconselhando-lhe que entre na via proposta por de Gaulle, como apoia publicamente o general em questões de política interna. Considerava então que não poderia estabelecer-se a Europa sem o reforço da autoridade dos executivos, porque sem esta ficar estabelecida não se poderiam delegar poderes da soberania. Até critica as atitudes de belgas e holandeses, quando estes rejeitam a proposta do Plano Fouchet, acusando-os de integrismo supranacional.

Em 21 de Novembro, numa carta dirigida a Konrad Adenauer, comenta: temporariamente, na situação actual, e para estas novas questões, penso que a cooperação é uma etapa necessária. Ela representará um progresso, sobretudo se o conjunto europeu, comunidades integradas organização da cooperação - embora diferentes - forem incluídas num mesmo conjunto, uma "confederação europeia" DUVERGER, p. 88.

Monnet que tantos conflitos políticos tivera com De Gaulle, não deixava de reconhecer que as relações pessoais com o general tinham sido boas no passado e poderiam continuar a ser no futuro para o maior proveito da Europa p.84.

E foi por instinto de legítima defesa europeia que o mesmo Monnet apoiou De Gaulle no regresso de 1958, votando a favor da respectiva constituição, e explicando-o num artigo publicado no Le Monde DUVERGER, p. 84.

Contra o integrismo supranacional

Também em1962 vai voltar a votar a favor do general no referendo sobre a eleição do Presidente da República por sufrágio directo.

E justifica esta última atitude, considerando que se tratava de uma medida que tendia a dar ao poder executivo uma maior legitimidade, o que facilitaria a construção da Europa, dado considerar necessário que a autoridade esteja bem estabelecida para delegar a soberania p.84.

Não será pois de estranhar que o mesmo Monnet, nas suas memórias, se tenha insurgido contra o integrismo supraancional de Joseph Luns e Paul-Henri Spaak, na sequência da rejeição do Plano Fouchet: não compreendi porque é que os holandeses e os belgas fechavam a via aos progressos políticos da Europa numa altura em que ainda era possivel obtê-los p.89.

The Uniting Europe de Ernst B. Haas

Obra subtitulada Political, Social and Economical Forces. 1950-1957, sobre o choque gaullista e o consequente desaparecimento do motor federalista, ao mesmo tempo que começavam a pôr-se em causa os próprios mecanismos do Welfare State do pós-guerra

Haas modifica a sua anterior teoria, temperando o determinismo sócio-económico e reconhecendo que a lógica da integração funcional já não seria automática, mas probabilista: trata-se de um processo frágil, susceptível de voltar atrás e a sua evolução dependeria de muitas variáveis, entre as quais destaca o poder das lealdades nacionais e das lideranças, as quais poderiam ser distintas dos automatismos integracionistas.

Por outras palavras, a Comunidade passa a ser perspectivada segundo o velho modelo realista da balança de poderes, sendo entendida como um equilíbrio entre forças integracionistas e forças anti-integracionistas. A integração deixa de ser mero processo que não tinha referência a um fim político e trata de mergulhar de novo no domínio dos valores, nomeadamente nos da democracia e do Estado de Direito, o que, para além das lideranças políticas, implica o próprio apelo à participação dos cidadãos..

A Argélia e a República

Foi em 13 de Maio que se deu a insurreição dos generais em Argel, comandada por Raoul Salan que chega a formar um comité de salvação pública.

Clamando por uma Algérie Française, formaram um comité de salvação pública que se insurgiu contra o governo de Paris.

Quinze dias depois, o Presidente Coty pedia a Charles De Gaulle para suceder a Pierre Pflimlin, como chefe do governo. Em 2 de Junho de já De Gaulle assumia a função do ditador clássico obtendo plenos poderes da Assembleia Nacional.

Dois dias depois já visitava a Argélia, onde procurando acalmar a revolta dos pieds noirs vai proclamar que os argelinos são dix millions de Français à part entière , ao mesmo tempo em que ainda dava um Vive l’Algérie Française (4 de Julho de 1958), conforme o que fora votado parlamentarmente em 31 de Janeiro de 1951, com a Argélia a ser considerada parte integrante da República Francesa, mas dotada de personalidade própria (ver Raymond Aron, L’Algérie et la Republique, Paris, Plon,1958).

Depois de um novo governo (7 de Julho), onde se destacam André Malraux, nos assuntos culturais, Antoine Pinay nas finanças, e Jacques Soustelle, na informação, é institucionalizada a Quinta República, através de um referendo (28 de Setembro de 1958), que também cria uma Comunidade Francesa, apenas rejeitada na Guiné-Conakry.

Seguem-se as eleições legislativas (1 de Dezembro), com a inevitável maioria do novo partido gaullistas, Union pour la Nouvelle Republique (126 lugares, contra 30 do MRP, 19 da SFIO e 6 do PCF), terminando o ano com a eleição de de Gaulle para presidente (21 de Dezembro).

Médio Oriente

Estamos num ano em que o Egipto e a Síria, com a criação da República Árabe Unida (21 de Fevereiro), tentam a institucionalização de uma nação árabe e em que a Espanha cede a Marrocos a parte norte do Saara (1 de Abril de 1958), enquanto de 15 a 22 de Abril de 1958 se reúnem em Acra, sob a inspiração de Nkrumah, a Libéria, a Etiópia, o Egipto, a Síria, a Líbia, o Sudão, Marrocos, Tunísia e Gana, na I Conferência dos Estados Africanos Independentes, onde se subscrevem os princípios adoptados, três antes, em Bandung, e se decide o apoio aos movimentos nacionalistas africanos.

No Iraque, a monarquia é entretanto derubada (14 de Julho), subindo ao poder mais um regime de inspiração baasista, liderado pelo general Kassem que mata o próprio rei Faiçal II e se retira do Pacto de Bagdad em Março de 1959, quando no regime se dava uma crescente influência dos comunistas. O país tinha obtido independência completa em 03 de Outubro de 1932, depois de Fayçal primeiro ter sido proclamdo rei do Iraque em 23 de Agosto de 1921, sob protecção do mandato britânico instituído em Abril de 1920, que aí mantiveram um alto-comissário. Depois de aí se ter descoberto petróleo em 1927, o país passou a ser dominado pela Iraq Petroleum C., com sede em Londres, reunindo a BP, a Shell, a Standard Oil, a Mobil e a Compagnie Française des Pétroles, mas onde Calouste Gulbenkian detinha os famosos 5%.

Ásia

No Paquistão sobe ao poder o general Ayoub Khan, que aí se mantém até1969.

No Laos o governo liderado pelo Pathet Lao, onde participavam comunistas, é derubado (23 de Julho de 1958), instaurando-se uma ditadura militar.

África

A Guiné-Conakry, depois de recusar a integração na Comunidade Francesa, obtém a independência em 02 de Outubro de 1958, tornando-se presidente Ahmed Sékou Touré que, em nome do neutralismo positivo vai estabelecer um regime de partido único, o Partido Democrático da Guiné, dizendo preferir a pobreza com liberdade à riqueza com escravatura. De Gaulle, ofendido, manda retirar imediatamente os quadros ténicos aí instalados, desactiva as instalações industriais e bloqueia as trocas comerciais. Mais do que isso: entende que o processo da colonização chegara ao fim, quando aqueles africanos recusam a honra da cidadania francesa.

No Togo, Sylvanus Olympio, líder da Unité Togolaise, ganha as eleições em nome de um programa independentista moderado.

No Congo Belga cresce a influência do Movimento Nacional Congolês e o respectivo líder, Patrice Lumumba, num discurso pronunciado em 10 de Outubro de 1958, proclama que a independência não é um presente da Bélgica, mas um direito fundamental do povo congolês.

Na África do Sul, em1958, dá-se uma dissidência no ANC, com os radicais, contrários à política multirracial do movimento, a formarem um Congreso Panafricano (PAC).

América central

Em Cuba, os guerrilheiros de Fidel começam o cerco a Havana, em Dezembro de 1958,

No Haiti mantém-se a ditadura de François Duvalier, cujas forças armadas são, nesse ano, apoiadas pelos norte-americanos.

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: