1967

Hippies, morte de Che Guevara e transplante de um coração

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Hippies, morte de Che Guevara e transplante do coração – Há dois vetos gaullistas à adesão britânica à CEE (16 de Maio e 27 de Novembro) e dá-se o fim do Kennedy Round, por acordo com os Estados Unidos para o abaixamento das taxas aduaneiras (16 de Maio). Entra em vigor do Tratado de Bruxelas de 1965, com a fusão das três comunidades europeias e com o belga Jean Rey a assumir-se como novo presidente da comissão, em substituição de Walter Hallstein (1 de Julho). Assinale-se o desenvolvimento dos hippies, a Guerra dos Seis Dias (de 5 de Outubro a 10 de Junho), com os israelistas a ocuparem a totalidade de Jerusalém, o Sinai e os montes Golan, bem como a morte de Ernesto Che Guevara na Bolívia (9 de Outubro). O autor de La Guerra de Guerrilla (1960), onde se teoriza o foquismo, a criação de um foco insurreccional que, irradiando, poderia fazer a revolução em todo um território nacional, afinal não consegue aplicar a teoria fora de Cuba. Che Guevara, sem unificar os mineiros, estudantes e camponeses bolivianos contra o general Barrientos, acaba como pessoa, embora passe a atingir a eternidade do mito da revolução perdida. O filósofo francês Régis Debray, que então o acompanha no terreno, para também comprovar as teses do seu Révolution dans la Révolution?, também cai nas malhas do poder boliviano e acaba detido. Condenado a trinta anos de prisão, virá, contudo, a ser libertado em1970. Morre Adenauer (19 de Abril) e o médico sul-africano, Christian Barnard faz o primeiro transplante cardíaco (03 de Dezembro). Os chineses, em plena Revolução Cultural, fazem explodir a sua primeira bomba de hidrogéneo (17 de Junho) e o Papa Paulo VI emite a encíclica Populorum Progressio (28 de Março), enquanto, no âmbito da corrida espacial, importa assinalar o acidente que vitimou três astronautas norte-americanos (27 de Janeiro), quando também começa a secessão do Biafra (30 de Maio) e continuam sangrentos incidentes raciais nos Estados Unidos.

A desconstrução pós-moderna. É então que emerge Jacques Derrida (1930), com L´Écriture et la Différence, base de certa leitura pós-moderna, quando teoriza a desconstrução, invocando a fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger. Porque o entendimento apenas é provisório, dado que há um infinito processo de reinterpretação, baseado na interacção entre o leitor e o texto. Entre nós, destaque para Manuel Alegre que lança O Canto e as Armas. Já Guilherme Braga da Cruz é feito doutor honoris causa pela Universidade de Navarra, numa altura em que, entre nós, colaboram directamente com a congregação João Morais Barbosa, Adelino Amaro da Costa e Francisco Oliveira Dias. Já o presidente Américo Tomás faz, durante três dias, uma caçada em Espanha, a convite do generalíssimo Franco. Matam 968 perdizes, três lebres e uma raposa...

   

Recuo gaullista nas legislativas

Morte de Che Guevara

Prisão de Régis Debray

Kennedy Round

Acordo sobre a cooperação pacífica no espaço cósmico entre USA, Reino Unido e URSS (Janeiro)

Golpe dos Coronéis na Grécia (Abril)

Reino Unido, Irlanda e Dinamarca pedem formal adesão à CEE (Maio)

Proclamada a independência do Biafra (Maio)

Guerra dos Seis Dias (Junho)

·

Explosão da primeira bomba H chinesa (Junho)

· Assinatura em Genebra do Acto final do Kennedy Round (Junho)

· Entra em vigor o Tratado de Bruxelas sobre a fusão das três Comunidades (Julho)

· Pilhagem da embaixada soviética em Pequim (Agosto)

· Christian Barnard faz o primeiro transplante cardíaco (Dezembro)

· França veta a entrada do Reino Unido na CEE

Compromisso do Luxemburgo

1. Sempre que no caso de decisões susceptíveis de serem tomadas por maioria, sob proposta da Comissão, interesses muito importantes de um ou de vários parceiros estejam em causa, os membros do Conselho esforçar-se-ão para, num prazo razoável, chegar a soluções que possam ser adoptadas por todos os membros do Conselho, no respeito pelos seus interesses e pelos da Comunidade, conforme o artigo 2º do Tratado.

2. Em relação ao parágrafo precedente, a delegação francesa considera que, quando estiverem em causa interesses muito importantes, a discussão deverá prosseguir até que se consiga chegar a um acordo unânime.

3. As seis delegações registam que subsiste uma divergência sobre o que deverá ser feito quando não se alcance uma completa conciliação.

4. As seis delegações consideram , contudo, que tal divergência não impede a continuação normal dos trabalhos da Comunidade

Spaak

Não quero estragar uma das melhores recordações da minha vida contribuindo para que se possa crer que é o mesmo ideal que nós comemoramos hoje e que não há diferenças entre a Europa egoísta e introvertida que é agora apresentada e a Europa franca e generosa pela qual pugnámos dez anos atrás(justificando a sua não presença nas comemorações do 10º aniversário do Tratado de Roma)

De Gaulle

Viva o Quebeque Livre

Couve de Murville

A lamentável experiência a que fomos submetidos forçou-nos a concluir que o único defensor dos interesses da França é o governo francês

 

Golbery do Couto e Silva

Os objectivos nacionais do Brasil são integração nacional, autodeterminação, ou soberania, bem-estar, progresso, salienta que os mesmos se integram naquilo que qualifica como essência do Ocidente, a tríade ciência, cristianismo, democracia

 

Jean-Marie Domenach

Se o Estado, como coacção exterior, enfraqueceu, é porque se incorporou nas ideias e no comportamento de cada indivíduo. Daí que a tragédia política deixou de se cingir à casta dos reis ou dos cortesãos, para englobar agora a massa dos súbditos. O que ela assim perde em clareza e em solenidade, ganha-o em intensidade.

 

Guevara em1965

Numa revolução, ou triunfamos ou morremos

Hippies, morte de Che Guevara e transplante do coração

Há dois vetos gaullistas à adesão britânica à CEE (16 de Maio e 27 de Novembro) e dá-se o fim do Kennedy Round, por acordo com os Estados Unidos para o abaixamento das taxas aduaneiras (16 de Maio). Entra em vigor do Tratado de Bruxelas de 1965, com a fusão das três comunidades europeias e com o belga Jean Rey a assumir-se como novo presidente da comissão, em substituição de Walter Hallstein (1 de Julho). Assinale-se o desenvolvimento dos hippies, a Guerra dos Seis Dias (de 5 de Outubro a 10 de Junho), com os israelistas a ocuparem a totalidade de Jerusalém, o Sinai e os montes Golan, bem como a morte de Ernesto Che Guevara na Bolívia (9 de Outubro). O autor de La Guerra de Guerrilla (1960), onde se teoriza o foquismo, a criação de um foco insurreccional que, irradiando, poderia fazer a revolução em todo um território nacional, afinal não consegue aplicar a teoria fora de Cuba. Che Guevara, sem unificar os mineiros, estudantes e camponeses bolivianos contra o general Barrientos, acaba como pessoa, embora passe a atingir a eternidade do mito da revolução perdida. O filósofo francês Régis Debray, que então o acompanha no terreno, para também comprovar as teses do seu Révolution dans la Révolution?, também cai nas malhas do poder boliviano e acaba detido. Condenado a trinta anos de prisão, virá, contudo, a ser libertado em1970.

Morre Adenauer (19 de Abril) e o médico sul-africano, Christian Barnard faz o primeiro transplante cardíaco (03 de Dezembro). Os chineses, em plena Revolução Cultural, fazem explodir a sua primeira bomba de hidrogéneo (17 de Junho) e o Papa Paulo VI emite a encíclica Populorum Progressio (28 de Março), enquanto, no âmbito da corrida espacial, importa assinalar o acidente que vitimou três astronautas norte-americanos (27 de Janeiro), quando também começa a secessão do Biafra (30 de Maio) e continuam sangrentos incidentes raciais nos Estados Unidos.

A desconstrução pós-moderna

É então que emerge Jacques Derrida (1930), com L´Écriture et la Différence, base de certa leitura pós-moderna, quando teoriza a desconstrução, invocando a fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger. Porque o entendimento apenas é provisório, dado que há um infinito processo de reinterpretação, baseado na interacção entre o leitor e o texto. Entre nós, destaque para Manuel Alegre que lança O Canto e as Armas. Já Guilherme Braga da Cruz é feito doutor honoris causa pela Universidade de Navarra, numa altura em que, entre nós, colaboram directamente com a congregação João Morais Barbosa, Adelino Amaro da Costa e Francisco Oliveira Dias. Já o presidente Américo Tomás faz, durante três dias, uma caçada em Espanha, a convite do generalíssimo Franco. Matam 968 perdizes, três lebres e uma raposa...

The New Industrial State

Tecno-estrutura Conceito estabelecido por J. K. Galbraith em The New Industrial State de 1967. Nota a transferência de poderes para um aparelho de decisão cujos fins não têm nada a ver com os que são assumidos pelos patrões e pelos próprios organizadores ou managers.

Europa Ocidental

O ano de 1967 é marcado por dois vetos gaullistas à adesão britânica à CEE (16 de Maio de 1967 e 27 de Novembro de 1967), pelo fim do Kennedy Round, com o acordo entre a CEE e os Estados Unidos para o abaixamento das taxas aduaneiras (16 de Maio de 1967) e pela entrada em vigor do Tratado de Bruxelas de 1965, com a fusão das três comunidades europeias e com o belga Jean Rey a assumir-se como novo presidente da comissão, em substituição de Walter Halstein (1 de Julho de 1967).

No mesmo ano em que se comemora o décimo aniversário do Tratado de Roma, com De Gaulle a ser recebido como um triunfador, com Hallstein apagado - o General chegou mesmo a recusa-lhe um aperto de mão... - e com Spaak a não comparecer, apesar de convidado, criticando esta Europa egoísta e introvertida.

Em Março de 1967, quando se comemorava o décimo aniversário do Tratado de Roma, ele foi quase recebido como um herói. Mas recusou a apertar a mão a Hallstein. E Paul-Henri Spaak, apesar de convidado, decidiu não comparecer e explicar-se publicamente, em artigo publicado no Le Monde, com o título Porque não fui a Roma. Dizia: não quero estragar uma das melhores recordações da minha vida contribuindo para que se possa crer que é o mesmo ideal que nós comemoramos hoje e que não há diferenças entre a Europa egoísta e introvertida que é agora apresentada e a Europa franca e generosa pela qual pugnámos dez anos atrás SAMPSON, p. 71

As reacções antigaullistas prendiam-se à circunstância do centro da dinâmica política deixar de ser uma alta autoridade suprancional e se deslocar para as conferências cimeiras. O Plano Fouchet que as institucionalizava foi rejeitado em1962, mas elas continuaram a existir e até viriam a ser consagradas em Maastricht

Europa Ocidental

É neste ambiente de crispação que surge o já referido golpe da chaise vide, também conhecida pela crise do Mercado Comum.

O hibridismo do comando comunitário entre o sistema da cooperação, expresso pelo Conselho, e o sistema quase federativo, expresso pela comissão, vai levar à crise de 1965, quando a personalidade dominante da comissão, Walter Hallstein, vai entrar em confronto com o General De Gaulle. Surge então aquilo que alguns então qualificaram como a nova querela entre o Papa, Hallstein, e o Imperador, De Gaulle.

No começo do ano, a comissão tinha apresentado uma ousada proposta: instauração da política agrícola comum a partir de 1 de Julho de 1967; financiamento do fundo agrícola através de recursos próprios comunitários, em vez de ser por intermédio dos Estados membros e fortalecimento do Parlamento europeu, dando-lhe poderes para debater e rejeitar o orçamento comunitário.

Antes mesmo do pacote ser apresentado ao Conselho, a Comissão decidiu

levá-lo ao Parlamento europeu, o que irritou particularmente De Gaulle, apesar do apoio que lhe deu o Comité de Jean Monnet. Só, depois, disto, em Março, é que o Conselho começou a analisar as propostas da Comissão.

Em 15 de Junho de 1965, o Ministro dos estrangeiros holandês, Joseph Luns, declarava que a Holanda nunca aceitaria conferir recursos próprios à CEE, sem os colocar sob o controlo do Parlamento Europeu ZORGBIBE, p. 57

Na reunião de 30 de Junho de 1965, os seis ministros verificavam no fim da reunião o respectivo desacordo sobre o financiamento da política agrícola e pela primeira vez não recorriam às tradicionais maratonas agrícolas com a consequente paragem dos relógios, como sempre acontecera desde 1962 ZORGBIBE, p. 58.

Às duas da manhã seguintes à noite do dia 30 de Junho de 1965, no momento em que terminava a presidência francesa do Conselho, Couve de Murville, o ministro dos estrangeiros de De Gaulle, interrompe bruscamente a sessão, declarando que a França renunciava provisoriamente a participar nas actividades da Comunidade.

E durante sete meses o gaullismo vai assim boicotar o funcionamento das instituições comunitárias.

Durante uma conferência de imprensa, em Setembro, De Gaule tenta explicar o sucedido: o que se passou em Bruxelas, em 30 de Junho, relativamente aos regulamentos do financiamento agrícola, realçou não só a persistente relutância dos nossos associados em trazer a agricultura para o âmbito do mercado comum como também certos erros ou ambiguidades nos tratados que estruturam a união económica dos Seis. Eis a razão por que, mais tarde ou mais cedo, a crise era inevitáveli SAMPSON, p. 69

A França queria impor um novo modelo de política agrícola comum, até porque De Gaulle tinha eleições presidenciais em Dezembro e dependia do voto dos agricultores.

O bode expiatório para o gaullismo continuava a ser esta tecnocracia embrionária, predominatemente estrangeira. A solução não estaria numa federação, mas na cooperação organizada entre os Estados.

E Couve de Murville na Assembleia Nacional francesa desenvolvia o tema, falando numa necessária revisão geral do Tratado de Roma, criticando o sistema da maioria e proclamando que a lamentável experiência a que fomos submetidos forçou-nos a concluir que o único defensor dos interesses da França é o governo francês SAMPSONB, pp. 69-70.

A crise do mercado comum tem aliás, muito a ver com o ritmo da política interna francesa

O compromisso do Luxemburgo

Em Janeiro de 1966, o impasse europeu vai ser resolvido. Como escrevia André François Poncet, só poderia sair-se do impasse pela diplomacia, por concessões recíprocas, não por textos laboriosamente redigidos, mas através de trocas de pontos de vista com a Comissão Hallstein, não por cadeiras vazias, mas através de gentlemen's agreements PEYREFITTE, p. 866 No dia 19, Couve de Murville apresenta uma proposta de superação do impasse, exigindo, por exemplo a limitação dos poderes da Comissão e o direito de veto em todos os assuntos principais. Os restantes parceiros, comandados pelo ministros dos estrangeiros alemão, Gustav Schroeder, resistem e chega mesmo a insinuar-se que a Grã-bretanha devia ser convidada a ocupar a cadeira deixada vazia pela França.

Contudo, no dia 29 de Janeiro de surge o meio termo, com cedências recíprocas. Fica assente que a Comissão devia consultar os Estados membros antes de apresentar propostas importantes, estabelece-se um novo prazo para o financiamento da política agrícola e deixam na ambiguidade a questão da maioria. Surge o chamado Compromisso do Luxemburgo, consagrando regime da unanimidade e fazendo regressar a França às instituições comunitárias. Através desse compromisso se punha fim à querela que opusera os defensores da supranacionalidade e os que advogavam a Europa das conferências diplomáticas.

O texto da conciliação é curioso, dado consagrar uma espécie de concordância quanto às discordâncias. Um admirável texto de hipocrisia diplomática, como o qualifica Duverger, p.92. Um chef d'oeuvre d'hpocrisie et aveu d'incapacité, como lhe chama Robert Lafont, p. 173. Um texto que, apesar de normativo, nunca foi publicado no jornal oficial.

A regra da unanimidade, que até então era apenas costumeira, juridificou-se num texto quase confidencial, mas que gerou uma outra prática, a de nunca mais se votar, a não para a aprovação do orçamento.

A Europa, como salienta Lafont , passou a ter um verdadeiro governo que não governa, e um pseudo-governo que governa na medida em que as suas contradições internas o não proibem Lafont, p. 173.

Cien Años de Soledad

Romance do colombiano Gabriel Garcia Marquez onde se denuncia a United Fruit

Compromisso do Luxemburgo

Segundo a acta do compromisso, dita declaração comum sobre o processo de discussão no seio do Conselho de Ministros:

1. Sempre que no caso de decisões susceptíveis de serem tomadas por maioria, sob proposta da Comissão, interesses muito importantes de um ou de vários parceiros estejam em causa, os membros do Conselho esforçar-se-ão para, num prazo razoável, chegar a soluções que possam ser adoptadas por todos os membros do Conselho, no respeito pelos seus interesses e pelos da Comunidade, conforme o artigo 2º do Tratado.

2. Em relação ao parágrafo precedente, a delegação francesa considera que, quando estiverem em causa interesses muito importantes, a discussão deverá prosseguir até que se consiga chegar a um acordo unânime.

3. As seis delegações registam que subsiste uma divergência sobre o que deverá ser feito quando não se alcance uma completa conciliação.

4. As seis delegações consideram , contudo, que tal divergência não impede a continuação normal dos trabalhos da Comunidade MOTA CAMPOS, I, p. 238-239

A terapia de choque da diplomacia de De Gaulle, bem interpretada por Couve de Murville, não se tratava de mero jogo entre a França e os seus parceiros europeus.

A política de chaise vide e o consequente boicote dos órgãos comunitários, se visava, sem dúvida, fazer vingar a proposta francesa sobre o financiamneto da política agrícola e sobre a modificação do papel e do comportamento da Comissão presidida por Hallstein, não se reduzia a mera defesa dos interesses nacionais franceses, mas, antes, À própria modificação do estilo político comunitário.

Em Fevereiro de 1965, o chefe do governo francês, Georges Pompidou, revelara a estratégia quando considerava que a velha partilha entre dois grupos monolíticos está ultrapassada. É aí que aparece o papel da França que, pela sua geografia e pela sua história, está condenada a jogar o papel da Europa. É uma Europa que dorme há muito tempo à sombra do poder dos Estados-Unidos GOSSER, p. 290.

Isto é, a jogada gaullista tinha desejos mais profundos, o de alterar a linha dominante entre os europeus, na sua relação com os Estados-Unidos da América. Como dirá então Stanley Hoffmann, De Gaulle apenas exprimia em voz alta e através de gestos diplomáticos espectaculares, aquilo que muitos governantes europeus pensavam, mas não ousavam dizer.

E o que então estava em causa era, sobretudo, as negociações do Kennedy Round. E o que vai seguir-se em termos comunitários é o aparecimento das comunidades europeias como um bloco unitário, face aos norte-americanos, no âmbito do GATT.

A Comissão, apesar de continuar a ser presidida por Hallstein, vai inspirar toda a confiança ao gaullismo, principalmente pela acção do vice-presidente, o francês Robert Marjolin, encarregado dos problemas económicos, do belga Jean Rey, responsável pelas negociações com o GATT, e pelo holandês Sicco Mansholt, encarregado do dossier agrícola.

A nomeação de Jean Rey, em 26 de Junho de 1967, para presidente da Comissão, e a efectivação da fusão das Comunidades que se dá a partir de então, constituem a demonstração do sucesso de uma estratégia provocada pela diplomacia de choque do gaullismo.

O segredo estava na existência, entre os seis, de uma taxa aduaneira comum, que a ronda de negociações do GATT não derrubavam, mesmo em matéria agrícola. Como dizia Hallstein, não temos bandeira, não temos forças armadas, tudo o que que temos é uma taxa GOSSER, p. 293.

E só depois do Kennedy Round é que vai avançar o processo da política agrícola comum, tal como era o desejo da França, sempre preocupada com a colocação dos seus excEdentes agrícolas.

acompanhado pelo lançamento de uma aproximação entre a França e Moscovo, com a defesa por De Gaulle de uma Europa do Atlântico aos Urales, que culminou com a visita do Presidente Francês à URSS, em 1966, a visita que a França de sempre faz à Rússia de sempre, conforme expressão intencional do próprio General.

De Gaulle veio dar à Europa o realismo dos homens de Estado, compensando aquilo que no projecto europeu, era, até então, predominantemente utopista.

No próprio ano da instauração do Tratado de Roma e da subida ao poder de De Gaulle, a escola funcionalista norte-americana de ciência política, pela pena de Ernst B. Haas, analisando o processo de construção europeia marcado pela integração económica da CECA, falava na integração funcional.

Considerava que decisões económicas limitadas seriam as mais aptas para a obtenção de escolhas políticas cruciais, as quais seriam provocadas mais por convergências de interesses do que por opções políticas.

Neste sentido, Haas considerava poder existir uma passagem automática da uma união económica a uma união política, dada a dinâmica ascendente da integração que permitiria que a mesma se estendesse progressivamente a outros sectores económicos, a sectores políticos e até a outros países. E isto, porque o novo centro político, gerado pela integração sectorial económica, entraria em relações directa com os principais actores sociais e políticos, os grupos de interesse e os partidos políticos, pelo que as próprias crises levariam ao reforço da integração e da comunidade por ela gerada. No fim do processo atingir-se-ia inevitávelmente um novo Estado de natureza federal.

Para Haas, para atingir tal objectivo, bastaria o desencadeamento do processo de estabelecimento de uma instituição suprancional num determinado sector económico, que levaria automaticamente à cobertura de outros sectores.

O choque gaullista e o consequente desaparecimento do motor federalista, ao mesmo tempo que se começavam a pôr em causa os próprios mecanismos do Welfare State do pós-guerra, levaram a que o próprio Haas tivesse que modificar a sua teoria, em1967.

De Gaulle, com efeito, era também um perturbador teórico. Não era da direita contra a esquerda, nem neoliberal contra o keynesianismo, antes vinha do fundo da história, invocando um realidade nacional, anterior à própria Revolução de 1789, assim era a sua certaine idée de la France.

Também não podia ser considerado um nacionalista à semelhança do fascismo e do nazismo, até porque ele fora o símbolo da resistência ao nazi-fascismo, ao contrário do que podia ser invocado por muitos sectores de certa esquerda socialista, marcados pelo colaboracionismo com Pétain.

Acresce que fora ele que assumira a descolonização, contra posições assumidas por certos parceiros democratas-cristãos, socialistas e radicais do pós-guerra que constituíam a elite dirigente da IV República.

Assim, Haas é obrigado a temperar o seu deteterminismo sócio-económico. Reconhece a partir do novo modelo pós-gaullista da construção europeia que a fragmentação das ialégeances nos indivíduos, dizendo que não há inecessariamente transferência radical de legenaces para uma nova entidade. Que a união política que coroará o processo de integração já não pode ser concebida sobre o modelo das comunidades nacionais existentes.

A lógica da integração funcional já não é automática, mas probabilista: trata-se de um processo frágil, susceptível de voltar atrás e a sua evolução depende de muitas variáveis.

Os objectivos das lideranças políticas passam a desempenhar um papel essencial. A tendência para a crise construtiva passa a ser obstada pelos partidos políticos e pelos grupos de interesses que tratam de evitar conflitos ideológicos mais agudos, os quais procuram maximizar as respectivas vantagens mateirais à custa de negociações técnicas e o mmodelo inicial restabelece-se; é a ruptura do consenso entre os principais actores públicos e privados que reduz o observador à incerteza.

Isto é, reconhece-se que foram subestimados o poder das lealdades nacionais. Assim, seria fundamental passar a analisar as lideranças as quais podem ser distintas dos automatismos integracionaistas.

Por outras palavras, a Comunidade passa a ser perspectiva da segundo o velho modelo realista da balança de poderes, passa a ser um equilibrio entre forças integracionistas e forças anti-integracionistas. A integração deixa de ser mero processo que não tinha referência a um fim político e trata de mergulhar de novo no domínio dos valores, nomeadamente nos da democracia e do Estado de Direito, o que, para além das lideranças políticas, implica o próprio apelo à participação dos cidadãos.

Em suma, graças a De Gaulle, mais graças à sua acção, do que Às suas eventuais intenções, a Europa passa de novo a ser uma polis.

 

Guerra dos Seis Dias

Revolução Cultural

Entre Janeiro e Setembro de 1967 dá-se a intervenção no processo dos operários, sendo criada a Comuna de Xangai, em 5 de Fevereiro, que toma a Comuna de Paris como modelo. Atinge-se também o clímax anárquico, com sangrentos recontros, nomeadamente em Wuhan e Cantão, e uma vaga de xenofobia que leva ao próprio incêndio da Embaixada britânica em Pequim.

a partir de Setembro de 1967, o Exército de Libertação Popular passe a tentar controlar os acontecimentos, enquanto Chu En-lai começa a surgir como a síntese desse paralelograma de forças, com forte apoio de Mao. Isto é, um certo pensamento maotSetung rigorosamente interpretado, de cima para baixo, transforma-se num timoneiro dos acontecimentos. Isto é, o pensamento libertou-se do pensador, transformando-se num abstracto ponto geométrico, susceptível de ser ocupado pela efectiva força que dominasse o centro do poder. Até porque, no caso concreto, Mao vai dando uma no cravo e outra na ferradura, ora apoiando Chu En-lai, ora dando força aos comités revolucionários e a Lin Piao, mas sem nunca ceder às pressões de Liu Shao-ch'i. O melhor exemplo desta euforia ideológica, onde a criatura abstracta de um sistema de pensamento se liberta do criador, está na circunstância de Lin Piao, em 1 de Outubro, chegar mesmo a criar centros de estágio para o estudo do pensamento maotSetung...

A Revolução Cultural marcada sobretudo pela instrumentalização dos jovens (há cerca de 15 milhões de jovens guardas vermelhos que se deslocam para Pequim, tendo a maioria entre 12 e 18 anos) não passou de uma grande encenação política de uma revolução para consumo interno e externo. Na verdade, durante esse período, deu-se uma perseguição à verdadeira cultura, especialmente aos livros heterodoxos e aos clássicos que apelavam para o individualismo e o humanismo. Produziu-se também uma reforma do ensino utilitarista, partindo-se do falso princípio de que todo o conhecimento inútil é nocivo. Refira-se que, com a Revolução Cultural, o ciclo normal do ensino superior vai ser interrompido durante 55 meses. A partir de então passou também a ser obrigatório, antes da entrada na universidade, um período de experiência profissional numa unidade de produção, havendo, além disso, uma prévia selecção política. De facto, segundo dados oficiais, dos cerca de 800 000 estudantes universitários existentes em1966, 60% eram de origem burguesa. Perseguiu-se também a inteligência através das reeducações pelo trabalho manual ou trabalho forçado. Atingiu-se até o cerne da própria existência quando a colectividade passou a ditar o próprio número de filhos que cada família podia ter. Era Malthus, em vez de Marx, através do controlo de nascimentos e da vasectomia.

Silva, Golbery do Couto e Um dos principais teóricos da doutrina do Estado de Segurança Nacional e sustentáculo teórico do regime brasileiro instaurado em1964. Professor da Escola Superior de Guerra do Brasil. Geopolítico, defensor de um destino manifesto do Brasil face ao Atlântico Sul. Em nome da geopolítica tenta uma espécie de síntese entre o organicismo de Herder, o idealismo de Hegel, o estatismo de Fichte e o nacionalismo económico de Fichte. Organiza o SNI durante o governo do Presidente Castelo Branco. Principal conselheiro do presidente Geisel, desde 1974. Geopolítica do Brasil,1967 Obra-modelo das doutrinas do Estado de Segurança nacional, da autoria de Golbery do Couto e Silva, professor da Escola Superior de Guerra, onde se defende um destino manifesto do Brasil face ao Atlântico Sul. Em nome da geopolítica tenta-se uma espécie de síntese entre o organicismo de Herder, o idealismo de Hegel, o estatismo de Fichte e o nacionalismo económico de Fichte. Considera-se que os objectivos nacionais do Brasil são integração nacional, autodeterminação, ou soberania, bem-estar, progresso, os quais se integram naquilo que qualifica como essência do Ocidente: a tríade ciência, cristianismo, democracia. Define-se a estratégia nacional, como a arte de preparar e aplicar o poder nacional para se obterem ou manterem os objectivos fixados pela política nacional (Rio de Janeiro, José Olympio,1967).

Retour du Tragique, Le [1967] ä Domenach, Jean-Marie Salienta que o Estado Moderno tem a formidável exigência de racionalizar o conjunto da vida social e já não apenas um governo ou um exército. Assim, se o Estado, como coacção exterior, enfraqueceu, é porque se incorporou nas ideias e no comportamento de cada indivíduo. Daí que a tragédia política deixou de se cingir à casta dos reis ou dos cortesãos, para englobar agora a massa dos súbditos. O que ela assim perde em clareza e em solenidade, ganha-o em intensidade. Na segunda parte da obra, analisa o trágico político, percorrendo Saint-Just, Hegel, Nietzsche, Estaline, Hitler e Malraux.

Grécia

Na Grécia, já com o novo rei Constantino II, no trono desde Março de 1964, dá-se o golpe militar dos coronéis (21 de Abril), liderado por Papadhopoulos.

O rei ainda tenta um contragolpe em 13 de Dezembro, mas é forçado ao exílio

O regime militar vai permanecer, aprovando uma nova Constituição em Setembro de 1968 e, já depois da Grécia ter sido expulsa do Conselho da Europa, em Dezembro de 1969, consegue que, num referendo se instaure o regime republicano (29 de Julho de 1973).

China

Os chineses, em plena Revolução Cultural, fazem explodir a sua primeira bomba de hidrogéneo (17 de Junho de 1967).

O Iémene do Sul transforma-se numa república independente (30 de Novembro de 1967). O território, que estava dependente da Índia britânica desde 1839, acedera em 1937 ao estatuto de colónia britânica e em 1959 tornou-se na Federação da Arábia do Sul, com autonomia, dentro da Commonwealth, onde, em1962 se integrou o antigo protectorado de Aden. Mas em1963 já as tropas britânicas abanmdonavam a Federação. Refira-se que em1969, com a tomada do poder por uma Frente Nacional de Libertação, de inspiração marxista, surge uma República Democrática e Popular que vai entregar em guerra com o Iémene do Norte, de Setembro a Outubro de 1972, numa guerra larvar que apenas tem um formal cessar-fogo em1979.

A República Independente do Biafra, liderada pelo coronel Odumegwu-Ojukwu, traduz uma reacção dos ibos contra o regime militar nigeriano de Yacubu Gowon. Durante três anos assistir-se-á a uma guerra civil, onde os ibos, reconhecidos pela Tanzânia, pelo Gabão, pela Costa do Marfim e pela Zâmbia, são apoiados pela África do Sul, pela Rodésia e por Portugal. O conflito apenas terminará em 12 de Janeiro de 1970.

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 22-04-2009