1963

Do veto gaullista à adesão britânica à CEE à eleição de Paulo VI

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

De Gaulle veta a entrada dos britânicos na CEE e eleição de Paulo VI – O ano é marcado, em termos europeus, pela morte de Robert Schuman (5 de Setembro), por Adenauer abandonar o cargo de chanceler (11 de Outubro) e por novo veto gaullista à adesão britânica à CEE (14 de Janeiro). É eleito um novo Papa, Paulo VI (21 de Junho), Giovanni Battista Montelli, depois de João XXIII ainda editar a encíclica Pacem in Terris (11 de Abril). Apesar da assinatura do Tratado de Amizade e Cooperação entre a França e a República Federal da Alemanha, em cerimónia realizada no Eliseu, com a presença de Adenauer (22 de Janeiro), segue-se a suspensão formal, sine die, das negociações entre a CEE e o Reino Unido (28 de Janeiro), com Hallstein a criticar expressamente a atitude de De Gaulle (05 de Fevereiro). Na Conferência Pan-Africana de Adis Abeba (22 a 25 de Maio), representantes de alguns Estados Africanos assinam a carta da Organização de Unidade Africana e aderem aos modelos do neutralismo positivo, nascido da Conferência de Bandung de 1955, reclamando uma política de não alinhamento em relação a qualquer bloco. Declaram a intangibilidade das fronteiras herdadas da era colonial e criam uma Comité para a Libertação de África. Destaque também para a Convenção de Iaunde (20 de Julho), estabelecendo um programa de ajuda da CEE a 18 Estados africanos. Em 25 de Junho, John Kennedy, num discurso proferido em Francoforte, vem considerar que só uma Europa intimamente ligada nos pode proteger contra uma fragmentação da Aliança Atlântica. Só uma Europa assim edificada permitirá uma completa reciprocidade de uma à outra margem do Oceano. Só com uma Europa deste tipo é se atingirão trocas entre iguais, igual partilha de responsabilidades e iguais sacrifícios

Da banalidade do mal ao feminismo – Em Portugal, António Alçada Baptista começa a publicar a revista O Tempo e o Modo, que dirige até1969, enquanto Hannah Arendt publica Eichman in Jerusalem, onde se analisa a vida e o julgamento de um criminoso nazi, Adolf Eichman (1906-1962), executado no ano anterior em Israel, depois de ter sido capturado em1960, na Argentina, onde vivia sob nome falso. A obra, subtitulada um relatório sobre a banalidade do mal, irrita particularmente a comunidade judaica, dado que a autora, também judia, considera que os actos desse polícia encarregado da chamada solução final, resultaram, não da perversidade do respectivo executante, mas da estupidez burocrática. Surge, entretanto, a obra de Schmuel Eisenstadt, The Political Systems of Empires, dedicada ao estudo da ascensão e queda das sociedades burocráticas, onde se lançavam as bases de uma nova sociologia histórica, que o mesmo autor vai desenvolver, analisando os processos de declínio dos impérios (1967), de construção de Estados e Nações (1977) e das revoluções (1978). Já Betty Friedan (1921) publica The Feminine Mystique. Em Portugal, destaca-se um prefácio de Marcello Caetano ao livro de Luís Filipe de Oliveira e Castro, Anticolonialismo e Descolonização, onde não se mostra um incondicional do chefe do governo quanto à política de defesa militar, enquanto Joel Serrão começa a editar o Dicionário de História de Portugal, até1971. Entretanto, a esquizofrenia do regime leva a PIDE a vigiar Adriano Moreira, temendo os contactos deste com o Opus Dei. Erradamente, a polícia política observa que ele passara a confessar-se com o Padre Silva Rego, deixando de ser não-católico. Não repara que ele está bem mais próximo do inimigo castelhano da congregação de Escrivá de Balaguer, Manuel Fraga Iribarne, e que tem acesso aos meios eclesiásticos, fundamentalmente através do Padre Joaquim António de Aguiar, líder do Colégio Universitário Pio XII.

O Tempo e o Modo – A revista tem como primeiro director António Alçada Baptista (29 de Janeiro), estando ligada à Editora Moraes e à colecção do Círculo do Humanismo Cristão. Mobiliza, na sua primeira fase, uma série de intelectuais católicos, críticos do salazarismo, não desdenhando do próprio empenhamento do ex-deputado salazarista Manuel José Homem de Melo, especialista nos meandros de todas as transições políticas, incluindo a que levou à ascensão de José Manuel Durão Barroso a primeiro-ministro. Alarga-se, depois, a outros sectores da esquerda, como a Mário Soares e a Salgado Zenha, vindos do MUD, ao então comunista Mário Sottomayor Cardia, e à jovem geração de líderes estudantis, como Manuel Lucena, Vítor Wengorovius e Medeiros Ferreira, acabando por preponderar esta última.

Análise Social – Surge também a revista Análise Social, fundada no âmbito do Gabinete de Investigações Sociais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa, organismo que resulta do ideológico Gabinete de Estudos Corporativos, onde se pretendia dar ciência sociológica e militância católica à única revolução corporativa vigente na Europa. Tem como primeiro director J. Pires Cardoso, até 1973. Entre1973 e1990, surge a direcção de Adérito Sedas Nunes, a quem há-de suceder Manuel Braga da Cruz.

 

Morte de Robert Schuman

Adenauer abandona o cargo de chanceler

Escândalo Profumo

Novo veto gaullista à adesão britânica à CEE

Morte de João XXIII e eleição de Paulo VI

Convenção de Iaunde

Golpe militar no Iraque

Instituída a OUA

Acordo EUA -URSS sobre a instalação do telefone vermelho

Assassinato de J. F. Kennedy

Europa naufraga em Nassau

Em 5 de Janeiro de 1963, Dean Acheson, antigo secretário de Estado, num discurso proferido em West Point, dizia que a Grã-Bretanha has lost an empire and has yet not yet found a role. E dizia isto, quando os britânicos hesitavam entre estabelecer uma especial relação com os Estados Unidos, um pedido de adesão à CEE e o reforço de uma Commonwealth britânica que continuava sem estruturas e sem forças.

MacMillan respondia, dizendo que Acheson caiu no erro que foi cometido por uma multidão de gente no decorrer dos quatro últimos séculos, nomeadamente Filipe de Espanha, Luís XIV, Napoleão, o Kaiser e Hitler GROSSER, p. 262

Nos dias 15 e 16 encontrava-se com De Gaulle em Rambouillet, insistindo na adesão à CEE, recebendo deste uma clara negativa

MacMillan partia para Nassau, desejoso obter algum prestígio, ofendido pelas posições duras de De Gaulle. Kennedy, não desejava afectar o seu grand design. As conversações foram difíceis e a declaração final surgia como uma das mais longas que surgiam sobre o processo de defesa nuclear. Afirmava-se a necessidade do desenvolvimento de uma força multilateral da NATO, mas também que os Estados Unidos colocariam à disposição do Reino Unido mísseis Polaris, embora sem cabeças nucleares, cabendo aos britânicos o fabrico dos submarinos em que estes seriam colocados, bem como as próprias cabeças nucleares dos mísseis em causa.

Foi a gota de água que fez transbordar a ira de De Gaulle contra os anglo-saxons.

Como vai dizer o minsitro dos estrangeiros francês, entre uma força nuclear integrada na NATO e uma força nuclear nacional, havia toda a diferença que existe entre uma Europa atlântica e uma Europa europeia GROSSER, p. 263

Também o acordo entre franceses e alemães, selado pelo Tratado de Amizade e Cooperação, de 23 de Janeiro de 1963, não vai resultar,, dado que o Bundestag, quando o ratifica, em 8 de Maio de 1963, condiciona-o tanto ao alargamento das Comunidades à Grã-Bretanha como a uma intensificação da ligação da Europa com os norte-americanos, tanto no plano militar como no plano comercial.

Entre Iaunde e a OUA

Na Conferência Pan-Africana de Adis Abeba (22 a 25 de Maio de 1963), representantes de alguns Estados Africanos assinam a carta da Organização das Nações Unidas e aderem aos modelos do neutralismo positivo, nascido da Conferência de Bandung de 1955, reclamando uma política de não alinhamento em relação a qualquer bloco.

Declaram a intangibilidade das fronteiras herdadas da era colonial e criam uma Comité para a Libertação de África.

Destaque também para a Convenção de Iaunde (20 de Julho de 1963), estabelecendo um programa de ajuda da CEE a 18 Estados africanos.

O piscar de olho aos comunistas

Na vida partidária da França, destaca-se a eleição de um novo presidente do MRP, Jean Lecannuet (26 de Maio de 1963) e o congreso da SFIO, com Guy Mollet a mostrar-se favorável a um entendimento com os comunistas (30 de Maio de 1963).

Nas eleições de Itália, de Abril, dava-se uma subida de comunistas e liberais e um recuo da democracia-cristã. Começa então a abertura da DCI à esquerda, expressa pelo governo de Aldo Moro, de Dezembro de 1963, através de uma coligação com o PSI que vai durar até 1972. Depois das eleições de 1953, que levaram à demissão de Alcide de Gasperi, tinha acontecido uma abertura à direita, com a excepção dos governos de Amintore Fanfani, em1954 e em1958-1959. Mas o Congresso de Nápoles de Janeiro de 1962, autorizou a abertura à esquerda que se manteve nos governos de Mariano Rumor (1968-1970) e Emílio Colombo (1970-1972).

O Reino Unido vive também os efeitos do escândalo que afectou o ministro da defesa John Profumo, cuja call girl tinha ligações aos soviéticos, com a queda do governo conservador liderado por Mac Millan, sucedendo-lhe Douglas Hume (18 de Outubro de 1963), enquanto a oposição trabalhista passa a ter um novo líder, Harold Wilson (14.02.1963), sucedendo a Hugh Gaitskell, líder do partido desde 1955. Na República Federal da Alemanha, Ludwig Erhard (1897-1977), ministro da economia desde 1949, sucede a Adenauer (16 de Outubro de 1963).

Balcãs

Nas eleições da Grécia de Novembro de 1963 vende a União do Centro, liderada por George Papandreou (1888-1968), que em Abril de 1944 se assumira como chefe do governo grego no exílio, no tempo do rei Jorge II. Volta a vencer as eleições de Fevereiro de 1964, mantendo-se no poder, como primeiro-ministro até1964.

Entre os sonhos de Luther King e o assassinato de Kennedy

Nos Estados Unidos, a marcha pelos direitos cívicos liderada por Martin Luther King (1929-1968) mobiliza 200 000 pessoas (28 de Agosto de 1963), pouco antes de se tornar operacional o célebre telefone vermelho entre Washington e Moscovo (28 de Agosto de 1963).

Entretanto, dá-se o assassinato de John Kennedy (22 de Novembro de 1963) em Dallas

Sucede-lhe o vice-presidente Lindon B. Johnson, no ano em que já estão no Vietname cerca de 15 000 conselheiros norte-americanos.

A ascensão golpista do baasismo

Há um golpe de Estado baasista na Síria (8 de Março de 1963);

No Iraque é derrubado o general Kassem, com ascensão dos baasistas nasserianos, liderados pelo coronel Abdel Salam Aref, e dura repressão dos comunistas (8 de Fevereiro de 1963)

Sueste asiático

Assassinato do ministro dos estrangeiros do Laos e consequente guerra civil (1 de Abril de 1963);

A Federação da Malásia transforma-se em Federação da Grande Malásia (16 de Setembro de 1963), com a inclusão de Singapura (até Agosto de 1965), e de Sarawak e Sabah, na ilha de Bornéu, onde o restante território se integrou na Indonésia. A liderar o Estado continua Abdul Rahman, no poder até Setembro de 1970, quando lhe sucede Abdul Razak, até1976.

América central

Golpe militar do coronel Peralta Azurdia na Guatemala (31 de Março de 1963);

Subida ao poder, na Nicarágua, de René Schick, ligado aos Somozas (3 de Fevereiro de 1963);

Lei marcial no Haiti, com reforço de Duvalier (3 de Maio de 1963)

Na República Dominicana, realizam-se finalmente eleições em 1963, com a eleição do escritor Juan Bosch, mas sete meses depois, um golpe de Estado faz voltar ao poder os militares afectos a Trujillo, assassinado em1961. Fernando Terry eleito presidente do Peru (9 de Junho de 1963).Eleição de Arturo Illia, da União Cívica Radical, como presidente da Argentina (7 de Julho de 1963). No Brasil, continuando a presidência de João Goulart, regressa-se ao presidencialismo (24 de Janeiro).

Os mau-mau vencem a luta pela independência

Em África, o Quénia acede à independência (12 de Dezembro de 1963), sob a liderança de Jomo Kenyatta, presidente, desde 1947 da União Africana do Quénia, e líder da sociedade secreta os Mau Mau, responsável pelos actos de violência ocorridos entre 1952 e1956.

O futuro presidente estará, aliás, detido de 1953 a1961. Kenyatta morrerá em1978, sendo substituído por Daniel Arap Moi que manteve o regime de poder pessoal, mesmo depois da instauração formal da democracia em1991.

Assassinado o presidente do Togo Sylvanus Olympio (13 de Janeiro de 1963);

Teoria Pura da Política

Bertrand de Jouvenel (n.1903) em Teoria Pura da Política considera que a política é a acção que desencadeia aquele movimento que leva à agregação de outros, em torno do projecto ou da ideia de um determinado autor, sendo definida como o comportamento dos homens nos seus postos de autoridade e pelo movimento que inserem nos negócios políticos, como todo o esforço sistemático levado a cabo em qualquer parcela do âmbito para mover os outros em prol de algum projecto desejado pelo autor do mesmo, o que requer a manifestação de um facto que virá a relacionar-se com um acontecimento futuro, porque o futuro está sempre presente na mente do homem que actua.

Neste sentido, refere que o político procura produzir um certo evento solicitando a acção de outros. Procura provocar acções cooperantes adequadas e, para obtê-las, orienta-se de maneira a que estas se produzam.

Political (The) Systems of Empires (1963) Obra de Schmuel Eisenstadt, segundo a qual o Estado provém da politização de conflitos de interesses, consolida-se com a universalização do político e é tanto mais forte quanto o mesmo político se diferencia do social. Considera o império como uma forma pré-moderna e pré-estadual, visando um acabamento futuro e não como uma categoria autónomaO Estado Moderno surgiu quando se superou o corporativismo medieval e se deu a dissolução das sociedades tradicionais, bem como a especialização dos papéis especiais. Só então o indivíduo se libertou do círculo dos grupos estamentais – a aristocracia, as comunas e as corporações. O Estado moderno é, deste modo, entendido como ponto de chegada de um processo de centralização das estruturas políticas. Liberta recursos de poder aprisionados pelas anteriores ordens e leva ao surgimento de um novo mercado de recursos políticos, onde o poder está disperso. Obedece a três princípios –despersonalização (as instituições estaduais são independentes da figura do Príncipe), permanência (as instituições estaduais estão ao abrigo da competição política que potenciam) e democraticidade.

Lorenz, Konrad Zachariae (1903-1989) Austríaco. Forma-se em medicina em Viena. Professor em Viena (1937-1940)e Konigsberg (1940-1942). Prémio Nobel em1973. Um dos fundadores da etologia, entendida como a ciência do comportamento animal. Considera que a sociedade humana é uma continuidade das sociedades animais. Em ambas existem animais agressivos, marcados por organizações hierárquicas e onde se distinguem nitidamente os papéis reservados para o masculino e o feminino. Nas sociedades humanas apenas podemos estabelecer medidas para limitarmos a agressividade, para canalizarmos os respectivos excessos, mas não para a eliminar. Do mesmo modo se torna um sono inexequível o igualitarismo ou a eliminação da diferença entre homens e meulheres. Considera que o ser humano é um animal agressivo como todos os outros animais. Critica a fórmula de Hobbes, do homo homini lupus, propondo substitui-la pela de homo homini ratus, dado que o homem, se assemelha aos ratos, dado que, ao contrário dos animais normais, como o lobo, o homem, tal como o rato, matar os seus rivais da mesma espécie, ao contrário dos restantes animais que apenas matam animais de espécies diferentes, procurando, para os da mesma espécie, apenas mantê-los à distância, conquistando um território alimentar.

1963 Das sogenannte Böse zur Naturgeschichte der Agression

1963

Trad. ingl. On Agression, Nova York, Harcourt, Brace & World, 1966

Trad. fr. L'Agression, une Histoire Naturelle du Mal, Paris, Flammarion,1969

Civic Culture

Obra de Gabriel Almond e Sidney Verba, subtitulada Political Attitudes and Democracy in Five Nations. Consideram a cultura como orientação psicológica relativamente aos objectos sociais, isto é, a interiorização, por cada um, do sistema político" e a congruência de uma cultura política com uma estrutura política, estabelecem trës modelos de cultura política ‑ a cultura paroquial, a cultura de sujeição e a cultura de participação. A estas três formas de cultura política corresponderiam três modelos de estrutura política: a tradicional, marcad pela descentralização; a autoritária, marcada pela centralização; e a democrática. salientam, no entanto, que qualquer cultura política efectivamente existente assume forma mista, equilibrando harmonicamente as três referidas componentes [ reed., Boston, Little, Brown & Co.,1965] .

Eichmann in Jerusalem [1963] ä Arendt, Hannah Obra subtitulada um relatório sobre a banalidade do mal, onde se analisa a vida e o julgamento de um criminoso nazi, Adolf Eichman (1906-1962), polícia encarregado da solução final que, depois de refugiado na Argentina, onde vivia sob o nome de Ricardo Clemente, foi capturado em 1960 por Israel e submetido a um processo em Jerusalém, de Abril a Dezembro de 1961, que o condenou à morte. A obra irritou a comunidade judaica, dado que Hannah Arendt considera que os actos de Eichmann resultaram, não da preversidade do autor, mas da estupidez burocrática

Reason and Revolution

Obra de Herbert Marcuse onde se considera que no Estado Totalitário, a sociedade civil burguesa governou e imperou sobre o Estado, contrariando-se, deste modo a perspectiva de Hegel que dava primado ao Estado ou sociedade política sobre a sociedade civil. Marcuse, nesta senda, considera que o Estado tem de ser razoável, correspondendo às potencialidades do homem e permitindo o seu pleno desenvolvimento. Neste sentido, considera que todas as formas de Estado que não obedeçam a esta racionalidade não são, portanto, reais.

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: