1970

Eurocomunismo e subida de Allende ao poder

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Eurocomunismo e subida de Allende ao poder – O ano é internacionalmente assinalado pelas mortes de Charles De Gaulle (9 de Novembro), de Nasser (28 de Setembro) e de Bertrand Russell (2 de Novembro), enquanto sobem ao poder Sadat, Hafez Assad e Allende (24 de Outubro) e se dá a vitória dos conservadores de Edward Heath nas eleições britânicas (18 de Junho). É tempo dos muitos projectos de reforma da CEE, desde a aprovação do Plano Barre, sobre a criação de um mecanismo de apoio monetário a curto prazo (26 de Janeiro), ao lançamento dos Planos Werner (8 de Outubro), sobre a união económica e monetária, e Davignon (27 de Outubro), quanto à união política. Destaque para a adopção do regulamento financeiro da PAC (7 de Fevereiro), bem como para o chamado Tratado do Luxemburgo (22 de Abril), que entrará em vigor em1971, onde se criam recursos próprios das Comunidades, em lugar das anteriores contribuições financeiras dos Estados, ao mesmo tempo que se atribuem poderes orçamentais ao Parlamento Europeu. Sicco Mansholt apresenta o projecto de reforma agrícola (29 de Abril) e em Outubro já são aprovados os planos Werner e Davignon. O primeiro fixa para o ano de 1980 a realização da união económica e monetária. O segundo institui um plano de cooperação política entre os Estados membros fora do quadro institucional comunitário, a chamada cooperação política europeia. Assim, logo reúnem em Munique os ministros dos estrangeiros (19 de Novembro). Quanto alargamento, realiza-se no Luxemburgo uma conferência diplomática com os candidatos à adesão (30 de Junho) e começam as conversações a nível ministerial com Portugal (24 de Novembro). O recenseamento dá 8 663 252 habitantes no Continente e Ilhas e 49 461 estudantes universitários (contra cerca de vinte e quatro mil, dez anos antes) e com 58 605, três anos depois (20,9% de mulheres). Continua o ritmo emigratório, com 183 205 saídas (1970), 158 473 (1971), 115 545 (1972), 129 732 (1973), 80 859 (1974), mas, entre1960 e1968 apenas produzimos 168 doutoramentos nas universidades portuguesas. Entretanto, Américo Tomás é promovido a almirante, sendo o quarto português assumir tal categoria, depois de Baptista de Andrade, Canto e Castro e Gago Coutinho.

Entre o acaso e a necessidade – No ano em que Paul Samuelson recebe o Nobel da economia, refira-se que o prémio Nobel da medicina de 1965, o francês Jacques Monod publica um ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, Le Hasard et la Necessité, enquanto Jean-Marie Bénoist proclama que Marx est Mort, enquanto o jesuíta belga, que, no Brasil, é colaborador de D. Helder da Câmara, bispo da Olinda e Recife, Joseph Comblin, teoriza a Théologie de la Révolution. No ano da inauguração da barragem de Assuão e da fundação do movimento Greenpeace, em Amsterdão, o britânico Norman Cohn, inventaria os milenaristas revolucionários e os anarquistas místicos da Idade Média, em The Pursuit of the Millenium e Albert O. Hirschman consagra-se com Exit, Voice and Loyalty. Já o romancista francês Michel Déon publica o grande fresco de Les Poneys Sauvages e o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes edita uma recolha dos respectivos escritos de 1952 a 1959, Endireitai as Veredas do Senhor! e Francisco Lucas Pires publica a sua dissertação de pós-licenciatura O Problema da Constituição, enquanto surge, de Joel Serrão, uma Antologia do Pensamento Político Português, infelizmente reduzida ao Liberalismo, Socialismo, Republicanismo e Silvino Silvério Marques lança a Estratégia Estrutural Portuguesa. Na altura, o jovem Marcelo Rebelo de Sousa ainda apoia Marcello Caetano, cabendo-lhe a autoria de artigos pró-situacionistas em A Capital, sob o pseudónimo de Coesus.


 

M. Forsythe, The Theory of International Relations; Ernst B. Haas, The Web of Interdependence; Marcel Merle, La Vie Internationale; James N. Rosenau, The Adaptation of National Societies. A Theory of Political System Behavior and Transformation e The Scientific Study of Foreign Policy.

A nossa época deverá dizer um grande obrigado ao comunismo: graças ao medo que o mesmo inspira, os países não comunistas terão feito um gigantesco esforço social para lhe retirar a sua razão de ser e melhorar a vida dos seus povos. Pelo contrário, nos países comunistas, o proletariado sentiu pesar sobre si uma mão de ferro, quase tão rude quanto a que caiu sobre o povo inglês no começo da revolução industrial no século XIX

(Michel Déon)

Materialismo por materialismo, o do comunismo tinha pelo menos o mérito de ser franco e inspirado pelo entusiasmo e pela fraternidade. Sabíamos que as velhas estruturas tinham ruído e que era preciso substituí-las. Mas deveríamos confiar em tecnocratas que preparavam, em nome da moral, um mundo de uma amoralidade perfeita, ou nos comunistas que preparavam por meio da amoralidade um mundo moral que pretendiam perfeito?

(Michel Déon

 

O ano é internacionalmente assinalado pelas mortes de Charles De Gaulle (9 de Novembro), de Nasser (28 de Setembro) e de Bertrand Russell (2 de Novembro), enquanto sobem ao poder Sadat, Hafez Assad e Allende (24 de Outubro) e se dá a vitória dos conservadores de Edward Heath nas eleições britânicas (18 de Junho).

After the Revolution?

ä Dahl, Robert Obra subtitulada Authority in a Good Society. Está dividida em três partes. A primeira, sobre os três critérios da autoridade, abrange as seguintes matérias: escolha pessoal, competência e economia. Na segunda parte, sobre os diversos tipos de poder democráticos, analisam-se a soberania do povo; o princípio dos interesses afectados; as formas da democracia; a superioridade da democracia; o dilema da democracia directa; a dimensão humana da democracia. Na terceira parte, intitulada dos princípios aos problemas, abordam-se os seguintes assuntos: a desigualdade de recursos; uma firma mastodôntica; a democracia mastodôntica. (cfr. trad. fr. Après la Révolution. L'Autorité dans une Societé Modèle, Paris, Éditions Calmann-Lévy,1973)

Entre o acaso e a necessidade

No ano em que Paul Samuelson recebe o Nobel da economia, refira-se que o prémio Nobel da medicina de 1965, o francês Jacques Monod publica um ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, Le Hasard et la Necessité, enquanto Jean-Marie Bénoist proclama que Marx est Mort, enquanto o jesuíta belga, que, no Brasil, é colaborador de D. Helder da Câmara, bispo da Olinda e Recife, Joseph Comblin, teoriza a Théologie de la Révolution. No ano da inauguração da barragem de Assuão e da fundação do movimento Greenpeace, em Amsterdão, o britânico Norman Cohn, inventaria os milenaristas revolucionários e os anarquistas místicos da Idade Média, em The Pursuit of the Millenium e Albert O. Hirschman consagra-se com Exit, Voice and Loyalty.

Já o romancista francês Michel Déon publica o grande fresco de Les Poneys Sauvages e o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes edita uma recolha dos respectivos escritos de 1952 a 1959, Endireitai as Veredas do Senhor! e Francisco Lucas Pires publica a sua dissertação de pós-licenciatura O Problema da Constituição, enquanto surge, de Joel Serrão, uma Antologia do Pensamento Político Português, infelizmente reduzida ao Liberalismo, Socialismo, Republicanismo e Silvino Silvério Marques lança a Estratégia Estrutural Portuguesa. Na altura, o jovem Marcelo Rebelo de Sousa ainda apoia Marcello Caetano, cabendo-lhe a autoria de artigos pró-situacionistas em A Capital, sob o pseudónimo de Coesus.

No Chile o socialista Salvador Allende (1908-1973), integrado numa frente com os comunistas, o Movimento de Acção Popular Unificado, vai iniciar a experiência de governo dito de unidade popular que será derrubado em1973

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: