1964

Da emergência dos Beatles ao começo da era Brejnev

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Da emergência dos Beatles ao começo da era BrejnevO grupo de música britânico The Beatles torna-se um sucesso internacional, Martin Luther King é galardoado com o Nobel da paz, realizam-se os Jogos Olímpicos de Tóquio e ascende ao comando soviético Leonid Brejnev, enquanto Lindon B. Johnson é eleito presidente norte-americano. A França gaullista, em clara rebeldia, trata de reconhecer o regime de Mao Tse Tung (27 de Janeiro), os norte-americanos reforçam o seu dispositivo militar no Vietname e o Papa visita a Terra Santa e Bombaim (2 a 5 de Dezembro), enquanto nasce a OLP e Nelson Mandella é condenado a prisão perpétua. Na Índia, morre Nehru, para, dois anos depois, a sua filha Indira Gandhi, lhe suceder. Entretanto, reúne em Genebra a I Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), a partir da qual se forma o Grupo dos 77 que elabora a reivindicação sobre a necessidade de uma nova ordem económica internacional que vai marcar o ritmo das chamadas relações Norte-Sul.

Da luta de classes a um mundo dividido – No plano das ideias, enquanto o desespero de uns fala no suicídio do ocidente (Burnham), Raymond Aron reflecte sobre La Lutte de Classes de Aron, nem as primeiras lições sobre ideologias políticas publicadas por Adriano Moreira. A Europa vive com alguns títulos épicos, uma Europe en devenir (Farine,1964), que se pretende beyond the Nation-State (Haas), onde já se faz a história da respectiva ideia (Voyenne), enquanto Saul Bernard Cohen, retoma as velhas sendas estrategistas em Geography and Politics in a Divided World. Destaca-se, em Portugal, a publicação das Lições de Economia de Francisco Pereira de Moura, doutorado em1961, catedrático desde 1972 e é interessante o inventário apresentado pelo militante comunista Pedro Ramos de Almeida à União Internacional de Estudantes, O Processo do Salazarismo, onde se salientam os 37 anos sem eleições, um corporativismo de Estado, liberdades políticas suprimidas, existência de uma polícia política, organização paramilitar obrigatória da juventude, defesa obstinada dos princípios colonialistas e clara posição contra a paz e o desarmamento. Já o baladeiro Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) lança o seu primeiro álbum onde fica célebre a Trova do Vento que passa, com letra de Manuel Alegre.

A cisão delgadista contra o PCP – Em Abril, é aprovado no PCP o relatório de Álvaro Cunhal Rumo à Vitória. As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional. Terceira Terceira Conferência da Frente Patriótica de Libertação Nacional, reunindo o PCP, a Resistência Republicana e o MAR, onde Humberto Delgado é afastado da organização. Delgado chega a Argel (27 de Junho) ainda convalescente, de uma intervenção cirúrgica a que é submetido em Praga (27 de Maio) e, pouco depois, cria uma Frente Portuguesa de Libertação Nacional, entrando em ruptura com as estruturas integrantes da FPLN, principalmente o PCP. É então que passa a ser apoiado por Henrique Cerqueira, a partir de Rabat. Acusa os membros do grupo de Argel de politiqueiros palavrosos. O delírio conspirativo de Delgado leva-o a conceber vários planos para o derrube do regime, nomeadamente uma chamada operação laranjas, com a instalação de um governo provisório em Macau, para o que pensa contar com o apoio da China. O isolamento do general propicia que este caia numa cilada armada pela polícia política que o atrai a Espanha em Fevereiro de 1965, onde viria a ser assassinado.

Projecto de fusão das instituições comunitárias

Brejnev sobe ao poder

França reconhece a República Popular da China

Jonhson ganha eleições

Reforça-se o dispositivo militar no Vietname

Luther King, prémio Nobel da paz

Sartre recusa o prémio Nobel

The Beatles são um sucesso

Paulo VI visita a Terra Santa

Jogos Olímpicos de Tóquio

Golpe militar no Brasil

Abertura, em Genebra, do Kennedy Round

· Inauguração da Barragem de Assuão

CNUCED I em Genebra reúne 123 Estados

Morte de Nehru

Independência do Malawi, da Zâmbia e de Malta

Primeira bomba atómica chinesa

II Conferência dos Não Alinhados

Discurso de Mao contra o imperialismo russo

 

Bernard Crick

Só há política quando se atinge um sistema político estável marcado pelas seguintes características: uma sociedade que reconheça ser complexa, composta de indivíduos e onde existam instituições representativas; onde a elite governante não exclua a participação política de outros grupos; onde exista uma classe média considerável; onde o governo exerça uma actividade predominantemente secular; onde o conflito social seja admitido como normal e institucionalizado; onde o crescimento económico não crie extremos de riqueza; onde a sociedade possa defender-se de forma normal, pelos meios diplomáticos e militares, mas onde também possa controlar os seus militares; onde haja uma tradição de especulação política, levando a que a elite governante tenha o desejo de actuar politicamente

 

A revolução começa quando um governo, controlado anteriormente por uma entidade política soberana se torna objecto de reivindicações efectivas, concorrentes e exclusivas, provindas de duas ou mais entidades políticas. Conclui-se quando uma entidade política soberana única retoma o controlo do governo

Malta

Malta (Repubblika Ta'Malta) A ilha de Malta, juntamente com a de Gozo, constitui um Estado com 316 km2 e 354 000 habitantes. Vive as vicissitudes da Sicília desde 1091 a 1530; nesta data, o imperador Carlos V cede-a à Ordem dos Hospitalários que haviam sido expulsos de Rhodes pelos turcos e que apartir de então se designou por Ordem de Malta, passando a constituir um Estado soberano electivo que resistiu às pressões turcas. Dominada pelos franceses de 1798 a 1800, é, depois, ocupada pelos ingleses e integrada no Império Britânico, sob a forma de colónia, desde 1814. Independente desde 21 de Setembro de 1964, tornou-se república em1974, sob a direcção do partido trabalhista (Malta Labour Party), dirigido por Dom Mintoff (n. 1916), no poder entre 1955 e1984. Em1987 vence as eleições o Partido Nacionalista de Malta, de marca centrista e democrata-cristã, dirigido por Fenech-Adami, iniciando-se um processo de aproximação à integração europeia.

The Vendée

Tilly, Charles Doutor em sociologia por Harvard (1958). Professor em Delaware, Harvard, Toronto e Michigan, aqui desde 1969. A partir de 1984, em Nova Iorque. Funda, com Barrington Moore e Theda Skocpol, o movimento norte-americano da chamada sociologia histórica do político.

Partindo da análise da Vendeia, salienta que na revolução, há uma soberania múltipla: a revolução começa quando um governo, controlado anteriormente por uma entidade política soberana se torna objecto de reivindicações efectivas, concorrentes e exclusivas, provindas de duas ou mais entidades políticas. Conclui-se quando uma entidade política soberana única retoma o controlo do governo. Elabora a seguir uma teoria sobre a formação dos estados nacionais na Europa Ocidental, considerando o Estado como o contrário da sociedade tradicional, assinalando que o mesmo é constituído por três elementos: um povo, um território e uma organização política diferenciada.

The Vendée, Cambridge, Mass., Harvard University Press,1964. Cfr. trad. Fr. La Vendée, Révolution et Contre-Révolution, Paris, Librairie Arthème Fayard,1970

Nation-Building and Citizenship ,1964 Reinhard Bendix assinala o facto da construção do Estado ser inseparável do processo de burocratização, pela qual emergiu uma administração pública com controlo sobre o recrutamento do respectivo pessoal e, portanto, tendencialmente independente tanto da competição política como dos próprios interesses privados. Esta nova burocracia dos funcionários do Estado serve, aliás, como ponta de lança do poder central dos reis contra a aristocracia, situação paralela à própria utilização de tropas mercenárias pelos reis, para ultrapassarem a necessidade de recurso aos exércitos quase privados das aristocracias. Toda a burocracia tende sempre a desenvolver a ideia do Estado como algo de mais duradouro que os governos ou as pessoas dos soberanos. Trata-se, com efeito, de uma burocracia que concebe os ofícios como uma função pública, um officium ou um ministerium, de servus ministerialis, onde, contra a anterior concepção, se considera que o cargo público existe para a realização de um determinado fim e com poderes vinculados à respectiva concretização, contrariamente à ideia de honra. Considera-se também que a competência, porque existe uma missão a cumprir, é mais importante que a fidelidade. Finalmente, salienta-se que a função é marcada pelo princípio da responsabilidade, isto é, que aqueles para os quais existe podem afastar o funcionário do cargo, revogando-lhe a missão em caso de prevaricação (revocabilidade em lugar de patrimo­nialidade) (Nova Iorque, Wiley,1964)

Geography and Politics in a Divided World, 1964 Saul Bernard Cohen opõe o chamado Mundo Marítimo Dependente do Comércio (Trade Dependent Maritime World) constituído pela América e Caribe, Europa Marítima e Magrebe, Ásia Insular e Oceânia, bem como pela América do Sul , ao mundo continental euro-asiático (Eurasian Continental Power) constituído pela Heartland russa e Europa do Leste e pelo Leste Asiático Continental , com choques frontais nas chamadas zonas de fractura (Shatterbelts) do Médio Oriente, do Sudeste Asiático e da África ao Sul do Saará. Refere também a existência de regiões politicamente independentes (Independent Geopolitical Region), como a Índia e as áreas ribeirinhas do Pacífico

In Defence of Politics, 1964 Bernard Crick considera que só há política quando se atinge um sistema político estável marcado pelas seguintes características: uma sociedade que reconheça ser complexa, composta de indivíduos e onde existam instituições representativas; onde a elite governante não exclua a participação política de outros grupos; onde exista uma classe média considerável; onde o governo exerça uma actividade predominantemente secular; onde o conflito social seja admitido como normal e institucionalizado; onde o crescimento económico não crie extremos de riqueza; onde a sociedade possa defender-se de forma normal, pelos meios diplomáticos e militares, mas onde também possa controlar os seus militares; onde haja uma tradição de especulação política, levando a que a elite governante tenha o desejo de actuar politicamente In Defence of Politics, Harmondsworth, Penguin Books,1964 [trad. port. Em Defesa da Política, Brasília, Editora da Universidade de Brasília,1981].

Moltmann, Jürgen (n. 1926) Teólogo protestante alemão, docente na Universidade de Tubinga. Uma das referências da teologia da libertação. Tal como Teilhard de Chardin, considera que Deus não é apenas transcendência metafísica, mas também transcendência histórica, isto é, face à história, não é apenas o que está acima, mas também o que está adiante.

· Teologia de la Esperanza

[ed. orig.1964], trad. cast., Salamanca, Ediciones Sígueme,1989.

 

 

 

 

 

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: