1960

Comemorações henriquinas, fuga de Cunhal, prisão de Agostinho Neto e revolta de Mueda

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

Da instituição da EFTA à eleição de John Kennedy. Num discurso proferido em 3 de Fevereiro de 1960, no parlamento sul-africano o primeiro ministro britânico Harold MacMillan declara que the wind of change is blowing through this continent, and, wether we like or not, this growth of national conscionsness is a political fact. A expressão procura reflectir o movimento de independências em África, continente que, de cinco Estados soberanos em1955 passa a 27 nesse ano de 1960. O tema será bastante glosado no Portugal salazarista, onde procura resistir-se aos ventos da história. Com a França dominada pela questão argelina, o ambiente da chamada détente é abalado, principalmente depois da questão do U2 (avião espião norte-americano abatido sobre a URSS em 1 de Maio). Também Cuba vira para o campo soviético, com Fidel a expropriar empresas e interesses norte-americanos (Maio e Julho) e dá-se a ruptura entre Pequim e Moscovo. Os franceses passam a dispor de bomba atómica, enquanto De Gaulle defende uma Europa das Pátrias (05 de Setembro) e, no Brasil, é inaugurada a nova capital, Brasília, projectada pelo arquitecto Óscar Niemeyer, de acordo com o sonho do presidente Juscelino (21 de Abril). São criadas a OCDE e a EFTA, surge a conferência de solidariedade afro-asiática de Conakry e John Fitzgerald Kennedy é eleito presidente norte-americano, derrotando o vice-presidente Richard Nixon. A Serra Leoa alcança a independência (27 de Abril), com a liderança de Milton Margai, bem como o Tanganica (9 de Dezembro). Em África, tornam-se também independentes vários Estados: Senegal e Mali (20 de Junho), Mauritânia (28 de Novembro), Nigéria (01 de Outubro), Níger (3 de Agosto), Madagáscar (26 de Junho), Ubangui-Chari (13 de Agosto), Camarões (1 de Janeiro), Congo ex-belga (1 de Julho), Congo ex-francês (15 de Agosto), Chade (11 de Agosto), Costa do Marfim (7 de Agosto), Gabão (17 de Agosto), Somália (20 de Junho), Togo (27 de Abril).

Da FIL a Eusébio. O recenseamento marca a existência de 8 851 289 habitantes no Continente e Ilhas, numa altura em que também se contabilizam 23 877 estudantes universitários (cerca de treze mil, dez anos antes, passando as mulheres de 5,4% para 10,6%, antes de chegaram a 18,7 no começo da década de setenta) e a AIP, ainda dirigida por Francisco Cortês Pinto, desde 1942, promove a I Feira Internacional de Lisboa. Enquanto isto, chega a Lisboa o jovem jogador de futebol moçambicano Eusébio da Silva Ferreira, então com 18 anos de idade. Registam-se nesse ano 35 159 emigrantes, iniciando-se uma década, onde a sangria é crescente, mesmo utilizando os números oficiais dos chamados movimentos legais, talvez metade do total: 38 572 (1961), 43 002 (1962), 55 218 (1963), 75 576 (1964), 91 488 (1965), 111 995 (1966), 94 712 (1967), 96 227 (1968), 155 672 (1969), mais de três quartos dos quais com destino à Europa. Em tempo de comemorações do centenário do Infante D. Henrique, de Março a Novembro, assistimos ao começo da actividade do Banco de Fomento Nacional (4 de Janeiro) e a uma conferência proferida por Arnold Toynbee no Instituto de Altos Estudos Militares (Fevereiro).

O tempo do fim das ideologias – No plano das ideias, conlui-se pelo fim das ideologias (Daniel Bell) e pela necessidade de uma filosofia moral (Weil), enquanto os norte-americanos afinam a teorização do desenvolvimentismo (Almond e Coleman) ou continuam as grandes linhas do behaviorismo, como Seymour Martin Lipset (1922), em Political Man. Já os Encontros Internacionais de Genebra reflectem sobre a fome e Gilbert Durand avança para Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, naquilo que depois desenvolverá como a imaginação simbólica, influenciado por Gaston de Bachelard, Piaget e Jung. Em Espanha, Luís Legaz y Lacambra reflecte sobre Humanismo, Estado y Derecho. Raros reparam que em Portugal Henrique Barrilaro Ruas publica um notável trabalho Ideologia. Ensaio de Análise Histórica e Crítica, marcando o ritmo do debate sobre o fim das ideologias que, em1961, também terá o contributo de Jean Meynaud, Le Déclin des Idéologies, antes de Raymond Aron teorizar mais uma vez Fin des Idéologies. Renaissance des Idées (1965). A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Saint-John Perse, recorda que, sob o pseudónimo, está Aléxis Léger, antigo colaborador de Briand e autor do relatório Sur l’Organisation d’un Regime d’Union Fédérale Européenne, apresentado à Sociedade das Nações em 1 de Maio de 1930, onde se estabeleceram alguns dos principais conceitos onde se filia o actual projecto europeu. Já Sartre, continuando a considerar o marxismo como a única antropologia do possível, lança Critique de la Raison Dialectique.

Católicos – No plano de organização dos católicos, destaque para a introdução do Movimento por um Mundo Melhor, e para a criação dos Cursilhos de Cristandade, que constituem uma espécie de alternativa à Acção Católica, quando já mostra uma certa pujança o Opus Dei, aqui chegado em1958, sobretudo a partir da Editorial Aster e da revista Rumo que cehgam a ser dirigidos pelo poeta Ruy Belo. Não tarda que surjam os Casais de Santa Maria,1963. os Focolares,1966, e o Renovamento Carismático, 1967, bases em que se fundará um movimento social-cristão que, pela primeira vez, desde 1820, não entrará em directo conflito com a maçonaria. Bem pelo contrário: a respectiva facção esquerdista tanto se aliará aos comunistas como receberá o apoio dos próprios maçons, opondo-se a um regime que havia sido conformado pela ideologia e pela liderança do Centro Católico Português que assim vê perder a sua fundamental base ideológica de apoio. Mas para cair ainda era preciso que o situacionismo perdesse o pé militar, o que só acontecerá depois de treze anos de guerra colonial.

Oposição republicana – Reactivada a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, que se filia na Fedération Internationale des Droits de L’Homme (2 de Janeiro). Em Maio assume a presidência deste grupo para-maçónico Luís Hernâni Dias Amado (1901-1991). Surge no Porto uma Frente Eleitoral Independente (30 de Setembro), para apoiar a candidatura da oposição nas eleições.

 Manifestações oposicionistas – Oposicionistas reúnem-se no Cemitério do Alto de S. João e manifestam-se, depois, nas ruas da Baixa de Lisboa (5 de Outubro). Alguns deles são presos pela PSP, como Mário Soares, libertado no dia seguinte. Terá havido uma carta de Mário de Azevedo a Américo Tomás intercedendo por Soares junto do Ministro do Interior Arnaldo Schultz. Segue-se nova manifestação oposicionista num almoço de homenagem a Mário de Azevedo Gomes (23 de Outubro). São mobilizados para a campanha nomes como os de Acácio Gouveia, Mário Soares, Mayer Garção, Armando Castanheira, Nuno Rodrigues dos Santos, Adão e Silva, Gustavo Soromenho, Fernando Piteira Santos, Rui Cabeçadas, Areosa Feio e Fernando Homem de Figueiredo. Alguns deles subscrevem uma representação dirigida ao Presidente da República solicitando autorização para a realização de um Congresso dos Democratas Portugueses, o lançamento de um semanário da oposição e uma amnistia para os presos políticos (Novembro).

Eleição nº 60 (Novembro). 816 965 000 votantes. Oposição acaba por desistir

Questão colonial – Em 3 de Março é recrutado para o cargo de subsecretário de estado da administração ultramarina o ex-oposicionista, ex-marcelista e futuro anti-salazarista, Adriano José Alves Moreira, então famado como o maravilhas, sucedendo a Álvaro da Silva Tavares, nomeado governador-geral de Angola. Em 17 de Dezembro chega a Lisboa, vindo de Lourenço Marques o jovem moçambicano Eusébio da Silva Ferreira, que será um dos maiores jogadores de futebol do século e um dos símbolos do Portugal luso-tropical.

Dá-se a revolta de Mueda em Moçambique (16 de Junho) e surge uma Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas. Entre os fundadores da Frente, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara e Viriato Cruz, do MPLA, Amílcar Cabral, do PAIGC, e Hugo de Meneses, do MAC (Março).

Prisão de Agostinho Neto em Luanda (8 de Junho), seguindo-se várias manifestações de protesto que são violentamente reprimidas. A Amnistia Internacional há-de considerá-lo o prisioneiro político do ano. Transferido para Lisboa em 8 de Agosto de 1960, é depois deportado para Cabo Verde e enviado novamente para Lisboa, em 17 de Outubro de 1961, para a cadeia do Aljube. Mal é posto em residência fixa, evade-se em Julho de 1962. Joaquim Pinto de Andrade, preso em Luanda, é transferido para a cadeia do Aljube, em Lisboa. Libertado em 8 de Novembro seguinte (4 de Julho).

Adesão à EFTA –Parecer da Câmara Corporativa nº 30/VII, de 13 de Abril, que tem como relator, o professor de economia Francisco Pereira de Moura, onde se critica a CEE por ter nascido sob o signo da profunda integração política, mas com uma enganadora aparência de arranjo de política económica e comercial. Isto é, o salazarismo faz suas as palavras de quem virá a ser um dos mais irrequietos responsáveis pela leveza das ideias do PREC, quanto à pesada herança económica do regime do Estado Novo.

Política externa Há um certo fulgor na política externa portuguesa, no ano em que aderimos ao BIRD e ao FMI e Lisboa recebe as visitas de Franz Joseph Strauss a Lisboa (10 a 17 de Janeiro), Sukarno (5 de Maio), Eisenhower (19 de Maio) e dos reis da Tailândia (22 de Agosto), enquanto se inaugura a I Feira Internacional de Lisboa (9 de Junho).

Comunistas – Álvaro Cunhal e outros militantes comunistas fogem da cadeia de Peniche, com o apoio de um militar da GNR que aceita ser subornado, permitindo um dos mais ousados e heróicos episódios da luta comunista contra o regime (3 de Janeiro). Greve em Aljustrel com ocupação das minas e da sede do sindicato. Cerca de uma centena de detidos (Abril). Greves de protesto comemoram o Dia do Trabalhador (1 de Maio). Reunião do comité central do PCP, onde é apresentado um relatório de Álvaro Cunhal intitulado A tendência anarco-liberal no trabalho de direcção, onde se criticam alguns elementos do próprio comité central (Dezembro). Neste ano, Cunhal subscreve um acordo com a comunista espanhola Dolores Ibarruri, representando o PCE, onde decidem apoiar o modelo frentista para a Península Ibérica, tendo como símbolos o general Humberto Delgado e Emílio Herrera, o chefe do governo republicano espanhol no exílio.

 

& Antunes, José Freire (I, 1985): 31; Costa, Ramiro da (II): 149; Cruz, Manuel Braga da (1998): 163; Soares, Mário (1972/1974): 291; Presos Políticos no Regime Fascista 1952-1960: 539 ss. (315 presos); Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 129 ss.; Tomás, Américo (III): 56, 65, 73.

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