1975
 

Março
Eurocomunismo

 

 

 

Reúne o primeiro Conselho Europeu em Dublin; adoptado um compromisso relativo à contribuição financeira britânica (10 e 11 de Março)

Decisão do conselho de ministros da CEE quanto à instauração de um Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (18 de Março)

14º Congresso do Partido Comunista Italiano; Berlinguer* põe reservas sobre a evolução do processo revolucionário português (18 de Março)

 

Um baldio uníssono – Miguel Torga escreve artigo em A Capital criticando o gonçalvismo: quando formos apenas suporte de figurinos alheios, não seremos nós; quando a nossa voz não passar de um baldio uníssono, seremos escravos; quando nos detestarmos mutuamente, em vez de sadios cidadãos discordantes, seremos irmãos tragicamente divididos. É pois necessário interromper sem demora esta corrida louca que nos leva à perdição (6 de Março).

Matança da Páscoa – Exilados em Madrid, tomam conhecimento de uma lista dita da matança da Páscoa, fornecida por serviços secretos estrangeiros (8 de Março)

Golpe em Portugal – No dia 11 de Março, depois de uma movimentação de forças para-quedistas, afectas aos sinolistas, que, vindas de Tancos, chegam a atacr o quartel do RAL-1, de Moscavide, que também é atacado pela força aérea, dá-se um eficaz contra-golpe, ao serviço do situacionismo revolucionário, que leva ao exílio os militares da ala direita do MFA, lançando o país num processo já eficazmente comandado pelos comunistas. Seguem-se nacionalizações revolucionárias da banca, das seguradoras e dos grandes grupos económicos, numa assembleia selvagem do MFA, a dita nave dos loucos, marcada pela chamada revolução dos homens sem sono (11 de Março). É desmantelada a direita militar com a prisão dos irmãos Rafael e Ricardo Durão, Ferreira Damião, Almeida Bruno, Manuel Monge, Galvão de Melo e Soares Carneiro. São também detidos capitalistas e potenciais líderes políticos de direita, de José Roquete a José Miguel Júdice. De referir que se em 25 de Abril de 1974, o fascismo conservava 128 presos políticos, verificaremos que até 25 de Novembro de 1975 passarão pelos cárceres revolucionários cerca de cinco mil detidos políticos.

Mudanças revolucionárias – Emitidos vários decretos revolucionários: instituição do Conselho da Revolução, com extinção do Conselho de Estado e da Junta de Salvação Nacional; criação da Assembleia do Movimento das Forças Armadas; nacionalização da banca (14 de Março). Decreto sobre a nacionalização das companhias de seguros (15 de Março). Tomada de posse do novo Conselho da Revolução (17 de Março). Publicados vários diplomas sobre as nacionalizações: Sacor, Petrosul, Sonap, Cidla, CP, CNN, CPTM, TAP. Siderurgia Nacional, empresas de electricidade (16 de Abril).

Socialistas ainda são revolucionários – Mário Soares, em 31 de Março, concede uma entrevista à revista espanhola Cambio 16, onde considera que a nacionalização da banca consta do nosso programa, ao contrário do programa do PCP, onde não consta.

Governo nº 107, o IV Governo Provisório de Vasco Gonçalves ö desde 26 de Março de 1975, 135 dias. PS abandona este gabinete em 11 de Julho de 1975. Segue-se o PPD em 17 de Julho. Toma assim posse não só um novo governo, como também um governo novo. O quadro institucional alterara-se radicalmente: em vez dos iniciais Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, os órgãos de cúpula no novo sistema são agora um Conselho da Revolução e uma Assembleia do MFA.

●Entre os ministros: Arnão Metelo, Oliveira Baptista, Sá Borges, Silva Lopes, Correia Jesuíno, Almeida Santos, Silvano Ribeiro, José Emílio da Silva, José Augusto Fernandes, José Joaquim Fragoso, João Cravinho, Francisco Salgado Zenha, Melo Antunes, Mário Murteira, Álvaro Cunhal, Magalhães Mota, Mário Soares, Costa Martins e Veiga de Oliveira.

●Mais três partidos são suspensos (o Partido da Democracia Cristã, então dirigido pelo antigo ministro spinolista Sanches Osório e dois agressivos partidos maoístas que tanto incomodam o PCP, o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado e a Aliança Operário-Camponesa).

●A banca é nacionalizada e com ela quase todos os principais órgãos da comunicação social.

●Finalmente, as eleições são adiadas e desencadeiam-se novas campanhas de dinamização cultural no país do Norte interior.

●Entretanto, o PCP desvia para Moscovo a parte mais escabrosa dos arquivos da PIDE, conforme se há-de revelar em The Mitrokin Archive, Londres, Penguin Books, 199, da autoria de Cristopher Andrew e Vasili Mitokin, antigo operacional do KGB. Outros operacionais e colaboracionistas desta entidade, principalmente os portugueses, continuam silenciados, especialmente na zona de águas turvas da chantagem sobre crimes contra os costumes, desde a pedofilia ao consumo de droga. Resta saber até que ponto o silenciamento de casos como os da Casa Pia não terão cumplicidades desta zona parapolítica.

Vivam as amplas liberdades – Álvaro Cunhal proclama: os partidos que conspiram contra a liberdade devem ser proibidos e os seus dirigentes severamente punidos (27 de Março).

Sá Carneiro abandona Portugal e vai para Londres, a fim de receber tratamento: Apenas vem votar a Portugal no dia 25 de Abril, sendo sujeito a nova intervenção cirúrgica nos princípios de Maio (29 de Março).

 

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Abril Maio Junho
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Outubro Novembro Dezembro

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©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: